sábado, 9 de março de 2013

Discurso de Ercio Bemerguy, na Sessão da Saudade promovida pela Alas


Confesso que me sinto honrosamente distinguido para prestar, nesta Sessão da Saudade, em nome desta Academia e de meus ilustres confrades, uma homenagem póstuma ao nosso saudoso companheiro Emir Bemerguy, meu querido irmão.

Os seus familiares e certamente as pessoas que tiveram a felicidade de conhecê-lo, sentem muito a falta de Emir, pelo exemplo que deixou de fidelidade aos amigos, de renúncia, de humildade, de simplicidade, de dignidade e determinação em tudo que fez.

Como diz a canção: “dor tão sentida e a saudade dele está batendo em nós”. Mas, somente o tempo será capaz de ir, pouco a pouco, transformando a grande dor da sua ausência em doce e suave saudade.

Quem teve, como Emir, uma vida digna, amando intensamente Santarém e o seu povo, seus familiares e amigos, viverá eternamente em nossa memória, em nossos corações.

Emir foi dentista. Mas exerceu a profissão por 30 anos, apenas para sobreviver, para garantir o sustento de sua família, sendo também necessário, para aumentar um pouquinho mais a sua renda, atuar como professor nos Colégios Dom Amando, Santa Clara e na FIT. Mas, o que lhe dava prazer na vida eram as letras. Era escrever, compor, poetar, versejar...

Deixou, de sua vasta produção intelectual, centenas de poesias, crônicas, 20 livros prontos para serem publicados, enfim, um grande acervo que está sendo guardado e, tenho certeza, será preservado com muito zelo e carinho por sua esposa e seus filhos. Além disso, o meu sobrinho Emirzinho, criou, e está disponível na internet, o blog “ Saudade Perfumada”, para divulgar poemas, crônicas, frases, fotos, textos de livros ainda inéditos, enfim, parte do legado cultural de seu pai. Com o mesmo objetivo, criei, no meu blog “O Mocorongo”, o “Cantinho do Emir”. Estamos, portanto, eu e Emirzinho, satisfazendo um desejo de Emir, relacionado à divulgação de sua obra. Ele escreveu:

“Sei que as criações literárias e artísticas, desde que emergem das fundas abismais de almas torturadas ou alegres, não mais pertencem ao escafandrista de misérias ou quimeras que logrou garimpá-las: incorporam-se ao patrimônio cultural coletivo, por desvaliosas ou geniais que se afigurem aos múltiplos e conflitantes critérios de julgamento. Afinal, em meio aos diamantes esplêndidos há sempre uns vidrilhos ordinários que acabam, entretanto, proporcionando pequenas alegrias a pessoas cujas ambições não ultrapassam modestos limites.

Meus versos, minhas crônicas, meus livros, são esses vidrilhos sem valor, mas que podem, aqui e ali, projetar um raiozinho de luz em alguma vida escura, como o foi a minha, antes do encontro definitivo com o Cristo de todas as claridades.”

Emir encontrou, no seio da Igreja Católica, a fonte límpida para o seu pensamento cristão e a inexaurível inspiração para o seu critério de valores. Fiel ao Evangelho sem tergiversações, tornou-se arauto e mensageiro da doutrina de Cristo, pregando o amor, a paz e a justiça. Ele foi, em vida, a mais pura encarnação da humildade, da bondade e da fé.

Santarém – terra privilegiada na sua maternidade de talentos e virtudes de seus filhos, foi uma das fontes de inspiração dos versos que Emir compunha, sempre louvando, enaltecendo, enfim, externando seu amor e sua paixão pelas belezas da nossa querida Pérola do Tapajós.

Emir não nasceu em Santarém, e sim, em Fordlândia, região do Tapajós, em 04 de março de 1933. Mas, amava, era apaixonado por Santarém, onde viveu durante mais de meio século.

Fruto desse seu amor, dessa sua paixão, nasciam versos como estes:
“Ó minha Santarém, tu me apaixonas
Que maravilha fico eu vendo a sós
O beijo amorenado do Amazonas
Na face verde-azul do Tapajós”
=
Santarém eu te namoro
Tenho imenso amor por ti!
E pergunto por que Deus
Não me fez nascer aqui.
==
Vim de longe, mas agora
Mocorongo sou também!
Quem quiser brigar comigo
Fale mal de Santarém.
=====
==
E é preciso lembrar, citar aqui, uma das mais famosas frases de Emir : “Não permito, senhores, que ninguém goste mais do que eu de Santarém”.
 
Emir aprendeu, desde criança, a procurar a felicidade limitando os desejos em vez de tentar satisfazê-los. E isto ele disse em versos:

“Eu não ligo pra dinheiro,
Nem pro luxo da cidade.
Vivo em paz o tempo inteiro
Com minha felicidade.
==
Não tenho carro, ando a pé,
E digo muito à vontade,
Que de meu só tenho a fé
E a minha felicidade.
==
Vivo bem, sem empecilhos,
Sem riqueza, sem vaidade.
A mulher e os sete filhos
São minha felicidade.

Eu disse, antes, que uma das fontes de inspiração para os poemas de Emir, era Santarém. Mas, é preciso que eu diga, também, e com muita ênfase, que a principal delas, foi a sua esposa Berenice que, pra ele, durante os 58 anos de feliz união conjugal, “não foi propriamente uma mulher, mas uma flor, uma jóia rara, preciosa. Uma gigante que nem chega a ter 1 metro e 60 de altura, mas carrega sentimentos e uma pureza d’alma de dimensões indescritíveis”, como bem a caracterizou o jornalista Paulo Bemerguy, nosso sobrinho.

Não são poucos os poemas que Emir dedicou à Berenice, sua musa inspiradora. Um deles, foi este, denominado Luz que não se apaga:


Tens o costume de indagar, brincando,
Para quem são os versos que componho...
Mas transparece, disfarçado e brando,
Certo ciúme em teu olhar tristonho.
==
Por isso mesmo é que, de vez em quando,
Toda a minh’alma num soneto eu ponho
Para provar que ainda está brilhando
A velha estrela do meu lindo sonho.
==
Se procurares, acharás, dispersos,
Pedacinhos de ti em tantos versos,
Detalhes do teu porte singular.
==

Se for preciso repetir, repito,
E até a Lua escutará meu grito:
Hei de morrer, amor, a te adorar!
==

Mas, ninguém pense que Emir expressava o seu amor, a sua paixão pela Berenice, apenas versejando. Não! Ele também, dedilhando o seu violão, cantava para a sua amada, belas canções. Vamos escutá-lo... (foi reproduzida pelo sistema de som, a voz de Emir, gravada em uma fita K7, cantando a música “Eu sei que vou te amar”)

Lúcio Ercio, um dos filhos do mano Emir, aqui presente, escreveu uma bela crônica sobre a vida e a obra de seu pai e, em um dos trechos, disse:

“O que mais caracterizou a vida de meu pai, é muito grandioso. Estava no coração! Não foi poesia ou pescaria. Não, não foi isso não. Agora, lhes digo então: era ser pai de família, ser honesto e cristão. Ser instrumento de Deus, operário da evangelização. Fez isso todos os dias diante da nossa visão, com o auxílio da Virgem Maria, a Senhora da Conceição!”

Senhores e Senhoras, é tarefa difícil, tentar, como o faço agora, resumir, encurtar as palavras para falar sobre a vida e a obra do nosso homenageado. Neste meu modesto pronunciamento, procurei seguir a recomendação de Fernando Pessoa, ou seja, “Põe o que és no mínimo que fazes”. Falei pouco, talvez, mas, acreditem: esforcei-me ao máximo, procurei falar bem.

Muito obrigado!

sexta-feira, 8 de março de 2013

Discurso de Ercio Bemerguy, na ALAS

Permitam-me iniciar este meu pronunciamento, expressando o meu sincero sentimento de gratidão ao ilustre confrade Hélcio Amaral de Souza, que, com gentis palavras, dirigiu-me generosos elogios, decorrentes, talvez, da nossa sólida e antiga amizade iniciada em sala de aula do nosso querido Colégio Dom Amando.

Prezados confrades, queridas confreiras, senhores e senhoras: Todos aspiramos à imortalidade, senão do corpo, mas da alma. Pelo menos da alma. Nem todos externam esse anseio abertamente, porque é impossível, inalcançável, estranho à condição humana.

Mas vivemos para ter o impossível, para conquistar o inalcançável, para fazer das estranhezas eventos comuns. Tão comuns que poderão até se tornar banais.

A aventura humana tem sido assim: a busca eterna, a ousadia permanente de afrontar situações aparentemente imodificáveis, que ora podem servir apenas para nossos luxos e confortos, ora podem representar a melhoria substancial das condições de vida.

Nós, acadêmicos, não somos imortais. Imortal é o que legamos, é o que deixamos. Nós morremos. Ficam nossas obras.

Nossas vidas murcham e fenecem. Permanecem, em grande parte, os frutos daquilo que semeamos.

Perduram os sonhos que poderão ser edificados, em benefício das gerações que virão no curso de tempos intangíveis.

Esta respeitável, honorável Academia de Letras e Artes de Santarém, à qual agora tenho o orgulho de pertencer, expressa perfeitamente os limites entre a imortalidade e os sonhos.

Aqui, nesta augusta Academia – Suprema Corte da cultura e da inteligência santarenas, nossas referências são homens e mulheres que já se foram, que já nos deixaram.

Nossas referências imortais, que hoje velam por nós na Eternidade, eram mortais. Por isso nos deixaram. Por isso, transformaram-se em saudades.

Seus sonhos, suas obras, as sementes que plantaram, os edificantes exemplos de conduta que nos legaram, esses permanecem e permanecerão. Para todo o sempre.

Lembro, nesse sentido, de Dom Tiago Ryan, Bispo de Santarém e Patrono da cadeira 38, que agora passo a ocupar e que teve como primeiro ocupante Dom Lino Vombommel, também bispo desta Diocese.

Como tantos aqui entre nós, convivi intensamente com Dom Tiago. Tive a ventura de conhecer-lhe os méritos não apenas no que dizia, mas no que fazia.

Dom Tiago fez por Santarém o que muitos santarenos ainda não fizeram por esta Cidade. Amou Santarém como sua terra. E tanto é assim que está sepultado em nosso chão, como se estivesse a regá-lo nas entranhas, com as santas emanações de um espírito límpido e de uma alma elevada como a dele.

Dom Tiago é sonho vivo, é obra perene. Está vivo para sempre.

Lembro, também, de meu irmão Emir Hermes da Cunha Bemerguy, cuja morte pranteamos há pouco mais de três meses.

Eu jamais poderia imaginar que iria sucedê-lo nesta Academia. Jamais poderia imaginar que me sentaria na cadeira que um poeta, um escritor e um cidadão da sua estirpe ocupou.

Falar de Emir Bemerguy, descrevê-lo, mencionar suas obras, dar enlevo aos seus versos e suas prosas, tudo isso, enfim, é muito pouco diante do que ele representou para a cultura santarena e do Estado do Pará.

Emir Bemerguy é aquele que enfrentou espantosas agruras na vida, muitas delas descritas em detalhes no seu livro "Diário de um Convertido". Mas nunca se deixou conspurcar por fraquezas d'alma e por vícios de caráter.

Emir Bemerguy é aquele que pescava ao luar. Ou mesmo às escuras. Pescando, fisgava do fundo dos rios os sonhos que os levaram a transportar-se para poesias que nos fizeram cantar, embalar nossas ilusões. Poesias que, não raro, nos fizeram chorar.

Emir Bemerguy, meu irmão e mestre. Meu amigo, meu ídolo, e um de meus grandes exemplos. Eu nunca haverei de te substituir. Nunca haverei de ser como tu foste. Mas prometo, pelo menos, ocupar com dignidade a cadeira que ultimamente foi tua.

Como Dom Tiago, Emir Bemerguy também é sonho vivo, é obra perene.

Senhoras e Senhores, mais do que nos permitir a sensação de imortalidade, ingressar nesta Academia de Letras e Artes de Santarém nos inspira a convicção de que amar Santarém, mesmo não tendo nascido aqui, como foi o caso de Emir e dom Tiago, é contribuir para firmar esta cidade e esta região como polos irradiadores de cultura.

De minha parte estou certo de que busquei, na medida de minha capacidade, dos meus esforços e dos meios de que dispunha, promover a cultura santarena da melhor forma possível.

Como locutor da Rádio Rural de Santarém e tendo ainda atuado na Televisão Tapajós, apresentei programas que revelaram muitos talentos artísticos, entre cantores, cantoras, músicos, poetas e compositores.

O Programa E-29 Show, que por tantos anos comandei na Casa Cristo Rei, com a participação valiosa de meu parceiro e amigo-irmão Edinaldo Mota, não apenas se tornou um sucesso de público e de audiência enquanto durou, como se consolidou como um canal para dar divulgação aos valores desta terra.

A felicidade de ter contribuído concretamente para elevar a cultura santarena é um sentimento que, devo confessar, me gratifica enormemente. Sei, todavia, que minha missão não está encerrada.

Mesmo afastado do rádio há muitos anos, agora na convivência indescritivelmente prazerosa de minha mulher Albanira, filhos, genros, noras e netos, sinto que posso, ainda, contribuir grandemente, junto com meus colegas acadêmicos, para engrandecer a cultura desta terra tão querida.

É isso, aliás, o que tem sido feito elogiavelmente por esta ALAS, que merece as nossas mais ternas homenagens, os nossos mais sinceros respeitos e o nosso mais decidido apoio por tudo o que tem realizado nestes seus 9 anos de funcionamento.

Senhor Presidente, Senhoras e Senhores, cumpre-me, por justiça, fazer um sincero agradecimento aos acadêmicos que me escolheram para ocupar a vaga decorrente da partida de Emir Bemerguy. De modo especial, agradeço ao confrade Odilson Matos que, generosamente, fez a indicação do meu nome.

A Odilson não me ligam somente laços de amizade, mas de fraternidade. O colega de Banco da Amazônia tornou-se, no curso dos anos, um irmão que junto comigo partilhou a notável experiência de promover valores e talentos por este Tapajós a fora.

Odilson, como eu, também sabe que trabalhar pela dignificação de valores culturais que nos identifiquem com nossa terra, com nossa gente, não é missão fácil, porque nos impõe desafios. Mas é para superar desafios que precisamos viver.

Não fosse assim, não acalentaríamos sonhos, não nos deixaríamos inebriar pela sensação de imortalidade, não lutaríamos para impedir que feneçam as boas obras e para evitar que murchem os imorredouros exemplos.

Que eu possa, com a ajuda, com o entusiasmo, e o apoio  de meus colegas acadêmicos, buscar sempre a construção de sonhos. Até mesmo dos sonhos impossíveis.

É isso que sinceramente almejo. É isso que desejo de coração. É o que peço a Deus e a Nossa Senhora da Conceição, nossa Santa Padroeira.
Muito obrigado.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

"A IMPLANTAÇÃO DOS PLANOS SALDADOS DA CAPAF"

Para desviar a atenção dos investidores menos avisados, informa ainda que abriu prazo para adesões ao Prev Amazônia, um novo plano que teve a sua implantação autorizada pela PREVIC desde 06/08/2010, há exatos dois anos e meio, tempo durante o qual utilizou o retardamento na implantação como “combustível” na política de incentivar o apartheid entre ativos e aposentados do Banco, iniciado na era Valladares e continuado nas eras Mâncio e Abdias.

2. Na segunda publicação intitulada PROJETO DE REESTRUTURAÇÃO DA CAPAF (me parece que foi uma divulgação interna corpore) apenas confirma o meu ponto de vista, já arguido em muitas outras postagens que assinei nas mídias sociais (O Mocorongo e Opinião-AEBA) ou seja: que por interesses gêmeos, BASA/CAPAF e PREVIC implantariam os planos saldados a qualquer custo e com qualquer número de aderentes por plano, indiferentes à longevidade que eles possam ter e, principalmente ao custo que demandará dos participantes. Assim é que, mesmo considerando o crescimento espúrio dos 52% citados no Relatório da Administração do BASA/2012 (O PRAZO DE ADESÃO, COFESSA o BANCO, SE ENCERROU EM 09/10/12), por conta do assédio impiedosamente imposto aos aposentados e pensionistas pelo setor de Atendimento da CAPAF (à frente o Sr. Edgar) sob o surdo consentimento do Interventor, verdade é que NINGUÉM SABE qual o percentual de adesões em cada um dos dois planos saldados. É factível supor que desses 52% de adesões, o total vinculado ao “Plano Misto de Benefícios Saldados” (destinado aos egressos do AMAZONVIDA) seja, na pior das hipóteses duas vezes o número de adesões ao “Plano Saldado de Benefício Definido” (o BD), tendo em vista o nível de rejeição de um e outro dos grupos aos citados planos saldados. Grosso modo, deveremos ter um “Plano Misto de Benefícios Saldados”, similar do Amazonvida com um total, mais generoso que seja, situado em torno de uma fração desconhecida daquelas adesões obtidas pelo Amazonvida a quando da sua implantação em 2001, algo que não chegou a 30% do do total de participantes da CAPAF. O número exato das adesões aos novos planos sandados é “segredo de estado” do BASA/CAPF & PREVIC, mantido a “sete chaves” para esconder dos aderentes a inevitável explosão do custo do plano, depois de fechado o 1º exercício civil, quando será definido o Plano de Custeio para o exercício seguinte e os percentuais de contribuição dos participantes, na forma do que dispõe a LC109/2001. Lembremo-nos ainda que ao assinarem o Termo de Adesão aos Planos Saldados, os aderentes deram ao Banco, uma “carta de alforria” em relação ao que lhe obriga a LC-109 (contribuir paritariamente na cobertura dos déficits técnicos dos planos da CAPAF). Em meio a cláusulas ardilosamente truncadas há expressamente aquela em que o ADERENTE SE RESPONSABILIZA PELOS DÉFICITS FUTUROS DA CAPAF, sem qualquer referência à solidariedade do BASA. Uma cláusula ululante diante das obrigações estatuídas pela LC-109/2001 aos participantes e patrocinadores diante dos déficits apurados nos Planos de Previdência Privada. A esse respeito, não esqueçamos que a lei transige diante dos acordos pacificamente firmados entre as partes envolvidas. Com base nesse princípio, o BASA está automaticamente isento da responsabilidade de contribuir paritariamente para a cobertura de déficits futuros nos planos da CAPAF. Quem viver verá.

De tudo, senhores, o mais importante é observar que, objetivamente, a implantação dos Planos Saldados nada tem a ver com o processo da AABA. São processos afins, contudo jamais conexos ou interdependentes. Cada um seguirá seus trâmites como seguiriam se demandados em épocas distintas e não coincidentes. A correlação que BASA/CAPAF & PREVIC (esta por trás dos panos) buscam estabelecer entre os dois processos tem o tolo condão de servir como instrumento de pavor aos menos avisados, sustentado nas insinuações dos seus vassalos (Bancário Sensato e similares) nas quais, sub-repticiamente, prega que a justiça brasileira seria jogo de cartas marcadas e que a Sentença que condenou o Banco ao pagamento dos benefícios dos participantes do BD (por serem eles compromissados no âmago da relação de trabalha firmado pelo BASA e seus empregados) não prosperará no TST e STF.

Sem prejuízo das minhas avaliações, não podemos perder o foco de que qualquer das decisões que os participantes do BD ou do Amazonvida da CAPAF tomem em relação aos planos saldados envolve riscos. Aos que aderirem aos planos saldados, a incerteza quanto aos custos que em futuro breve terão que pagar por um plano com baixíssimos números de adesões (veja-se que o “Plano Misto de Benefícios Saldados”, que certamente catalisou a maior fatia das adesões totais, agrega somente parte dos menos de 30% das adesões obtidas a quando da criação do Amazonvida, em 2001 - repito). Aos que, sendo do BD, não migrarem, a dependência dos julgamentos da ação da AEBA nas duas derradeiras instâncias às quais recorrerão BASA/CAPAF).

De resto senhores, entendo que as publicações promovidas pelo Abidias visam: A primeira, cumprir extemporaneamente a obrigação de comunicar ao mercado e aos acionistas do BASA um fato efetivamente relevante: a dilapidação do Patrimônio do Banco para cobrir responsabilidades de gestão não honradas e que o levaram a deixar de cumprir as suas obrigações inerentes a sua condição de patrocinador da CAPAF; A 2ª, deixar como legado pós “renuncia”, o derradeiro lance de pavor aos participantes do BD e AMAZONVIDA menos avisados.

Como entendo, repito: a implantação dos planos saldados nada tem a ver com o processo da AABA. Em qualquer tribunal, nenhum Juiz decidirá os recursos do BASA levando em conta senão o mérito da questão (sobejamente esgotados desde a 1ª Instância). Jamais o farão levando em conta que “o BASA e o Governo Federal ofereceram alternativas de salvação aos participantes do BD”, como espera o vassalo mor do BASA/CAPAF & PREVIC, aquele conhecido “Bancário Sensato”, o mesmo que ao flutuar do humor, também se assina como Esse Cara Sou Eu, João Almeida e outros codinomes mais).

Desculpem a prolixidade (tão abominada pelos puristas da linguagem escrita, pelos candidatos aos silogeus das letras ou simplesmente pelos preguiçosos), mas acho que em determinadas situações não há porque se poupar nem mesmo redundâncias úteis ao entendimento dos menos avisados. Aos que desistirem de ler o texto até o final, as minhas desculpas.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Os 23 mandamentos de uma velha descolada

11. Só masque chiclete na ausência de testemunhas. Não corra o risco de acharem que você já está ruminando ou falando sozinha.

12. Pense muitas vezes antes de se aposentar. Trabalhar tem muitas vantagens, além do dinheiro. A principal delas é para sua família: são seus colegas de trabalho que vão ter que lhe aguentar a maior parte do tempo.

13. Cuidado com a nostalgia e o otimismo. Velhas tristes são chatíssimas. Velhas alegres demais, mais ainda. Não se ofereça para ir a carnaval fora de época com seus sobrinhos. Fora de época, é você. Não tenha certeza de que vai ser uma companhia agradável em acampamentos, raves e shows de rock. Um ataque cardíaco pode acabar com a festa de todo mundo.

14. Se foi mística, esotérica ou engajada na juventude, controle-se. As pessoas lhe aguentavam quando os hormônios estavam a seu favor, agora elas podem querer realizar o desejo de matá-la que tinham no passado, para acabar com a tortura das suas pregações.

15. Leia muito. Ainda há tempo para gostar de aprender. Velhice pode trazer experiência, não sabedoria. Ter um livro sempre à mão também serve para o caso de sua surdez não permitir acompanhar a conversa. Todos vão adorar não ter que repetir aos gritos respostas a perguntas “sem noção”.

16. Tenha o máximo de cuidado com a higiene. Velha fedida é duro de aguentar. Ah, cheirando a perfume francês vencido, também.

17. Não acredite nas colegas otimistas que dizem que não tem nada demais em usar minissaias, fio dental, figurinos sadomasoquistas ou decotes
provocantes. Tem sim, eles provocam atentado à estética. E riso descontrolável, também.

18. Cuidado com a maquiagem. Já notou que velhas vão ficando parecidas com velhos e ambos com travestis? Maquiagem pesada só serve para reforçar o personagem.

19. Seja avó do seus netos, não mãe ou babá. Por isso nem pense em educá-los ou em comprometer seu tempo com as tarefas chatas de ir buscar na escola, festinhas, natação, inglês, etc.. Ser folguista de babá, nem pensar!!! Se a sua nora for chata, esta é a chance perfeita de sacaneá-la, deixando que ela faça sua obrigação de mãe. Não tenha remorso, por mais que você se esforce nunca vai conseguir sacaneá-la mais do que ela a você. Lembre-se de que agora seu filho deve obediência a ela e não mais a você.

20. Se alguém perguntar como vão seus netos, não precisa contar tuuuuuuuudo! Evite discorrer sobre sua (deles, óbvio!!) inteligência excepcional, beleza rara, fantásticas habilidades esportivas e genialidade com a tecnologia. Lamento informar que todos eles são iguais e assim, agora.

21. Não seja uma sogra chata, gratuitamente. Só se tiver um bom motivo. Lembre-se de como era a sua (ou as suas) e passe a limpo. Agora que você já sacou que não tem como mudar seu marido, cuidado para não apontar as armas para as noras e genros. Falar mal deste tipo de gente é deplorável. Se tiver genro, dê sempre razão a ele, se sua filha for um pé no saco. Lembre-se que, para implicar com ela, ele vai sempre lhe defender quando ela comentar como você é chata, controladora, antiquada, desinformada, espaçosa, blá, blá…

22. Seja machista. Ainda é tempo. Caímos no conto do feminismo e nos lascamos.

23. Nunca, nunca, nunca mesmo, visite seus filhos sem que seja convidada, pelo menos 3 VEZES!

sábado, 9 de fevereiro de 2013

ELEGIA PARA O PARCEIRO EDWALDO CAMPOS

Na escola Externato “Santa Inês”, da Professora Sofia Imbiriba, onde estudamos, quando crianças, eras o “Picica”, o filho de D. Anita e do Dr. Ubirajara Bentes, conceituado advogado de Santarém e famoso colecionador de peças do artesanato tapajônico, boa parte adquirida pela Universidade do Estado de São Paulo (USP); e irmão do Ronaldo (ex-Prefeito Municipal de Santarém), Luís Otávio (falecido), Ana Delfina e Ubirajara Bentes Filho (advogado e atual Presidente da Subsecção da OAB, em Santarém).
Na juventude, quando idealizamos, ao lado de Paulo Roberto Rabelo, José Machado e Apolonildo Brito, o histórico 1º Festival da Música Popular do Baixo-Amazonas, eras o “Pangaré”, habilidoso poeta, autor da letra da canção “Corina”, vencedora do gênero “Música Jovem” (Prêmio Uirapuru de Ouro, medalha elaborada pelo artífice João Sena), com música de Renato Siqueira (“Castelo”), interpretada pelo “Joe” (Francisco José Lemos), com acompanhamento de “Os Hippies”, conjunto musical do Odilson Matos, do qual participava meu irmão José Agostinho da Fonseca Neto (Tinho), como tecladista e arranjador.
Era 19 de dezembro de 1970. Final do Festival, no Cine Olympia, em Santarém.
A apresentação foi transmita pela Rádio Rural, sob o comando de Osmar Simões. A decoração do ambiente estava a cargo do artista Laurimar Leal. A capa do convite para evento era ilustrada pelo talento da artesã Dica Frazão. No convite, a letra da música “O Canto do Uirapuru” (texto poético de José Wilson Malheiros da Fonseca; e música de minha autoria), um poema em forma de acróstico com as notas musicais; e da “Canção de Minha Saudade” (letra: Wilmar Fonseca; e música: Wilson Fonseca), adotada como Hino do Festival.
Havia, ainda, um admirável texto escrito pelo poeta Emir Bemerguy explicando a razão da escolha do uirapuru como símbolo do Festival. A Comissão Julgadora do Festival era integrado pelo Maestro Waldemar Henrique (Presidente), Isaac Dahan, Avelino do Vale, Maria Lúcia do Vale, Wilson Fonseca, Emir Bemerguy, Wilde Fonseca, Nélia Vasconcelos Dias, Sebastião Ferreira, Edenmar da Costa Machado, Vicente Fonseca e Cecília Simões.
Transcrevo trechos da entrevista que concedi à jornalista Lana, publicada em sua página literária denominada “Lana em Tom Maior”, na edição de 22/23 de março de 1970 do jornal “A Província do Pará” (Belém-PA), transcrito no “Meu Baú Mocorongo” (p. 749-755, volume 3), de Wilson Fonseca:
“… os objetivos principais do Festival são: a divulgação das músicas santarenas (principalmente as compostas por jovens) e, se possível, na Amazônia; o incentivo para que os compositores e poetas busquem fonte de inspiração em tema nossos.
Sou da opinião, Lana, que o compositor, o poeta, o pintor devem localizar-se no tempo e no espaço, hoje e aqui. Ora, acho que seria bem mais válido a gente explorar a realidade amazônica antes de procurar temas alheios, em outras fontes, estranhos à nossa própria. Dessa maneira, estamos sendo muito mais autênticos, mais originais. E a originalidade, suponho ser um ponto virtualmente positivo numa criação.
Portanto, valorizar o que é NOSSO. Buscar temas nossos, esse é o incentivo que nos esforçamos para dar aos compositores e autores santarenos e, por extensão, a todos os amazônidas conscientes do nosso rico potencial. A Amazônia precisa se impor no cenário artístico nacional”.
Meu saudoso pai (Wilson Fonseca – maestro Isoca) guardava em seus arquivos, em Santarém, gravações, em fitas magnéticas, da quase totalidade das músicas inscritas no Festival (245 composições). Se esse inestimável material ainda estiver em bom estado, bem que poderia ser aproveitado para a gravação de um CD, oportunamente.
Eis a letra da canção “Corina”:
CORINA
Letra: Edwaldo Campos
Música: Renato Siqueira
Corina, menina,
Dos olhos verdes, sem iguais.
Corina, menina,
Tua beleza é demais… demais!…
É mais que um mar de esperança
É uma eterna aliança
De dois desiguais
És do sonho a ventura,
Do amor a procura
E de tudo isso és mais.
Você é Corina, meu amor,
Minha rima, minha flor
E de tudo muito mais e mais…
Corina, menina,
Dos olhos verdes sem iguais.
Corina menina,
Tua beleza é demais!…
Corina é uma fada
Ao meu lado sentada,
Fazendo me perder
Em sua beleza amada.
Sim, amada por mim
De um amor sem fim
Oh! Corina meu amor
Te quero sempre assim, assim…
Corina, menina,
Dos olhos verdes sem iguais
Corina menina,
Tua beleza é demais, demais!…
Antes de dezembro, em março daquele mesmo ano, tu escrevias o poema “Venha”, para o qual eu fiz a música, no dia 13 de junho de 1970 (Dia de Santo Antônio – que coincidência, pois o teu segundo prenome é Antônio).
Até então era a nossa única parceria musical.
Mas a partir de 2012 começaste e me enviar diversos poemas de tua lavra para que pudéssemos prosseguir na parceria. De lá para cá fizemos juntos uma dezena de canções. Teus inspirados poemas elaborados em Santarém e minhas músicas compostas em Belém.
Fiz um levantamento de nossa parceria, que incluo nesta elegia:
1. VENHA (Canto e Piano) – Toada-canção
Letra: Edwaldo Antônio Campos de Souza (Santarém-PA, março de 1970)
Música: Vicente José Malheiros da Fonseca (Belém-PA, 13.06.1970)
Arranjo: Belém-PA, 20.01.2008 e 14.04.2012
2. TOADA DA PIRACAIA (Canto e Piano; e Canto, Quinteto de Sopros, Percussão e Piano) – Batuque, Carimbó, Sairé
Letra: Edwaldo Antônio Campos de Souza (Santarém-PA, 2012)
Música: Vicente José Malheiros da Fonseca (Belém-PA, 15.04.2012)
3. CADÊ MARIA? (Canto e Piano; e Canto, Quinteto de Sopros, Percussão e Piano) – Maxixe e Sairé
Letra: Edwaldo Antônio Campos de Souza (Santarém-PA, 2012)
Música: Vicente José Malheiros da Fonseca (Belém-PA, 15.08.2012)
4. LÁBIOS (Canto e Piano) – Tango
Letra: Edwaldo Antônio Campos de Souza (Santarém-PA, 2012)
Música: Vicente José Malheiros da Fonseca (Belém-PA, 11.12.2012 – “Dia do Tango”)
5. SEDUÇÃO (Canto e Piano) – Marambirê
Letra: Edwaldo Antônio Campos de Souza
Música: Vicente José Malheiros da Fonseca (Belém-PA, 06.01.2013)
6. MATÁ-MATÁ E OS FANTASMAS DO MERCADO MUNICIPAL (Canto e Piano; e Canto, Quinteto de Metais, Percussão e Piano) – Marcha-rancho
Letra: Edwaldo Antônio Campos de Souza
Música: Vicente José Malheiros da Fonseca (Belém-PA, 07.01.2013)
7. ROMPENDO COM AS MESMICES (Canto e Piano; e Canto, Sexteto de Sopros, Percussão e Piano) – Maxixe
Letra: Edwaldo Antônio Campos de Souza (Santarém-PA, 2012)
Música: Vicente José Malheiros da Fonseca (Belém-PA, 20.01.2013)
8. TEMA DO MUIRAQUITÃ (Canto e Piano) – Samba-Sairé
Letra: Edwaldo Antônio Campos de Souza (Santarém-PA, 2013)
Música: Vicente José Malheiros da Fonseca (Belém-PA, 30.01.2013)
9. LUA CHEIA (Canto, Flauta, Clarinete, Violoncelo e Piano) – Canção
Letra: Edwaldo Antônio Campos de Souza (Santarém-PA, 2013)
Música: Vicente José Malheiros da Fonseca (Belém-PA, 31.01.2013)
10. MARIAZINHA (Canto e Piano; ; e Canto, Sexteto de Sopros, Percussão e Piano) – Samba
Letra: Edwaldo Antônio Campos de Souza (Santarém-PA, 2013)
Música: Vicente José Malheiros da Fonseca (Belém-PA, 04.02.2013)
Escolhi para algumas de nossas parcerias os gêneros musicais bem brasileiros e amazônicos (canção, batuque, carimbó, sairé, marambirê, samba), até porque os temas de teus poemas sugerem a valorização da nossa cultura.
Lembro-me de que a letra de “Matá-Matá e os Fantasmas do Mercado Municipal” refere-se a personalidades muito típicas de Santarém de outrora. Por isso, optei por compor uma marcha-rancho, a fim de lembrar os velhos carnavais de nossa infância e juventude… E como são cinco os “fantasmas” do antigo Mercado Municipal, idealizado pelo poeta, fiz um arranjo para Quinteto de Metais (1º trompete, 2º trompete, trompa, trombone e tuba), que bem poderia ser tocado por essas cinco figuras que marcaram época na nossa “Pérola do Tapajós”, naqueles anos tão saudosos: “Matá-Matá”, “Sololoia”, “Pé de Fuxico”, “Jaú” e velho “Olaia”… O canto, o piano e a percussão ficam por conta de quem mais desejar entrar nesse cordão carnavalesco… Tudo isso é mais do que fantasia… É história de uma época…
Eis a letra da marcha-rancho:
MATÁ-MATÁ E OS FANTASMAS DO MERCADO MUNICIPAL
(Marcha-rancho)
Letra: Edwaldo Campos (Santarém-PA, 2013)
Música: Vicente Fonseca (Belém-PA, 07.01.2013)
Matá-Matá…
A Sololoia deu-te um beijo
Pé de Fuxico sem receio
Chamou o Jaú pra te acordar
Levanta
Que o antigo Mercado
De novo surgiu
E o velho Olaia
Está apontando
Com seu dedo maior
A garrafa de cana
Que ele abriu
Vai, vai sem medo
Que o passado é um enfeite,
Mera decoração…
E as visões são esteiras,
Realidade momesca,
Faço o meu carnaval…
Fantasia e vou deitar…
(E as visões são esteiras,
Realidade momesca,
Faço o meu carnaval…
Fantasia e vou deitar…)
Diversos amigos, ao receberem os arquivos da obra musical, enviaram comentários muito interessantes, como os escritos pelos advogados Carlos Mendonça e Célio Simões, todos enaltecendo a tua sensibilidade de poeta:
Estimado Desembargador Vicente
Suas crônicas lítero-musicais chegaram as minhas vizinhanças. Minhas recordações pessoais. Acompanhei a corrida de moleques infernizando o bem-aventurado MATÁ-MATÁ (pobre de espírito) que com seu vago olhar passava. Parecia ver a todos nós, porém, nada esperar nem pedir a ninguém. Seu aspecto era o do completo abandono, consigo mesmo. Roupas andrajosas, fisionomia larga, em que parecia que as partes subcutâneas realçavam sobre o revestimento de pele. Só na aparência, como se fosse possível. Falava e ouvia. Com quem, particularmente, nem sei. Se alimentava, pois era enorme. Vivia no Mercado de Santarém e vizinhanças, ao lado do Castelo, do qual se tornou um dos fantasmas.
A Sololoia tinha vida tão desorganizada quanto à dele. Seu vestido seboso e encardido, como ela, a balançar de um lado para o outro, em volta de seu copo. Seus cabelos cacheados, porém, desgrenhados, até abaixo dos ombros. Tipo da mulher sofrida, como o MATÁ-MATÁ. De tão pouca coisa precisavam para aquela vida que levavam, que nada lhes faltava. Nem o calçado, pois caminhavam descalços. Como muita gente naquela época.
O Zé Olaia era um tipo diferente. Dono do que seria um pequeno restaurante, ou lanchonete, cobertura de pano, saindo da parte posterior do mesmo Mercado Municipal. Especialidade era bifes com ovos fritos e arroz etc. Seu dedo duro, (qual seria?), completava sua personalidade, como o Lula. Asseado, roupas limpas, integrado à sociedade, porém do lado de lá do seu balcão. Na saída do Cinema Olímpia, pelas 22 ou 23 horas, seu restô era ponto de encontro dos jovens da sociedade “mocoronga”. Como eu era jovem, via essas coisas de longe, mais do que delas participava. Meus irmãos mais velhos, sim.
Muito justo que também tenha se transformado num dos fantasmas. Quanto aos outros dois, francamente, não me lembro, Talvez sejam mais jovens, do tempo em que eu já estava em Belém.
Vicente! Santarém espera que você desenvolva esse tema, com figurantes, com vídeos. A Música é o veículo de possibilidades ilimitadas. Porém os personagens devem ser reais, digitais?
Carlos Mendonça
Caro parceiro Vicente,
Uma das marcas mais acentuadas das cidades pequenas são seus tipos populares. Ficam para toda a vida, pois nos causam na infância ou na juventude profunda impressão espiritual. Esta homenagem (marcha-rancho) tua e do Edwaldo Campos de Souza resgata a memória dos que anonimamente viveram e permaneceriam no anonimato não fosse a sensibilidade de pessoas como vocês. Para isto servem os poetas e os músicos, que com seu talento, contribuem para a convalescença da alma.
Em Santarém, além do Matá-Matá, lembro bem do Caixa d’Água (e suas cicatrizes corporais), do irreverente Babico (que entrevistava todo mundo munido de uma muratinga à guisa de microfone), do Argemiro (que furtivamente comia as galinhas dos despachos na encruzilhada…) e do repentista Pojó, que para um estudante do Dom Amando que tentava escapar do aguaceiro protegendo o material escolar sob a blusa da farda, na hora sentenciou:
“…eu corro pela linha
sem o pé titubear;
você tá escondendo os livros,
para a chuva não molhar!!!
Genial para uma pessoa de parcos estudos, concorda? Merecida, portanto, essa homenagem pela qual parabenizo os nobres amigos da Terra Querida.
Abs.
Célio Simões.
A jornalista e advogada Franssinete Florenzano comentou que algumas figuras de Santarém são dignas de um romance do Gabriel García Márquez!…
Com todos esses comentários eu fiz uma viagem no tempo. Creio que tais preciosidades merecem alguma divulgação para conhecimento da “história” não escrita, invisível ou não oficial de Santarém.
Morri de ri do “repente” do Pojó e das presepadas do Argemiro…
Conheci o velho Babico, pai do homônimo. O pai trabalhava com meu avô Vicente Malheiros, na Loja “Malheiros”.
O “Caixa D’Água” era uma lenda. Contava que um pajé lhe disse que ele só morreria depois que sua mãe morresse. Acho que isso aconteceu… Ele tinha umas quarenta ou mais cicatrizes e fazia questão de mostrar a qualquer pessoa, com muito orgulho… Grande sujeito. Bom papo… Êta! tempo bom!…
Tudo isso daria para fazer uma ópera ou um filme, mais do que uma música.
O Carnaval deste ano será mais triste, caro amigo e poeta…
Mas aí estão os fantasmas do Mercado Municipal, que frequentei tantas vezes em companhia do “velho” Isoca, para as compras matinais e vespertinas… Que delícia aquele peixe fresquinho (hoje, quase só se come congelado).
Para completar as considerações, sugeri que o próprio Edwaldo registrasse informações sobre o “Pé de Fuxico” e o “Jaú”. Em 15 de janeiro de 2013, o poeta me enviou a seguinte mensagem, plena de humor e sabedoria:
Caro amigo Vicente
Fiquei hoje muito feliz com a musica que fizestes para Matá-Matá.
Muito obrigado!
Isso me deixa muito envaidecido li também diálogos teu com Célio, Dr. Carlos Mendonça e Franssinete, muito proveitosos. Como Célio declinou sobre o grande mestre Pojó, estou te encaminhando um texto [“SENHORES ENGOLIDORES DE SILABAS, DE PALAVRAS, DE FRASES E DE IMPROPÉRIOS – CUIDAI-VOS!”] que enaltece as faculdades mediúnicas do mesmo, pedindo favor para que o repasses. O prato principal do Seu Oláia era culhão completo, diga isso ao Dr. Carlos, que era servido com chouriço, dois ovos fritos, arroz, macarrão e farinha à vontade.
(…)
Um forte abraço do seu amigo, Edwaldo Campos.
Por coincidência, a música do tango “Lábios” foi composta no “Dia do Tango” (11.12.2012).
Três dias depois, eu entregava a partitura musical dessa composição para o casal Carlos Sarmento e Cris Sarmento, que se apresentava na cerimônia de minha posse no Instituto Histórico e Geográfico do Pará, dançando o bolero “Um Poema de Amor” (Wilson Fonseca), quando também era lançado, em Belém, no Auditório do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região, o meu livro “A Vida e a Obra de Wilson Fonseca (Maestro Isoca)”, cujo exemplar te ofereci, com especial dedicatória.
Caro parceiro Edwaldo, ao receberes a partitura musical de nossa parceria “Rompendo com as Mesmices”, me remeteste, em 27 de janeiro de 2013, um e-mail, o último de tua lavra a mim dirigido, com o seguinte teor:
Caríssimo Vicente:
Com a biografia do teu pai, penso estar preparado o seu KIT à posteridade, para apreciação dos musicólogos do mundo, onde “haverá sempre um espaço privilegiado para sua obra”…, tal como preconiza o maestro Julio Medaglia, pag. 41.
Portanto, obrigado por nos ter brindado com esse riquíssimo pasto musical variado, com vida, amor, história de gente, de família, de ternura, de parceiros e amigos, a ter como cenário principal a nossa mais que cantada Santarém.
Ainda com o glamour do teu livro, onde também involuntariamente te revelas (e que revelações!…), aproveito esse teu cio musical, para mandar três textos: Mariazinha, Muiraquitã e Lua Cheia, para teres em teu arquivo e musicá-los quanto tiveres tempo disponível.
Li com muita alegria teu e-mail, noticiando a tua roupagem musical ao texto Rompendo com as Mesmices. Muito obrigado
Um abraço fraterno a ti e aos teus.
Como estou em gozo de férias do TRT, passei a compor, imediatamente, mais três peças (em 30 e 31 de janeiro e 04 de fevereiro), as mais recentes da nossa parceria musical, sobre os poemas que havias me encaminhado: “Tema do Muiraquitã”, “Lua Cheia” e “Mariazinha”.
Te remeti, por e-mail, todas essas composições musicais. Mas não sei se recebestes estas três últimas criações de nossa parceria.
E por falar em muiraquitã e sairé… hoje pela manhã tive conhecimento, com enorme surpresa e tristeza, de teu falecimento… em Alter do Chão…
Nem sei mais o que dizer, querido parceiro…
Só sei que perde a nossa Academia de Letras e Artes de Santarém por não poder contar dentre os seus membros com o teu talento.
Que Santarém perde um de seus poetas mais inspirados.
Que teus amigos e admiradores ficamos mais órfãos.
Na entrevista que concedeste ao jornalista Jeso Carneiro, publicada em seu Blog, em 16 de dezembro de 2012, sob o título “No raso com… Edwaldo Campos”, cometeste um exagero pela generosidade de tua alma bondosa e em razão de nossa amizade:
Com quem gostaria de fazer um poema: Com qualquer um dos nossos poetas mocorongos, exímios contadores literários das nossas coisas boas e ruins. Em especial com o meu parceiro, Vicente José Malheiros da Fonseca, que além de escritor, de tudo o mais, poucos o sabem, também é um talentoso poeta.
Confira:
http://www.jesocarneiro.com.br/perfil/no-raso-com-edwaldo-campos.html#.URUdlR0meSo
Fico, então, te devendo uma parceria no poema que sonhaste.
Em contato telefônico com teu irmão Dr. Ubirajara Bentes Filho, ainda há pouco, eu soube que deixaste escrito mais dois poemas com um bilhete a mim destinado, com o pedido para eu musicá-los. Fiquei muito emocionado com a distinção, caro amigo e parceiro. Vou aguardar os textos poéticos que teu irmão ficou de me enviar, rogando a Deus que me ilumine para permitir compor mais essas duas obras musicais. E agora que tu já estás no plano espiritual, não te esquece de dar uma forcinha aí de cima para que a inspiração não me falte. Prometo caprichar e compor à altura dos teus belos poemas.
Em tua homenagem, eis aqui os textos poéticos de nossas três mais recentes parcerias musicais:
TEMA DO MUIRAQUITÃ
(Samba – Sairé)
Letra: Edwaldo Antônio Campos de Souza (Santarém-PA, 2013)
Música: Vicente José Malheiros da Fonseca (Belém-PA, 30.01.2013)
De jade esverdeado
Buraquinho no pescoço
Carrego meu amuleto
Tô nem aí pra tempestades.
Porque no Tapajós, rãs, rãs, rãs,
Somos todos, todos nós, Muiraquitãs.
Tenho o corpo fechado
Contra mandingas e contra despachos
Tenho a mulher que eu quero
Sou rei, mando no meu castelo.
Porque no Tapajós, rãs, rãs, rãs,
Somos todos, todos nós, Muiraquitãs.
Somos ricos proprietários
Dessas terras todas,
Desses meus dois rios,
Dos balangandãs.
Somos Tupaiús de poemas e canções
Somos todos nós, somos Muiraquitãs.
Tenho o corpo fechado
Contra mandingas e contra despachos
Tenho a mulher que eu quero
Sou rei, mando no meu castelo.
Porque no Tapajós, rãs, rãs, rãs,
Somos todos, todos nós, Muiraquitãs
(Somos todos, todos nós, Muiraquitãs).
LUA CHEIA
(Canção)
Letra: Edwaldo Antônio Campos de Souza (Santarém-PA, 2013)
Música: Vicente José Malheiros da Fonseca (Belém-PA, 31.01.2013)
O pensamento
Me leva à minha terra
Ó lua cheia!
Que bons momentos
Ai! Que saudades
Daquelas noites
Num toque de magia
Sentimento e poesia…
Amor declarado serenata
Que bons momentos
Aqueles de lá
Na madrugada sensual e boêmia
Os cálidos rios, fiéis namorados,
E os acordes de violões apaixonados
Inspirando Santarém e seus poemas
A lua cheia
Ai! Que saudades
Que bons momentos
Aqueles de lá.
MARIAZINHA
(Samba)
Letra: Edwaldo Antônio Campos de Souza (Santarém-PA, 2013)
Música: Vicente José Malheiros da Fonseca (Belém-PA, 04.02.2013)
I
Nada de Margarida
Nada de Lucíola
Maria é Maria…
Mariazinha só dela
Maria sempre nova
Maria sempre bela
Maria é Maria
Nenhuma Camélia.
II
Maria é Dama
Maria é só ela
Maria tem a cor
Do “Drinque Madri”
Podereis só vê-la
De noite, de dia…
Maria é Maria,
Nenhuma Lucíola…
Maria é Maria
Mariazinha, só dela.
(Repete a 1ª Parte)
Quase todas as músicas de nossas parcerias, aliás inéditas, estão disponíveis (em execução simulada por computador), neste link:
Lá também está a nossa primeira parceria (“Venha”), composta naqueles saudosos tempos de juventude (1970). Parece que foi ontem… Confira:
Se eu estivesse em Santarém, iria tocar essa música na tua Missa de corpo presente, na Igreja de N. S. Aparecida, neste sábado de saudade.
Nossas condolências à tua família.
Descansa em paz, amigo, poeta e parceiro Edwaldo Campos!

sábado, 3 de novembro de 2012

Eleições 2012: O fator Z

Por Francisco Sidou, jornalista (*).
Após o "rescaldo" das urnas, ainda fumegantes, ouso emitir modesta opinião sobre a eleição do novo prefeito de Belém, com a devida venia de nossos doutos analistas/cientistas políticos. Em princípio, não adianta chorar sobre os "votos derramados". O eleitor é o juiz supremo e já decidiu. Não cabe recurso. "Habemus" prefeito.

É certo que os debates, apesar de sonolentos, pelo excesso de regras que "engessam" os candidatos , também ajudaram na migração de "votos mutantes" para Zenaldo, que se mostrou bem mais articulado, com boa postura no vídeo, tanto de imagem quanto na tonalidade de voz. Foi ainda favorecido por ter-se exposto na liderança da vitoriosa campanha do "Não à Divisão", enquanto muitos políticos profissionais preferiram o "muro" da esperta omissão, agora transformado em "muro das lamentações"...

A par disso, conseguiu "passar" nos debates credibilidade e acabou conquistando a confiança dos eleitores indecisos e dos "órfãos" de candidatos derrotados no primeiro turno. Por isso, não me parece legítima a presunção de alguns candidatos derrotados ou mesmo partidos nanicos apoiadores no 2º turno, julgando-se "donos" dos votos conquistados no primeiro turno, como forma de "cacifar" cargos ou DAS na futura gestão municipal. O voto foi livre e não teve "peias". A política nada franciscana "do é dando que se recebe" também foi ferida de morte.

Na eleição do segundo turno, em todo o país, ficou claro que o eleitor não votou por ideologia ou programas partidários, mas em candidatos que se apresentaram como "novidade" no cenário político contaminado pela mesmice de velhas lições e práticas fisiológicas de um modelo político decadente.

O sucesso do PSB elegendo cinco jovens prefeitos de capitais não indica apenas o fortalecimento desse partido, mas aponta para o desejo de renovação dos quadros partidários. É um duro recado do eleitor para os "caciques oligarcas" que dominam os partidos como meros cartórios ou "casas de tolerância"... Renovar é preciso. Sobreviver politicamente também. Caso os parlamentares não votem a Reforma Política, que se faz premente , os "donos" de partidos vão acabar se tornando síndicos de uma massa falida.

Em Belém, o apoio do PT a Edmilson parece ter mais subtraído do que somado votos. As bandeiras vermelhas não conseguiram o mesmo efeito do "vermelhou" de outros carnavais, aliás, eleições. O PT, que tem e fez história, com o legado de lutas e conquistas memoráveis como as vitórias de Lula/operário e Dilma/mulher, para os paraenses perdeu o "charme" do novo diante do "jeito petista de governar" o Estado, que o eleitor descobriu não ter muita diferença de métodos adotados pelos "profissionais" da política. O belenense desconfiou que se Edmilson ganhasse, o PT iria "voltar com tudo" para cobrar "salgada fatura" administrativa pelo seu apoio. Também aqui pesou o "efeito Badinni", de triste memória. Em São Paulo, porém, o PT venceu bem com Haddad, um "poste" a que Lula deu luz. Diante da "fadiga dos materiais" da candidatura Serra, o eleitor paulistano preferiu apostar no novo, que deixou de ser Russomano - uma espécie de "reencarnação" do fenômeno Collor , esvaziado qual "bolinha collorida de sabão" - mas Haddad, cuja postura nos debates também foi fator decisivo para se tornar conhecido e convencer o eleitor paulistano de que poderia ser "o novo" na gestão pública da maior cidade do Brasil e da América Latina.
Logo, o PT também pode se "oxigenar" nesse rescaldo das urnas, caso aceite reformular métodos e paradigmas do seu "jeito petista de governar" e abandone essa mania de atribuir seus tropeços eleitorais ou o julgamento do mensalão a sombrias conspirações da "elite" ou da "imprensa burguesa"... Não cola mais.

Passada a euforia da vitória, os eleitos têm a grande responsabilidade de corresponder aos anseios de milhões de eleitores que desejam agora mudanças e transparência na gestão pública.

O novo prefeito de Belém vai presidir os festejos dos 400 anos de nossa bela/ morena/ faceira cidade, apesar dos maus tratos. São tantas as carências dos belenenses - como a saúde na UTI, o trânsito caótico/neurótico, alagamento de ruas e canais, lixo nas ruas e esgotos a céu aberto, bueiros entupidos, ratos que proliferam na base de 8 por habitante, calçadas irregulares, transporte coletivo precário e sujo, falta de ordenamento dos alternativos, ausência de ciclovias e motovias, da insana "saga" de construções de concreto/aço destruindo áreas verdes da capital menos arborizada do país, embora localizada no coração da selva amazônica - que nenhum cidadão belenense, em sã consciência, poderá negar apoio a Zenaldo nessa árdua tarefa de reconstruir a cidade, independente de partidos, ideologias ou religiões. O novo prefeito, antes da posse, smj, precisa voltar a fazer caminhadas na periferia para agradecer os votos de confiança de milhares de belenenses que vivem em condições precárias e ainda assim acreditaram nas suas propostas de mudança. Deve aproveitar para ouvir de novo as carências básicas da população, agora sem a correria da campanha e, de preferência, sem a "entourage" de assessores e seguranças. Estes apenas dificultam o acesso ao povo que efetivamente elegeu o novo prefeito. Precisa também dar prioridade na conclusão de obras "estruturantes" paralisadas como o BRT e o portal da Amazônia, mas também avançar no saneamento básico, na melhoria dos transporte coletivos ( os donos de ônibus não querem mudar nada ), na saúde, na segurança, etc, etc. São muitas, além dos três SSS, as letras do alfabeto das necessidades da população de Belém, de A a Z. Mas todos sabemos que não elegemos um mágico ou ilusionista. As parcerias são indispensáveis. Todavia, a mais importante para o seu êxito deve ser feita com o povo. Nesse sentido, tenho modesta sugestão para o lema da nova gestão: ao invés do "eu sei como fazer" , reprovado nas urnas,que tal o "Vamos fazer juntos" !!!
(*) Francisco Sidou é jornalista
chicosidou@yahoo.com.br