sexta-feira, 18 de abril de 2014

MAROMBA - de Emir Bemerguy - Capítulo 7


- A JUTA -
Dezembro ainda vai em meio e toda a Amazônia já anda alarmada com o impetuoso avanço das águas. O rio está subindo a tal ponto que faz lembrar a furiosa afobação de alguém que vence, três a três, os degraus de uma escada porque acaba de saber que, lá em cima, um louco arromba-lhe o apartamento.

Mesmo reconhecidamente equilibrado, Antônio Presidente não consegue esconder a preocupação que lhe rouba o sono, sempre pensando: – A coisa tá mesmo de deixar tudo quanto é caboco desinquieto. – Aponta com o dedo uma determinada árvore e pergunta: – Onde é que já se viu, antes do Natar, a enchente chegar na ilharga desse apuizeiro? Tem ano que só em março ela encosta aí. – Coçando o sinal da face, balança a cabeça, desanimado: – Não tá bom, não. Coisa que preste não vem por aí, Parece até que a peste da terra caída foi só o cumecinho da uruca.

Mais do que um infalível fenômeno cíclico, a enchente é um negativo estado de espírito. Cada ribeirinho fica a esperá-la imaginando os prejuízos que corre o risco de sofrer. O medo individual é dimensionado pelo valor dos bens sujeitos a se perderem durante a ascensão assassina do rio malvado. Todavia, apesar de essa angústia ter o mesmo tamanho das posses materiais do varzeiro, todos padecem, adultos e crianças, a dilacerante expectativa. Mesmo aqueles pescadores que concentram toda a sua riqueza num velho e pobre tapiri não escapam ao sofrimento que a ninguém poupa. É que também esses párias procurarão preservar, a qualquer preço, as migalhas ali agasalhadas. “Onde está o teu tesouro, aí colocas o teu coração” – lembra-nos o Evangelho de Jesus Cristo.

A juta, excelente fibra de procedência asiática, tão bem adaptou-se à ecologia amazônica em pouco tempo, que passou a ser um dos pilares da economia regional. Quando caem as primeiras chuvas, em novembro ou dezembro, as sementes são espalhadas ao longo das margens. Ficam a uma distância que lhes permitirá germinar e crescer até que as plantas atinjam, em março ou abril, o tamanho ideal para o corte.

Neste ano, contudo, as mais cautelosas previsões dos caboclos começam a falhar, tal a desusada rapidez com que o Amazonas aumenta de volume. Pelo rumo que as coisas vão tomando, a ceifa terá de ser feita antes da época habitual, por pequenos que estejam os vegetais, para que não se perca toda a safra. É a respeito desse crucial problema que, logo aos primeiros dias de janeiro, Zé Potoca, retido em casa, pela chuvarada que cai, acha conveniente conversar com o patrão: – Meu padrinho? – Hum? – faz Antônio que conserta uma tarrafa estragada por piranhas. – Zé, diz preocupado: – Só de ontem pra huje a praga da água tufou um parmo bem esticado. Nós vamo perder um bom bucado dessa juta, pois parece que só dá pra esperar até o fim do mês. – É, eu quase já não durmo, maginando bestera – confessa Antônio, sem interromper o manejo da agulha. Inda farta nós ajeitar a maromba dos boi, que percisa de cunserto. O diabo é que a gente não pode se meter nas duas faxina só duma porrada.

Maria Flor, que escuta o diálogo entre o afilhado e o o marido, intervém, animada: – Bobage, homem! Toca pra frente que eu e os curumim ajudamo vocês. E vumbora, que o tempo ruim chegou de com furça!

A partir desse dia, já enfrentando as pesadas e constantes chuvas do inverno regional, praticamente só a criança de dois anos fica dispensada de trabalhar como jumento de carroça. Todos fazem o que é possível, somando suores e palavrões para não sucumbirem aos novos – embora repetidos anualmente – desafios de sua cruel situação de inquilinos (ou invasores?) do zangado rio barrento. A várzea inteira atira-se a um nervoso e massacrante combate contra o calendário.

Depois de fazerem os reparos mais urgentes na maromba – o rústico jirau onde o gado passa a maior parte da enchente – as atenções todas voltam-se para a juta. Chegou-se ao início de fevereiro e não há mais condições de esperar sequer uma semana: já é preciso cortar as plantas com água pela cintura.

Colheita de juta... Uma das mais duras tarefas impostas a um filho de Deus neste mundo em que todos, ofegando sob o peso da maldição bíblica, devemos ganhar o pão de cada dia com o suor do próprio rosto. Homens, mulheres e crianças – sem exceção para as madames gestantes – armados de foices afiadas, passam dias inteiros, semanas seguidas dentro do rio, ceifando os arbustos pela raiz. Além de, muitas vezes, precisarem mergulhar para fazê-lo, inúmeros são os riscos a que se expõem. Além dos resfriados e pneumonias, arraias no fundo tabatinguento, poraquês eletrificados, cobras, jacarés e sanguessugas compõem um horrorizante exército de inimigos invisíveis, dispostos a atacar quando menos se espera.

Nesta friorenta manhã, embora esteja chovendo fortemente, a família moureja no jutal, pois boa parte da produção prevista já se perdeu. A água cresce, cresce e não se tem o direito de desperdiçar nem uma hora de trabalho. De repente, o berro de Bibito, o segundo filho, esperto moleque de onze anos: – Aaaiii!... Uma coisa me mordeu, papai! Aaaiii!...

Rápido, Antônio carrega o menino, pondo-o num banco da canoa grande onde se vai jogando a juta cortada. Olhando a feia ferida, que sangra muito, Zé Potoca sentencia, de olhos arregalados e examinando a dentada na perna direita: – Trairambóia!... E pegou de jeito. – Pelo aspecto, parece ter sido mesmo a peçonhenta serpente aquática, que mata a rês nos pastos alagados, decepando-lhe a língua num instante. Rasgando um pedaço da própria saia ensopada, Maria Flor ordena, afobando-se ante os gritos da vítima: – Vumbora! Larga a pira dessa juta aí e vamo pra casa que o filhinho percisa de muito cuidado!

O garoto vai apresentando os sintomas iniciais do progresso do veneno em seu sistema circulatório, além de perder muito sangue. Experimentam-se remédios caseiros, mas como o paciente piora de momento a momento, o pai resolve: – Zé, tu fica aqui com os outro curumim, que eu vou pra cidade mais o Bibito e a Maria. Eu tô descunfiando que foi outra mardição mais pior que trairambóia que mordeu ele. Perpara o barco depressa.

Em questão de vinte minutos, sob a chuva que diminui de intensidade, o “Flô das onda II” zarpa no rumo de Santarém e a viagem se atrasa bastante devido ao mau tempo. O vento de cima forma ondas irregulares que, fazendo a embarcação balançar para os lados, vão ensopando o choroso e febril enfermo. A mãe procura protegê-lo da melhor maneira possível com um plástico que esvoaça a todo instante, revelando-se um agasalho quase inútil. Por tudo isso, quando conseguem chegar ao porto do Mercado Municipal, o menino, já tendo perdido muito sangue, está quase inconsciente e inchando, da perna para cima.

- Trairambóia mata, mas não acaba com um cristão assim tão depressa! – diz Maria Flor, chorando e comprimindo o filho de encontro ao peito. Minha Nossa Senhora da Conceição, sarve o meu Bibito!

Deixando o barco sob a vigilância do dono de uma baiúca próxima, o casal, às carreiras, mete-se num táxi e rápido para o hospital da “Fundação SESP”. Ao desembarcarem os dois, carregando o doente com muito jeito para não lhe agravar os padecimentos, aparece uma enfermeira que, lá da porta, pergunta, saboreando um cafezinho: – É do INPS? – Não, senhora – responde Antônio, respeitosamente, com o chapéu de carnaúba encostado ao ventre, enquanto a criança geme, baixinho, no banco de pedra onde foi colocada. – É do FUNRURAL, por acaso? – indaga novamente a mulher, aproximando-se do garoto. – Não, dona menina, é da “Fazenda Apuizeiro”! – grita Maria Flor. O bichinho tá mordido de cobra, quase morrendo! Chame logo o dotô, pelo amur de Deus! – Tenha modos, senhora! – ralha a pernóstica funcionária, no momento em que surge um padre, habituado a visitar diariamente os enfermos. A atendente completa o sermão: – Saiba que se o seu esposo não está vinculado ao INPS ou ao FUNRURAL, únicas instituições com as quais mantemos convênio, trata-se de um caso específico de internamento em clínica particular.

Contudo, antes de a zelosa burocrata encerrar o caridoso discurso, Bibito estremece violentamente e expira sobre o bloco de marmorite! O sacerdote faz o que lhe compete e Maria Flor, vendo o filhinho morto, descontrola-se: insultando a mãe ausente da assustada enfermeira, aplica duas sonoras bofetadas na cara da moça que, afinal, deve ter cumprido superiores diretrizes de serviço.

Estabelecido o tumulto, correm algumas pessoas para o local, inclusive o guarda que vigia a entrada do hospital. Conseguindo conter, no ar, o terceiro tapa da esposa, Antônio Presidente, enxugando os olhos vermelhos, limita-se a dizer: – Vamo simbora. Deus quis assim. Descurpe as parmada, dona menina, mas a senhora foi muito braba com a gente. Nós viemo da varja, mas nós somo gente também. Cachurro é que morre desse jeito!

Talvez só isto de bom acontece neste trágico dia: embora agredida e chorando em silêncio, a funcionária reconhece que a dor daqueles pobres matutos é bem mais devastadora que os dois merecidos bofetões acertados em seu rosto. Por isso, pede ao soldado que deixe sair em paz a espoletada Maria Flor.

Após alguma hesitação sobre as providências a serem tomadas, os desolados pais resolvem conduzir o cadáver para a residência do amigo Babá Sapateiro, abandonando a idéia inicial de levá-lo para ser sepultado em Paricatuba, comunidade bem próxima à “Fazenda Apuizeiro”. Com a ajuda de um vereador que às vezes aparece lá na fazenda, em campanha política, no dia seguinte, cedo, eles enterram o garoto no cemitério de Santarém.

Às oito horas da chuvosa manhã, os tristonhos caboclos retornam às amenidades do lar, doce lar. Na tarde do mesmo dia já estão cortando juta outra vez, pois o rio cresceu mais quatro dedos. No entanto, a conselho de amigos, trouxeram da cidade o milagroso “Específico Pessoa”, infalível contra picada de cobra, ainda que seja surucucu-de-fogo, cascavel, coral ou jararaca. Só que ninguém soube dizer se serve também para anular veneno de trairambóia. Quem duvida, no entanto, que não aparecerá uma oportunidade para se tirar a dúvida?

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Maromba - de Emir Bemerguy - Capítulo 6


- O BOTO -
De vez em quando, conforme a fecundidade das vacas que existem nos seus rebanhos, os criadores da várzea fazem a “ferra” dos novos bezerros. Esses instantes sempre funcionam como pingos de alegria no miúdo mundo particular de cada caboclo, pois, em geral, pelo menos duas coisas essenciais os participantes da cruel carimbagem encontram com fartura: comida e cachaça. Isto, porém, se o patrão for generoso, porque se sabe de alguns tão sovinas que não admitem qualquer festejo para assinalar os mamotes com suas iniciais, gravadas a fogo na anca ou na cara do animal.

Antônio Presidente chega em casa e participa à família: – O compadre Sabá Caraxué me convidou pra gente fazer a ferra de parcerada. Como nós temo pouco bezerro, a gente junta com os dele, no domingo que vem, lá na “Fazenda Jatuarana”. Ele dá um carneiro gordo e nós entramo com um bode capado pra bóia. – E a birita? – quer saber Zé Potoca, enquanto a meninada comemora ruidosamente a maravilhosa notícia. – Ele já tem muita cachaça lá – tranqüiliza-o Antônio. – Maria Flor faz uma sugestão: – Como fica no caminho, nós pára um bocadinho na fazenda do Miro Brito. Eu quero dar uma espiada nuns frango que ele trouxe da cidade. – Depois é debatido o problema da permanência de alguém para vigiar a casa enquanto eles estiverem fora. Combina-se pedir ao vizinho Lulu Pinduri que se incumba dessa tarefa.

As coisas transcorreram dentro dos planos e, no domingo, a turma da “Fazenda Apuizeiro” está outra vez antegozando, rio abaixo, os prazeres de uma gostosa manhã. Os dez bezerros foram enviados de véspera, no barco grande do compadre Sabá. Está ocorrendo, hoje, a gloriosa estréia da nova embarcação da família – o garboso “Flô das onda II” – que substituiu o primeiro, tragado pelo funil da miserável “terra caída”, e desfalcou o plantel em três reses – o preço da transação do novo barco.

Na propriedade do amigo, um pouco mais abastado que Presidente, estão reunidos, às nove horas, seis vaqueiros tagarelas, senhoras e um magote de meninos com idades variadas e iguais diabruras.

A ferra é algo relativamente simples... para quem apenas aprecia o bárbaro ritual. Derruba-se o mamote que, imobilizado no chão, recebe em um dos quartos traseiros, ou no meio da testa, o ferro incandescente! Louca de dor, a rês muge e baba, um cheiro de carne sabrecada passeia pelo ar e, com um vigoroso tapa na anca, o carrasco liberta o animal, que dispara, aos pinotes. O gesto repete-se até à última vítima.

Quando se encerra a principal tarefa, outra, bem mais interessante, se inicia: o preparo do moquém para o churrasco. As mulheres ajudam de várias maneiras, temperando a carne, conferindo a dosagem dos molhos, vendo o que falta aqui e ali. Ao mesmo tempo, experimentados ribeirinhos incumbem-se de reunir lenha boa para se ter um braseiro de respeito, em condições de assar os gordos e tentadores pedaços de carne que rolarão lentamente, a chiar nos espetos, até ficarem no ponto desejado – macios, cheirosos, irresistíveis...

Como agora há gente de sobra para essa atividade final, alguns caboclos preferem o refúgio sombreado de uma árvore de castanha sapucaia, onde várias garrafas de batida de limão já se dispõem, convidativas, sobre um banco de tábua comprida. Zé Potoca, esperto, arruma-se aí, logo chegando também Mané Carrapato, Totonho Fura Bolo e Juca Potó. Tomam a dose inicial de cachaça – a bendita abrideira – e, puxando conversa, indaga Juca: – Mas vocês suberam do causo do buto lá de Óbidos? – Não vi falar, não – responde Mané. – Os outros dois alegam a mesma ignorância. Contudo, porque se trata de uma das presenças mais familiares e folclóricas no misterioso rio alaranjado, o lendário boto é um personagem que sempre se olha com supersticioso respeito na Amazônia. Constitui um assunto de interesse permanente em rodas de conversa. É por isso que Potoca, acabando de engolir o segundo trago do queimante aperitivo, pede ao amigo que esmiuce a ocorrência: – Sapeca aí, Juca, que a gente gostamo desses causo! – Eu até nem sei muita coisa, não – confessa o outro. Já foi o Furgenço Guariba que me contou. Dizque um regatão tava parado lá no porto de Óbidos quando o dono viu um macho vestido de roupa branca. O sem-vergonha ia saindo do barco e levava uns bagulho roubado. O homem tocou o pau-de-fugu em cima do cabra e o ladrão caiu, mortinho. Quando chegaram perto dele pra ulhar, um pitiú dos diabo empestava o ar e todos correram de medo: o defunto era um pai-d’égua dum buto tucuxi! – Sério, sentencia Totonho: – Os cuirão desses buto só véve aporrinhando a vida dos desinfeliz. Vai ver que tem mulher no causo. Eu sei muita arrumação de buto, mas só quero contar uma. – Então, manda logo a tua, que eu tenho um causo insquisito pra dispôs – apressa-o Zé Potoca.

E Fura Bolo começa: – A Vivina, filha do cumpadre Junito Perneta, era danada de bunita. Um dia a cabuca tava esfregando uma peça de roupa na beira do Amazona quando deu com um homem sentado na ilharga dela, num tronco de pau. – Acende um cigarro e continua: – Ela se espantou, mas não pensou em mardade. Pois o capeta veio tomando chegança e aí passou uma cantada de dotô na menina, que ficou logo duidinha por ele. Dispôs de fazer sem-vergonhice com a cunhã, o cão mergulhou e sumiu. – Ela ficou buchuda? – pergunta, curioso, Carrapato. – Peraí que eu te conto já – promete Totonho. A muça, meio pateta, ficou percurando o namurado fujão e quando o vento ventou numas aningueira, ela viu um baita buto buiar bem pertinho. O bicho sortou uma gorfada de água quase na cara da cabuca. Aí deu um assuvio fininho e vortou de vorta pro fundo, espalhando um pitiú disconforme de fedurento. Era o cachurro garanhão que tinha desgraçado a Vivina! – E dispôs, o que aconteceu? – quer saber, interessadíssimo, Juca Potó.

Após longa tragada, Fura Bolo fornece o desfecho: – A muça ficou toda abestalhada e nove mês mais tarde pariu um curumim que era iguarzinho um boto e mais pitiú que piracema de apapá! O muleque morreu logo e a mãe no outro dia. Vute!

Zé Potoca, a essa altura com as baterias em plena carga, sem perda de tempo assume o comando e ataca: – Agora vocês vão ouvir um causo que eu juro que aconteceu lá na cidade. Minha mãe conhecia o homem dessa história.

Chega Sabá Caraxué. Quando os vaqueiros lhe oferecem um dos quatro tamboretes para sentar, ele o rejeita, gentil: – Tejam em casa. Não se vexem comigo. Tão falando de buto? – É, seu Sabá – confirma o afilhado de Presidente, tomando outra lapada. Escute aí que o meu causo é muito legar.

Acomoda-se o dono da fazenda numa raiz da sapucaieira, enquanto o crioulo vai em frente: – Apareceu em Santarém um cabuco desses lá do Brasir, que chega nos navio do Lóide. Dizque era namurador como o cão e ouviu dizer que ulho de buto é muito pai-d’égua pra arrumar mulher. – Isso eu garanto – proclama Carrapato. O ulho é bom, mas eu inda acho o vergalho dele mais melhor. Nos meus tempo de rapaz sorteiro, eu andava com eles nos borso da carça e fazia miséria com a mulherada, seus menino! Eu nem gosto de me alembrar, que me dá vontade de chorar. – Mas deixa eu acabar, pitomba! – exclama Potoca, impaciente. O cuirão do macho mulherengo percurou arguém que vendia ulho de buto e comprou um, nuvinho em folha. Enfiou a praga no borso da carça, mas as coisa começaram a ficar insquisita pras banda dele. – Por que? – indaga Caraxué, sorrindo. Ele teve encrenca com marido de mulher casada? – Que nada! Diz Potoca. Era até mais melhor que fosse isso. O garanhão deu foi pra falar fino, piscar pra homem e andar rebolando a bunda, feito fêmea! E só bigududo se engraçava dele! – Na cidade tem muita judiação – filosofa Totonha. Eu tô mardando que fizeram argum feitiço pro desinfeliz. –Tu quer adivinhar, mas tu não acertou! – zomba, vitorioso, o imaginativo narrador. Dispôs de sufrer o diabo, o bunitão acabou descobrindo o que tinham vendido pra ele era ulho de buta!... O cabuco, avacalhado, sumiu da cidade e nem cachurro de faro fino sabia onde ele se enfiou.

Gargalhadas estouram, sobretudo porque o crioulo sai andando a balançar as nádegas e a falar fino, como o herói da história. Mané Carrapato, meio bêbado, rola no chão, rindo, e Zé Potoca se baba de gozo com o triunfo quando Presidente os convoca: – Ei, seus cuirão! Vumbora que a bóia tá pronta, tinindo! – E lá se vão todos, ainda se contorcendo de rir. Agora, em volta do moquém, se empenharão numa valente disputa de apetites. A carne suculenta e aromática, a farinha torrada, a jiquitaia especial e o limãozinho com cachaça à vontade farão milagres. Vão atirar efêmeros, mas merecidos dulçores sobre essas vidas intragavelmente amargas durante a maior parte do ano.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Maromba - de Emir Bemerguy - Capítulo 5


- TERRA CAÍDA -
O verão é uma época de prodigiosa fartura nas várzeas, funcionando como a traiçoeira isca atirada pelo rio para que o homem se fixe à terra. Então, o monstro amarelo poderá torturá-lo até ao desespero nos meses da enchente. No período situado entre agosto e dezembro, quando a vazante é normal, a vida é uma festa. Parece que tudo contribui para injetar nas almas aquela entusiasmante felicidade a que se referiu Maria Flor, quando Antônio, seu marido, ponteava o violão.

Há frutos em assombrosa abundância numérica e qualitativa. Por toda parte encontram-se queijos, doces, tracajás, incontáveis produtos agrícolas e, sobretudo, peixes, muitos peixes à escolha. No lago que fica por trás da “Fazenda Apuizeiro”, Zé Potoca só tem o trabalho de esticar a malhadeira ou o espinhel para que tucunarés, curimatãs, tambaquis, pescadas, pirapitingas, surubins ou jatuaranas – todos pingando gordura! – abasteçam a mesa às refeições.

Ao longo do Amazonas, principalmente quando a Lua evolui do esperado quarto crescente para o plenilúnio, sucedem-se os cardumes de jaraquis, pacus, aracus, sardinhas e outras espécies, que sobem o rio para a complementação de seus ciclos vitais. E, de vez em quando, a família de Antônio atravessa o “Mar Doce” e vai fazer uma saborosa “piracaia” num alvinho areal, a meia hora de barco. Ali, sob a magia da noite enluarada, arma-se braseiro ou moquém e se come o peixe fresco (acari, por exemplo!) na praia. É uma das boas gostosuras da vida ribeirinha.

Neste sábado, ultimadas as tarefas rotineiras, Presidente resolve sair com o afilhado: quer ver se mata umas capivaras lá na ribanceira do outro lado do rio. Soube que elas andam pastando desde o Paraná do Calango até ao Igapó do Tiririca. Para a viagem reúnem, os dois, todo o material necessário, como cartucheiras, munição, facas e também equipamento de pescaria, porque ali é lugar de pirarucu. Anoitece quando eles partem, levando uma pequena canoa atravessada sobre o comprido bote azul, em cuja lataria, à proa, aparece o nome pintado em vistosas letras vermelhas pelo primo Turico: “Flô das onda.”

O tempo está uma beleza. Mergulhões atrasados para o repouso noturno voam a meio metro da água. Após uma hora de viagem, chegam ao destino e, amarrando a embarcação a uma árvore da margem, desembarcam a montaria e os apetrechos. Devem, agora, remar uns dez minutos, mata adentro, por estreitas veredas, bem visíveis sob o foco da lanterna de carbureto, colocada sobre um caixote.

Em certo ponto do percurso, Antônio acha conveniente estenderem logo a malhadeira maior, que examinarão mais tarde, ao retornar da caçada. Estão entretidos no trabalho quando um abafado, mas forte estrondo se faz ouvir. Benzendo-se e pondo na voz baixa todo o atávico espanto supersticioso dos amazônidas, diz Zé Potoca: – Vute! Paresque terra caída, meu padrinho! – Ao segundo ronco misterioso, grita Presidente, afobado: – Larga tudo aí e vamo embora, que a praga é lá pras banda do nosso bote! Pelo jeito, é terra caída mesmo! – E, como doidos, varam o matagal, na ânsia de salvar o barco, deixado às proximidades de um barranco talhado a prumo, com umas cinco braças de altura. Estão a cem metros do local quando um novo rugido aterrador lhes acelera os corações. Há uns segundos de silência agourento em que até os sapos, grilos, arapapás e demais seresteiros das campinas guardam os instrumentos e... o mundo vem abaixo! O pecuarista, desesperado, após ver a canoa em segurança na margem, cai de joelhos e suplica: – Minha Mãe do Céu, sarve o meu barquinho, pelo amor de Deus!...

Com arrepiante escarcéu, uma enorme fatia da ribanceira desaba! É, realmente, o perigoso e apavorante fenômeno amazônico da “terra caída”, que talvez só fique atrás da enchente no tamanho do medo que provoca nos caboclos.

E por que tão grande assombro? Justifica-se a covarde reação dos varzeiros. Faz poucos anos que ali no Paricatuba, por exemplo, nove pessoas morreram, tragadas pelo potente redemoinho que se forma ao despencar, inteiro, dentro do rio, um imenso bloco do solo. É que, lentamente, as águas vão cavando, corroendo as bases dos barrancos, até que, um dia, a pertinaz erosão produz um catastrófico desabamento. Tudo o que fica às proximidades da área desmoronada é succionado violentamente para os peraus lodosos do Amazonas, enquanto vagalhões se erguem, convulsionando tudo ao redor!

O fenômeno costuma, curiosamente, denunciar-se por um ronco soturno que, emergindo das entranhas da terra, enche de terror as almas crédulas e assustadiças da gente ribeirinha. Deve ser esse o rugido que dizem sair dos vulcões prestes a entrar em erupção, ou dos epicentro de arrasadores terremotos. Enquanto se acomodam, nas profundezas, as camadas geológicas brincam de assombração, grunindo sinistramente como a porca da meia-noite...

Na Amazônia, entretanto, existe uma crendice que associa a desgraceira da “terra caída” a um mal ainda maior: a Cobra Grande. Morando nas funduras aquáticas, ao se aborrecer ou se espreguiçar lá pelos abismos, ela agita o corpanzil de quarenta metros e desmonta, sem esforço, um grande pedaço do barranco mais próximo. Então, o paralisante estrondo nada mais é do que o bramido mortal da bichona zangada. O tumulto das águas explica-se, à luz da secular superstição, nem tanto pelo volume de terras que nela se despeja, mas pelos colossais “esperneios” do monstro lá embaixo...

Serenado outra vez o ambiente, Zé e Antônio, reprimindo o medo e com extrema cautela, vão ver o que aconteceu ao precioso barco “Flô das onda”. De lanterna em punho, aproximam-se o bastante para, a uma só voz, proferir, desolados, a mesma palavra indesejável: – Sumiu!...

Tragado pelo turbilhão infernal, o barco está definitivamente perdido! Aí a correnteza é tão forte e tamanha a profundidade que, conhecendo tanto a região, seria estupidez de ambos tentar uma busca. Girando em semi-círculo o farolete de pilhas e já meio resignado com a desfeita da Mãe do Céu, Presidente mostra ao companheiro a dimensão do trecho que caiu: uns trinta metros de ribanceira! Fazem o que lhes compete nessas amargas circunstâncias. Vão recolher a malhadeira, onde encontram dois bonitos bodecos (filhotes de pirarucu), uma vasta arraia e um tambaqui. Não foi de todo inútil a desastrosa viagem para assassinar capivaras...

Dispondo tudo a bordo da pequena canoa, que fica apenas com o pavês fora d’água, tal o peso da carga, os dois remarão, a seguir, cerca de duas horas para atingir a “Fazenda Apuizeiro”. Mas, como não há vento, o retorno transcorre sem problemas e às dez da noite estão entrando em casa. Pouco falaram pelo caminho, trocando somente algumas idéias para se arrumar outra embarcação. Providencialmente, Antônio tem um amigo que anda querendo se desfazer de um bote motorizado, bem semelhante ao falecido “Flô das onda”.

Abrindo a garrafa térmica, Maria Flor põe o cheiroso café em dois canecos de alumínio e pergunta: – O motor deu prego? Eu não vi barulho. Cadê a capivara? – Em poucas palavras, o marido conta o que aconteceu, enquanto atira os peixes sobre a mesa da cozinha. E comenta: – Dizque tem gente tão azarada que vai passando embaixo duma casa e uma telha cai bem no cocuruto dela. Nós tivemo a uruca de resorver ir caçar logo nessa noite mardita e pusemo o bote num lugar que nem a Mãe do Céu sarvou ele. – Tomando um pouco de café, concluiu, sombrio: – Eu e o Zé rezemo mais do que velha coroca em cima de defunto. Mas não adiantou nada e eu já tô conformado. Tem o Diabo pra tirar e Deus pra dar. A gente arruma outro barco.

Ouvindo o esposo, em interessado silêncio, a mulher tem como única reação inicial o palavroso discurso de duas lágrimas, que logo ela enxuga na manga do vestido. Ao lavar os canecos, entretanto, exprime o que lhe passeia pelo coração e fala, emocionada: – É bestera. Porrada em cima de pobre só presta se for grande. Minha mãe dizia pra nós que desgraça só gosta de andar em procissão. É como um bando de andor que tem demônio em vez de santo. Se aparece uma consumição maior, pode perpará o corpo que vem outras cacetada. – Jogando no quintal a água suja, arrisca um palpite sinistro: – Eu já tô mardando que essa enchente inda vai fazer nós muito desinfeliz. Tisconjuro!

De muito longe, cavalgando o vento terral e prostituindo o silêncio da noite serena, chega aos ouvidos o espalhafatoso berreiro de guaribas que sofrem de insônia.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Maromba - de Emir Bemerguy - Capítulo 4

- O CÍRIO -
No município de Santarém há uma tradicional devoção coletiva. Ela prevalece poderosamente sobre as ladainhas particulares aos santos venerados nas inúmeras comunidades varzeiras. Nossa Senhora da Conceição, excelsa protetora de todo o povo, é a querida padroeira que tem sua festa anual a 8 de dezembro. A precedê-la, quase uma quinzena de comemorações litúrgicas e profanas.

Não importa que os Santos Inácio, Benedito, Antônio, Teresinha ou Ana sejam cultuados com fervor, por aí a fora. No último sábado de novembro a região inteira se alvoroça e a chamada “Capital do Estado do Tapajós” fervilha, ao ser tomada de assalto por alegres e pacíficas caravanas de romeiros. Nessa noite se iniciará a quadra festiva, com a “Transladação” – o transporte da imagem de uma igreja para outra, em procissão iluminada por milhares de velas acesas. Na manhã seguinte, o itinerário será inverso, no imponente e concorridíssimo “Círio”, o maior cortejo religioso do interior do Pará.

Como tem acontecido sempre, desde que se casaram há quinze anos, Presidente e Maria Flor estão com a família preparada: permanecerão durante quase dois dias na cidade. Tudo já foi providenciado. Deixarão na fazenda o vaqueiro Zezinho Tiningu, gente de confiança que, por ter levado uma estrepada de jauari num dos pés, não poderá acompanhar a procissão. Em Santarém, a mãe e as crianças ficarão na casa de Babá Sapateiro, um dos amigos que possuem. Antônio e Zé Potoca se arrumarão mesmo no “Flô das onda” – o bote próprio que os leva acima e abaixo, quando é preciso.

O grupo viajou no sábado, após o almoço. À tardinha, desembarcou na praia em frente ao Mercado Municipal, onde se aglomeram, disputando uma vaga, mais de cem barcos motorizados e canoas dos mais diversos tipos e dimensões.

À noite, havendo participado, sem contratempos da Missa e da Transladação, o fazendeiro convida a turma: – Vumbora, gente boa! Vumbora dar umas vorta no arraiar e tomar um cardo de cana. – Potoca, no entanto, sugere: – Meu padrinho, este ano tem um tar de carrosser elétrico, ali junto das baiúca do mingau. Nós nunca andemo nesse coirão e era legar a gente dar umas rodada nele. Dizque é baratinho e pai-d’égua de bom! – A gurizada vibra: – Vumborá, papai! Vumbora no carrosser! – Então, é melhor nós fazer logo as duas coisa – pondera Maria Flor. Nós toma cardo de cana com paster na garapeira e dispôs a gente vamo rodar no carrosser. – Alegremente, a proposta é aprovada.

Na “Garapeira Ipiranga”, após conseguirem vagas em meio à sedenta freguesia, todos se empanturram de pastéis, broas, refresco e garapa, até que não caiba mais nada nos estômagos. Deslumbrando-se com as luzes coloridas e pisca-piscantes da igreja e do imenso arraial, eles seguem para o ponto onde rodopia o carrossel, entrando numa comprida fila. Antônio compra os ingressos e avisa: – Cuidado! Nós tamo de bucho cheio e dizque essa pitomba dá tontura e engulho quando a gente não tem costume. – Acomodam-se, nervosos, nas estreitas cadeiras. O barulhento mecanismo é acionado e, já na terceira volta, Maria Flor e três meninos estão expulsando a alma pela boca... Entre dois espasmos que lhe esbugalham os olhos, a cabocla se esgoela, enquanto acode uma criança que chora, apavorada: – Pára!... Pára essa porqueira!... Bem que o Antônio avisou a gente! – Mas o brinquedo gira, mais rápido ainda. Agora, só Presidente e o afilhado vão conseguindo reter nas entranhas, a muito custo, a merenda que engoliram. E quando, finalmente, a engenhoca se detém, o espetáculo é de provocar sacolejantes gargalhadas em hipopótamo: a mãe e os seis filhos, inteiramente sujos, pingam vômito até das pálpebras! Os menores berram, meio sufocados, o pai faz o que pode para socorrê-los, mas Zé Potoca não resiste à cômica situação: – Quá! Quá! Quá! – sacode-se, a rir incontrolavelmente. Gargalha tanto que, de súbito, expele a refeição adocicada quase na cara da descabelada madrinha, que mal tem um reflexo para se desviar do jato repugnante e esconjurar, furiosa, o crioulo debochador: – Agüenta, cachurro mardito! Vai fazer pouco da tua mãe e bota também os bofe pra fora, seu sem-vergonha! – Limpa mais um guri com a parte menos imunda de um calção que retirou do outro e se lamenta, afobada: – Mas, que consumição!... A gente viemo pra se divertir e eu inda vou ter que lavar essas roupa agora, senão nós não acompanha o Círio amanhã. Tisconjuro! Vute! Nem na cidade eu não descanso.

E lá vão os varzeiros: dois garotos estão nus, outros sem camisa e com as sandalinhas na mão. Todos azedos e tontos, agora dormirão em paz, sem muriçocas e sonhando com as maravilhas do arraial.

No dia seguinte, o grandioso Círio. Dezenas de milhares de pessoas, entre foguetório, banda de música e vibrantes cânticos, glorificam a Virgem da Conceição, que é levada em passeio triunfal pelas ruas da cidade. O longo trajeto, que exige cerca de três horas para ser percorrido, constitui uma colorida apoteose, agradável aos olhos e ao coração.

O tributo comunitário à Mãe Celestial, a par com a religiosidade esclarecida, apresenta fortes conotações folclóricas, sobretudo pelas extravagantes promessas que muitos devotos cumprem publicamente, agradecendo benefícios recebidos. Carregam-se pedras e potes na cabeça, envergam-se mortalhas ou se rebocam chorosas crianças, comicamente fantasiadas de anjos. Do meio para o fim, todavia, os pequeninos assessores artificias de Deus não sabem sequer por onde andam suas asas: caíram por aí, na confusão dos apertos...

Os divertimentos do arraial atraem fortemente a caboclada interiorana. Ultimados os atos religiosos, essa humilde gente espraia-se pela apinhada Praça da Matriz, participando, a rir, do alegre burburinho. Os corações sentem cócegas quando a competente “Banda Municipal”, instalada no coreto, ataca vibrantes dobrados e rebolativos sambas. E o dinheirinho dos varzeiros vai encolhendo, na “pescaria”, nas bancas de açaí, “rala-rala”, mingau ou tacacá e na compra de mil bugigangas dos persuasivos e muitos marreteiros.

A família de Antônio Presidente está muito alegre e feliz, muito se distrai, trançando pernas acima e abaixo. Cada menino, todo lambuzado de picolé ou pé-de-moleque, tem um balão com o irritante apito e não deixa por menos: sopra-o com vigor, acrescentando novos ruídos aos berros histéricos dos alto-falantes e a tantas outras estridências. Quem for podre, que se quebre e tome nos ouvidos: – Piiii!... Piiii! Fooom! Fiuuu!

Estão os peregrinos ouvindo o discurso de um cidadão que anuncia as maravilhas de certa pomada, que cura desde espinhela caída até disenteria e dor-de-cotovelo, quando alguém dá o alarme: – Roubaram o meu dinheiro!... E foi este preto aqui! – assegura, apontando Zé Potoca, a seu lado.

Insultado estupidamente no meio da rua, sem culpa alguma, o vaqueiro acerta um violento murro na cara do afoito acusador – um tipo empoado, bem vestido, de cabelos caindo sobre os ombros. O homem cospe um dente, há gritos e correrias. Aparecem dois policiais, apuram tudo, rapidamente, e o cabo decide, com voz grossa: – Teje preso, nego safado! – Mas eu não fiz nada, seu sordado! – garante o rapaz. Esse corno aí me chamou de ladrão e eu sapequei um tabefe nele. – Vumbora e não conversa fiado! – grita o guarda, já empurrando o caboclo. – Antônio quer interferir, mas é inibido pelo invencível pavor que a gente do interior tem da polícia. Logo ocorre, porém, à madrinha de Zé Potoca, já detido, uma boa idéia: – Vumbora, já, já, percurar o vereador Polidoro, que ele sorta o Zé!

Apanham um táxi, deixam as crianças na casa de Babá Sapateiro e localizam o político. Sem dificuldade, ele consegue liberar o prisioneiro. E já vão saindo da delegacia quando chega a informação de que o esmurrado sujeito achara a sua bolsa. Havia pago, entretanto, a calúnia com um dente extraído sem anestesia...

São ainda treze horas. Todavia, por causa da medonha encrenca, os moradores da ‘Fazenda Apuizeiro” decidem antecipar o regresso para a madrugada seguinte. Zé Potoca agrediu um desconhecido e há sempre o risco de uma vingança, de um novo sururu, com soldados pelo meio. E, afinal, convenhamos: eles já se divertiram tanto que estão saturados da cidade barulhenta. Tudo o que é demais, enjoa.

Lá vai o “Flô das onda”, amazonas acima!

quinta-feira, 20 de março de 2014

Maromba - de Emir Bemerguy - Capítulo 3

- O REPIQUETE -
Garoto ainda, Zé Potoca – José Serrão Repolho – veio da “Fazenda Vento Fresco” para morar com os padrinhos. Sendo o sexto filho de uma tribo com nada menos de catorze componentes, os pais enfrentam tremendos obstáculos na manutenção da assustadora prole. Por isso, distribuíram quatro rebentos entre os compadres mais chegados, como se faz com os vira-latas.

Espadaúdo e ativo, o comunicativo negro recebeu o apelido por ser especialmente ligado aos “causos” extravagantes. Basta engolir duas doses de cachaça para que a fantasia entre em órbita e a língua se lhe solte numa roda de caboclos. E tem início uma procissão de histórias engraçadas ou arrepiantes, em que podem sair coisas assim:

– Visagem? Ora, pitomba! Eu sou preto deste jeito de tanto ver alma penada. Mas eu juro que até hoje nunca achei lobisomi que me botasse pra correr. – Da um murro no próprio peito robusto e garante: – Um macho como eu não sabe o que é essa tar de fruxura. Não faz dois mês que eu dei uma parmada na bunda duma mula sem cabeça, que esprementou me assustar ali na capoeira da Raimunda Goiaba. – Crédulos, alguns matutos escutam, sérios, a façanha, enquanto outros insultam, entre gargalhadas, o farofeiro narrador: – Larga de ser mentiroso, nego sem-vergonha! Se tu desse mesmo de cara com um filhotinho de mula sem cabeça, tú saía doido, pondo fumaça pela pupa, que nem ferro de engomar, desses de carvão. – Zé Potoca, no entanto, não se ofende e... conta mais uma.

O linguajar dessa gente – esclareça-se – é assinalado por certos vícios que se prestam a impiedosas gozações, sendo clássica certa anedota que corre o Baixo Amazonas.

Conta-se que, aludindo às curiosas permutas de letras, sobre as quais ouvira referências antes de chegar à Pérola do Tapajós, como é conhecida a bela cidade de Santarém, um visitante pergunta a um humilde transeunte: – É verdade que o povo desta região costuma trocar o L pelo R, o O pelo U e, às vezes, também o U pelo O ? – Fechando a carranca, o caboclo, responde: – Isso é mardade. É um aboso. Nem tudo o puvo fala assim, mas só argumas pessuas.

Está atrasado o repiquete neste ano. A sonora palavra refere-se ao primeiro sinal de que o rio vai encher ou vazar novamente. A grande maré que prenuncia a inundação coincide, tradicionalmente, com o Dia de Finados. Parece uma espécie de sinistro lembrete das mortais desgraças que se poderão abater sobre as várzeas, com o descomunal inchaço das águas.

Com o repiquete de novembro, o Amazonas fornece a advertência inicial, o aviso prévio de que já está providenciando a engorda de si mesmo. Previne os interessados que vem tomando as competentes vitaminas e reúne energias para não falhar no furioso nocaute com que planeja pôr no chão, em miserável estado, a atrevida gentinha que ousa desafiá-lo, invadindo os seus domínios. Todavia, como a exceção que legitima as regras, a escrita não funcionou até agora, coisa que raramente acontece. Já amanheceu o dia dezessete de novembro e...nada! A alma cabocla sempre se alegra com o retardamento, que pode constituir um animador indício de enchente pequena. Ainda assim, na história das calamidades regionais, existem negros precedentes aconselhando moderação na euforia.

Entretanto, ao voltar da beira do rio, à tardinha, conduzindo uma lata com água para o consumo doméstico, Zé Potoca anuncia, espalhafatoso: – Meu padrinho! Minha madrinha! Molecada! Taí o repiquete e chegou com força! – Vivendo e morrendo em função do Amazonas, a família se alvoroça ante a decisiva notícia. Todos – de Antônio ao cachorro “Desacato”– saem correndo para a margem do rio, a quase oitenta metros da residência. E comprovam que cinco palmos lineares de terra foram inundados pela maré da Lua cheia.

A partir do repiquete, ninguém sabe o que o bichão Amazonas irá fazer. Ele poderá vazar ainda um pouco, permanecer quieto por alguns dias ou logo prosseguir tufando como baiacu cheio de vento. Seja qual for a imprevisível alternativa, os espíritos se preparam, com grande confiança na Mãe do Céu. Contudo, mesmo crendo e rezando, por medida de segurança eles esperam o pior: uma baita inundação. É que quando a gente aguarda a infelicidade, ela dói menos.

A comentar a ocorrência tão importante e temerosa para todos, a família retorna ao lar. Como a tarde já vai morrendo de puro cansaço, providencia-se o recolhimento do gado. Já se entoa o divinal prelúdio que inaugura uma lindíssima noite de verão tropical. Os primeiros carapanãs afinam as maviosas rabecas para a infalível sinfonia noturna de uma nota só.

Raros momentos podem fazer tanto bem à alma exausta, como um crepúsculo estival numa fazenda amazônica. Há um acúmulo tão harmonioso de lindezas no céu, e cá embaixo, no campo, é que se percebe, invisível, mas presente, a mão do Mágico Artista a tanger multicores passarinhos para ocultos refúgios no coração do matagal. Cigarras parecem espremer-se, na vesperal cantiga vagabunda: – Tché!...Tché!...Tché!...

Centenas de garças branquejam o jatobazeiro, a disputar, trocando picadas, os melhores galhos para a travessia da noite. Esquadrilhas de periquitos tagarelas, bandos de ariscas marrecas e grupos de mimosos tangarás – vermelhos como gotas de sangue borrifadas contra o céu suavemente azul – buscam abrigo, floresta adentro... E, acrescentando uma pitada de melancolia mansa ao encanto celestial dessa hora de prece, uma juruti solitária apunhala o peito saudoso de quem escuta a sua queixa triste de amor viúvo...

As sombras envolvem lentamente o mundo e aquele tresmalhado socó-boi repete o monótono refrão – o único que o Supremo Programador lhe ensinou, nas manhãs iniciais do Gênesis: – Bum!...Bum!...

Mas, prostituindo o silêncio que desce sobre a paisagem à medida em que as aves emudecem, reboa pela vastidão verdejante o prosaico aboio de Zé Potoca, estimulando reses retardatárias: – Ecú!...Ecú!... Malicioso e escondido na selva, o eco repete, qual moleque traquinas, só a última sílaba do grito, como se fizesse questão de chamar à suja realidade os líricos sonhadores...

Tão insuportavelmente magnífica está a Lua cheia, nesta noite de repiquete, que o próprio Antônio Presidente, concluído o jantar e agasalhadas as crianças, resolve fazer algo incomum, que acontece apenas em instantes muito especiais como este, em que a vida está em paz e o repiquete chegou com quinze dias de atraso.

Sentado no alpendre, com Maria Flor e o afilhado, o pecuarista apanha o violão, que hoje raramente sai da parede. Espana a poeira, começa a afinar o instrumento e previne: – Eu sabia pontear até a “Gota de lágrima” e arranhava uns pedaço do “Hino Nacionar”. Esqueci tudo. Agora só me alembro duns pequeno acorde daquela varsa do Orlando Sirva. – Dá algumas notas e começa a cantar, baixinho: – A sofrer de um punhar/ Foi teu adeus pra mim...

Pendendo ternamente a cabeça no ombro do rude seresteiro e fitando, de olhos brilhantes, a Lua encantadora, diz Maria Flor, quase num sussurro: – Nesse mundo não pode existir felicidade mais maior do que esta nossa. Os curumins tão sadio, o gado gordo, o jutar bonito... – Pára um instante, ouvindo umas notas do pinho e termina: – A única dificurdade que a gente temo agora é aqueles dois bico de galinha que tão com gugo. Mas Nossa Senhora vai botar elas boazinha!

Reverente e emocionado, Antônio silencia o violão, dá um beijo no rosto da esposa, puxando-a para mais pertinho. Deitado de costas no assoalho, Zé Potoca intervém, de olhar fixo no céu: – Meu padrinho! – Hum? – A “Rádio Rurar”, de Santarém, disse que uns cara foram lá na Lua e vortaram de vorta com um saco cheinho de pedra. É certo? – Dizque é. Mas eu não acredito nessas bobage. – responde Presidente, querendo cortar a conversa. – Eu também não, meu padrinho – replica o crioulo. – Mas não é muito longe não, porque eu já tenho arreparado que quando a Lua bóia do chão ela sai logo ali detras da Ilha do Japiim. – E conclui, espetando o dedo no rumo do esplendido astro: – Mas mardando que se os caboco chegasse mesmo lá, São Jorge arrebentava eles de porrada! Minha avó jura que o santo é vigia da bichona e até dragão ele mata com uma baita zagaia. – Como de hábito, Zé Potoca havia quebrado o fascínio envolvente de uma romântica noite. Sabendo que a tagarelice, uma vez iniciada, não teria hora para acabar, Antônio preferiu propor à mulher e ao xerimbabo que se recolhessem. Afinal, tinham um bom chamariz (ou espantalho?) para o sono: o repiquete que chegara.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Maromba - de Emir Bemerguy - Capítulo 2

- ENTRE COIVARAS E EMBIARAS -
Antônio dos Santos Benevides é tido, nestas redondezas, como um homem que se arrumou na vida. Mais alto que o comum dos nativos, forte e quase imberbe, possui um sinal marrom, do tamanho de uma pequena moeda, logo abaixo da orelha direita. Moreno claro, simpático, sua cabeleira pixaim denuncia presença de antigos escravos na árvore genealógica. Detalhe interessante: seus traços fisionômicos fazem lembrar o famoso rosto de Getúlio Vargas, fato que atraiu sobre si, na juventude, a lógica alcunha de “Presidente”. O apelido que, aliás, sempre o lisonjeou, pois fora getulista apaixonado, acabou se incorporando ao seu prenome e ele nunca mais deixou de ser o Antônio Presidente. Então, aos quarenta e cinco anos, o vistoso pecuarista e agricultor é um caboclo remediado. Nem rico, nem pobre, possui um patrimônio suficiente para manter a família em boas condições.

Antônio comprou a “Fazenda Apuizeiro” ainda nos tempos da primeira esposa, que morreu de tétano, após cinco anos de matrimônio, sem lhe deixar nenhum filho. Quase no meio do percurso entre as cidades paraenses de Santarém e Óbidos, a propriedade já chegou a acumular cerca de trezentas reses. Devido, no entanto, a certas circunstâncias, o criador teve de reduzir o plantel e, a esta altura, tem apenas cento e dez unidades no terreno.

A ampla casa residencial, de madeira caiada e coberta com telhas de barro, obedece ao figurino tradicional na região. Possui alpendre, varandas laterais, quatro quartos, sala de refeições e cozinha. Tarrafas, malhadeiras, selas, espingardas, cordas e remos estão pendurados por toda parte. Um fogão de barro e alguns móveis rústicos completam o cenário doméstico. No compartimento dianteiro da habitação funciona um pequeno comércio de gêneros essenciais. Uma plantação de juta fornece, em épocas normais, perto de quatro toneladas de excelente fibra. Não muito longe do prédio onde se agasalha a família, fica o roçado em que se cultivam, sobretudo, o milho, a macaxeira, a melancia e o jerimum. Já faz vários anos que não se quer saber de maniva (mandioca) na “Fazenda Apuizeiro”. O barracão da ladainha foi palco de incontáveis e suarentas farinhadas, até à hora em que Maria Flor, carregando um panacu de raízes às costas, caiu desastradamente, após uma escorregadela. Como estava com três meses de gestação, abortou, quase morre de hemorragia. Desgostoso, o marido resolveu vender os equipamentos – forno, tipiti e o resto –, passando a construção a servir de armazém e local de festas. Ele prefere, hoje, comprar farinha a fabricá-la, o que representa, afinal, um suplício a menos entre as torturas impostas pela várzea aos seus ocupantes.

Graças a Deus, desde a calamitosa enchente de 1953, em que Antônio perdeu quase tudo o que tinha, o rio vem se comportando de uma forma que não mais lhe trouxe consideráveis prejuízos. Ocorreram, nesse período, outras águas grandes. Todavia, defendendo-se a tempo, o pequeno criador conseguiu resistir bem à malvadeza do gigante imprevisível. E vai trabucando sempre, habituado a uma batalha constante contra adversários manhosos, potentes e cruéis, de que muito ainda se falará aqui.

Viajando, vez por outra, a Santarém, no bote acionado por um motor de popa com doze cavalos-de-força, lá, na importante cidade, Presidente se reabastece do necessário para tocar a vida. É esse o “remediado” típico do Baixo Amazonas: um homem que, em muitas civilizadas áreas do mundo, não seria jamais catalogado sequer na classe média. Com suas modestas posses, mal conseguiria adquirir uma casinha vagabunda num subúrbio distante para, ali, morrer a prestações, com os seus dependentes.

Maria Flor, filha de cearenses, mas nascida e criada na várzea, é uma benção no miúdo universo de Antônio. Um metro e meio, clara e bonitinha, já lhe deu seis filhos, mas há dois anos ficou estéril, em conseqüência da remoção cirúrgica de ambos os ovários, portadores de cistos. Despachada e trabalhadora, enfrenta, junto ao marido, qualquer espécie de serviço – do corte de juta à salga de peixe, da “broca” no campo à manutenção do gado na maromba. Com naturais qualidades de liderança, a dinâmica mulher é a alma de tudo na “Fazenda Apuizeiro”. Dando uma boa definição de si mesma, costuma dizer: “Antes de mandar fazer, eu percuro ensinar como é que a gente faz.”

A maior das crianças, já dentro dos doze anos, não freqüenta escola alguma, o que acontece com as outras cinco. Pondo os olhos gateados sobre a visita que veio de Santarém, explica a situação: – Sabe como é, Dona Catita. Nós não temo parente na cidade e a gente véve nessa peleja do diabo pra arrumar a macaxeira de cada dia. Pra sortar um curumim desses lá na casa de quarquer pessua, não dá. Os menino acaba aprendendo vício e vorta pra casa muito luxento, dizendo que não é pra fazer cocô no mato e outras bobage. – Dá uma cusparada no chão, enxota uma galinha e continua: – Até que andu puraqui uma prufessura querendo pôr uma escola aí no barracão da ladainha. Mas cumu ela só falava num tar de “salaro-mimo” – dinheiro pra cachurro, Dona catita! – o Antônio disse pra sirigaita que nós não somo o Banco do Brasir. – E concluiu, já esfregando vigorosamente uma panela tisnada: – Encurtando a conversa: nós somo burro e vamo vivendo bem. E eu nunca vi arguém deixar de ir pro inferno só porque dizque sabe ler esse tar de jornar.

Essa é a mentalidade generalizada nas várzeas amazônicas, ressalvados os casos excepcionais de caboclos que, mesmo analfabetos, tudo fazem para que seus filhos recebam a iluminação do ensino. O meio hostil, entretanto, sempre ofereceu tremendas resistências às tentativas de se clarificarem rudes espíritos até com as luzes mortiças das letras primárias. Dentre outros fatores adversos, as distâncias geográficas engolem eventuais doses de boa vontade, matando, às vezes no nascedouro, esperançosas iniciativas.

O mês de novembro é, no Baixo Amazonas, o tempo das “queimadas”. Praticando a devastadora agricultura itinerante, que herdou dos índios, o varzeiro aproveita o apogeu do verão tropical, preparando a terra para a semeadura dos começos do inverno, que chegará em dezembro. São, esses, dias de tanta fumaça no céu que, ao redor das cinco horas da tarde, o Sol geralmente se mostra como um balão amarelo-avermelhado. Sem risco para os olhos, nele se pode fixar a vista porque o fumaceiro, com vultosa carga de fuligem, atenua poderosamente a claridade ofuscante do astro-rei. Sabe-se, então, nas cidades regionais, que há inúmeras e imensas coivaras ardendo em toda a área, no mais rudimentar e revoltante de todos os métodos de se praticar a lavoura.

Depois de atear fogo ao terreno que escolheu, o caboclo faz a indispensável “broca” – o complemento da limpeza para o plantio. Organiza, finalmente, as coivaras – montes de troncos e galhos não consumidos pelo primeiro fogaréu. Concluído o segundo incêndio, passa a semear. A colheita inicial costuma ser abundante, porque a matéria orgânica incinerada se deposita no solo, aumentando-lhe a fertilidade. Mas tal vantagem é provisória, pois as pesadas chuvas removerão o húmus, fazendo com que a segunda safra seja bem menor que a anterior. A terceira, mal compensará o suor e, por isso, após dois ou três anos de utilização do terreno, o ribeirinho providencia outro roçado, queimando adiante. Há séculos tem sido assim.

Mesmo sendo uma lavoura tão destrutiva, ela tem suas originalidades. Emprega-se como adubo o rebaixamento anual das águas, os vorazes passarinhos substituem os inseticidas e o sistema irrigatório é confiado às chuvaradas incertas. Quando elas não aparecem na época tradicional, o desastre é inevitável. Além disso, essa agricultura primitiva ainda não tem nada a substituí-la, na região. É vital, inclusive, para os centros urbanos, que dela se abastecem.

São três horas da tarde. Em companhia do afilhado Zé Potoca, crioulo de vinte anos, filho do compadre Tomé Presepada, Presidente está arrumando uma vasta coivara. Forcejam, os dois, para pôr abaixo um jauarizeiro torrado pelo fogo, quando recuam, rápidos: ao desabar o que restava da espinhenta palmeira dos igapós, eles enxergam, lá na frente, uma cobra sucuriju de quatro metros, totalmente enrolada num dos mamotes! Por trás do enorme apuizeiro, que dá nome à fazenda, a serpente continua imóvel. Ela vai triturando o petisco em suas infernais engrenagens musculares para, mais tarde e sem pressa alguma, saboreá-lo.

Sem se afobar, por saber que o monstro não sairá dali tão cedo, Antônio ordena ao negro assustado: – Zé, pega o meu pau-de-fugo lá em casa.

Sucuriju com embiara... A temida cobra, enlaçando a presa com um certeiro bote, passa a comprimi-la cada vez mais com os seus terríveis anéis de aço. Quando está assim ocupada, somente um sério ferimento a fará afrouxar as potentíssimas espirais assassinas com que reduz a vítima a um mole feixe de carnes sangrentas e ossos esmigalhados!

Apanhando a cartucheira de cano duplo, calibre vinte, o fazendeiro desfere, com raiva, um par de tiros sobre o convidativo alvo. Atingida na cabeça, a serpente estertora um pouco e... nunca mais pegará embiara alguma.

Reunida a família alvoroçada, os dois homens seccionam o velho inimigo com afiados facões, mas têm o supersticioso cuidado de jogar bem longe dali a cabeça da bichona. Caso não se faça isso, a cobra, de qualquer espécie, ressuscitará porque o corpo se recompõe, juntando as partes separadas. É uma antiga crendice local.

Descourada a rês, salga-se a carne e, como já vai anoitecendo, recolhe-se o gado no curral que fica ao lado da residência. Hoje, no jantar, veremos filé fresquinho no cardápio. Não importa que tenha sido arrancado quase da boca de um dos mais odiados demônios das várzeas. Exatamente por isso, estará ainda mais saboroso.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Maromba - de Emir Bemerguy - Primeiro capítulo


- LADAINHA-DANÇANTE -
Na “Fazenda Apuizeiro” tudo é alvoroço neste colorido anoitecer de 15 de novembro de 1970. Chegou a tão ansiosamente esperada ladainha anual de Nossa Senhora de Nazaré. Os alegres caboclos das cercanias já vão aparecendo, dispostos a uma participação entusiástica no sensacional acontecimento. Tradicionalmente essa festança ocorre a 15 de agosto. Todavia, por causa de um incêndio que matou várias pessoas na véspera do grande evento, neste ano foi adiada por três meses a gostosa confraternização dos ribeirinhos. Seduzidos por um programa com tão irresistíveis atrativos – ardente ladainha seguida de esfogueante arrasta-pé – os moradores vizinhos, envergando os seus melhores (e geralmente únicos) trajes domingueiros, remam, às vezes, horas seguidas para atingir o local do encontro.

Curiosamente, na Amazônia, certas palavras perdem o sentido convencional, adquirindo novos e imprevistos significados. Vizinhos, por exemplo, nas várzeas sem fim, não são apenas os ocupantes de casas próximas, e sim as famílias e os amigos separados uns dos outros até por muitos quilômetros de rio e floresta. Ainda assim, essa gente humilde costuma provar que possui um espírito comunitário bem mais acentuado que o dos grã-finos nas metrópoles. Morando uns sobre os outros, os civilizados usuários dos mais modernos inventos tecnológicos, como o metrô, mal se conhecem de vista – e isso porque ocasionalmente se espremem nos elevadores dos arranha-céus onde vivem sobrepostos.

Começa a escurecer. A bela propriedade de Antônio Presidente e Maria Flor, situada à margem direita do rio Amazonas, abaixo do Paricatuba, no município de Santarém, Estado do Pará, apresenta-se com o porto atravancado por canoas, batelões e barcos motorizados. Rijos vaqueiros, alguns já tresandando a cachaça, ingerida pelo caminho, dengosas mulatinhas, berrantemente pintadas e deixando no ar um cheiro enjoativo que faz lembrar mistura de lança-perfume com óleo de mutamba; senhoras, inclusive gestantes, e crianças. Todo esse povaréu trança, buliçoso, por todos os cantos, compondo uma descontraída algazarra que denuncia interiores regozijos. Alguns convidados ainda vão chegando, a cavalo, das fazendas menos distantes e tudo se acha em ordem para o início das empolgantes atividades.

São bem racionados, em doze meses, os momentos especiais em que a população varzeira pode fugir, por algumas horas, à desigual peleja com a vida madrasta, que tão escassas tréguas lhe concede. Inimigo perverso e covarde, tirano e cínico, o Amazonas é uma espécie de esposa adúltera, adorada pelo traído companheiro. Quanto mais a sem-vergonha apunhala a alma do infeliz e desfibrado consorte, mais apaixonadamente ele a idolatra e menos admite abandoná-la. O varzeiro sabe dos caprichos, das tramas, das crueldades do formidável oceano sem sal. Mas, pelo fato de ele também lhe proporcionar, seja lá como for, os meios de subsistência, vale sempre a pena manter-se fiel a tão volúvel e neurastênico senhor.

O grande barracão de palha e o terreiro onde se reúne o povo foram condignamente ornamentados: piririmas, tajás de inúmeras aparências e bandeirinhas coloridas emprestam ao limpo arraial um risonho ar de feriado, que tanta euforia põe nos corações. Ali está, porém, a verdadeira dona da noitada, a vedete querida que faz os joelhos se dobrarem automaticamente: a Virgem Santíssima, de gesso, com um metro de altura, aprecia o movimento, a faiscar dentro de um novo manto. A roupagem foi tecida, em cintilante lamê azul, por Maricota Bordadeira, uma danada na máquina de costura, que sabe fazer batina de santo, vestido de baile, mortalha e calção de vaqueiro.

Respeitosamente, cada matuto que se aproxima pede a benção à Mãe do Céu e beija uma das muitas fitas que se confundem com as flores, engenhosamente arrumadas desde os cabelos até às sandálias da simpática Senhora de Nazaré. Os músicos terminam de afinar os instrumentos – acordeon, violão, pandeiro e reco-reco. Tudo pronto, vai começar a ladainha, primeira parte da programação.

Foguetões pipocam nas alturas e, como donos da casa, Antônio Presidente e família ficam defronte da imagem, pois lhes cabe o honroso encargo de puxar as simples e decoradas invocações. Entre duas jaculatórias e uma “Ave, Maria”, o conjunto musical ataca um piedoso hino, cantado fervorosamente pela multidão, cujo misticismo se atiça no expressivo estribilho: “Mãe do Céu, Amigona da gente,/ Pede a Deus que nos sarve da enchente!”.

Após meia hora de rezas e cânticos, a ronqueira estoura e garrafas da apreciada caninha “Tenho Fé” são abertas no botequim – um simples quadrado de madeira, no meio do arraial. Com o céu garantido pelas calorosas preces, a caboclada rebolará, a partir de agora, no forró mais quente do ano. Antes, porém, acontece algo muito importante no ritual. Pedindo silêncio para conter a algazarra crescente, Antônio, com o máximo respeito e tomando benção da Virgem, coloca a Santa de cara contra a parede. Completou-se a liturgia e já é permitido sambar, sem beliscantes escrúpulos: posta em sossego, a Advogada dos Aflitos ficou devidamente impedida de “serenar” o baile. Afinal, convenhamos: onde é que se viu alguém ter o atrevimento de dançar na presença da Mãe de Jesus?

Os baiões e carimbós vão fazendo a temperatura subir quase tão depressa como as generosas doses de cachaça que descem pelas gargantas. Até à meia-noite, se não fossem uns dois ou três inofensivos bate-bocas de bêbados, nada teria acontecido para perturbar a normalidade da animadíssima brincadeira. Mas, de repente, um grito suplanta o vozerio do salão: “Vai te apresentar com a tua mãe, cachurro pirento! – É Chiquinha Pipira, uma das mais disputadas morenas da várzea, que acaba de sapecar um tapa nas fuças de João Sucuriju. Sofrendo a desfeita humilhante, o musculoso e embriagado vaqueiro, carregando a jovem como se fosse um fardo de juta, vem lançá-la, porta a fora, em pleno quintal! E o tempo fecha, entre clamores, balbúrdia e palavras não muito civilizadas. Dois irmãos da machucada moça partem, como feras, sobre o cambaleante agressor.

Há, diga-se de passagem, uma característica peculiar à gente varzeira: nas brigas, sejam em festas ou campos de futebol, dificilmente se registra a presença de armas, brancas ou de fogo. Em geral, os caboclos acertam suas diferenças a murros, gravatas e coices, sendo raro conduzirem as temíveis peixeiras dos nordestinos.

À luz indecisa dos quatro candeeiros do barracão, os olhos de Sucuriju, enfrentando a dupla furiosa que o acua, faíscam como diamantes ao clarão da Lua cheia. A peso de seguro trampescos, ele, mesmo alcoolizado, já derrubou um e briga com o segundo quando Antônio Presidente salta pela janela, penetrando no quase deserto recinto. Com agilidade, planta certeiro pontapé no peito do valentão e, ato contínuo, lhe desfere um desses socos suficientes para atirar novilho no chão, pondo as tripas pela boca. Rápido, monta sobre o arruaceiro, pede cordas e, em poucos minutos, está o distinto João Sucuriju convenientemente amarrado. Conduzido ao batelão de Quincas Pereba, logo o sono começará a lhe curtir a bebedeira.

Parece que não há nenhum ferimento grave. Providencia-se emplastro de andiroba para um olho arroxeado. Maria Puxadeira repõe no lugar o dedo mindinho, desmentido, de Chiquinha Pipira, fazendo-lhe, depois, massagens nas costas machucadas com a violenta queda sofrida. E a festança prossegue, com maior entusiasmo, após o forçado intervalo. Em paz, até às seis da manhã. Em paz, sim, desde que só houve, ao terminar o primeiro sururu, mais duas trocas de tabefes e insultos. Isso, entretanto, para os padrões locais, não passa de suportável “enjôo de porre”...

E lá se vão, em cortejos pitorescos, de volta aos lares e às agonias da vida, os exaustos participantes da maravilhosa noitada! No fundo de cada coração, tornando ainda mais amarga a ressaca, desperta, carrancuda e ameaçadora, a brutal certeza: quanto, quanto se terá de trabalhar e sofrer até à outra ladainha-dançante!... Uma eternidade: só em agosto do ano que vem!