sexta-feira, 2 de maio de 2014

Maromba - de Emir Bemerguy - Capítulo 9


– O PIÃO –
Cinqüenta reses – quase a metade do rebanho da “Fazenda Apuizeiro” – já se comprimem nas dependências do “Machão do Tapajós”. Numa só viagem, o comprido barco fará a remoção de todo o gado a ser transferido para a terra firme. O ideal, evidentemente, seria a passagem da manada inteira, mas, querendo reduzir as despesas com o aluguel do campo, Antônio Presidente prefere manter uma parte em cima da maromba.

É meio-dia quando a potente máquina de sessenta cavalos põe em movimento a embarcação de Chico Tenório. Presidente e Zé Potoca acompanharão a boiada. Como os pastos de Nenen Tangará ficam a duas horas de viagem, após comerem jatuarana moqueada com farinha, os exaustos caboclos estendem-se no assoalho da roda de popa. Tirarão uma revigorante soneca enquanto o experiente comandante Simão irá conduzindo o casco de itaúba pelos meandros que tão bem conhece.

Sem incidentes, às duas da tarde o barco está manobrando para encostar na Ponta do Mucuim, a quase um quilômetro dos campos de inverno. O trabalho, agora, consistirá em fazer os bois saltarem sobre a baixa amurada do barco para, em seguida, dirigi-los através dos trinta metros do Igarapé da Pitanga, que os animais atravessarão nadando. Só a partir daí e após subirem o barranco, estará desimpedido o caminho que leva aos verdejantes capinzais.

Com as cautelas que a vida e, sobretudo, os prejuízos lhe ensinaram, Antônio vai comandando cada detalhe da operação, pois ali está em jogo quase todo o seu patrimônio de pecuarista. Postas para fora todas as reses, inicia-se a marcha do rebanho.

Chega-se ao igarapé, relativamente estreito, mas muito fundo. Na canoa que serve de reboque ao “Machão do Tapajós”, o fazendeiro, auxiliado por Zé Potoca e mais dois rapazes de bordo, procura ordenar os animais, a fim de reduzir o tempo da travessia. E, aos gritos de “Ecu! Ecu!”, a manada entra nas águas frias do córrego. Em tais ocasiões precisa-se ter muito cuidado, pois um simples susto coletivo poderá provocar o estouro do gado em um fatal turbilhão. Até um peixe grande que salte às proximidades representa uma ameaça.

Subidamente, uma vaca muge, alto, lá na frente do grupo que vai nadando. Atrás, na derradeira fila, um bezerro dá imediata resposta e a mãe logo tenta voltar, na contramão, para vir ao encontro do tresmalhado filho. E o temido caos se estabelece, num instante!

Apesar de todas as precauções, uma grave falha ocorrera na disposição do gado para a travessia: um dos mamotes não havia sido colocado junto à sua nutriz. Esta, ao identificá-lo pela “voz”, procurou retornar, desesperadamente. Consumava-se aquilo que os criadores amazônicos tanto receiam nessas oportunidades: o “pião”. Consiste num violento e succionante torvelinho que, de repente, convulsiona as águas, como se fosse “terra caída”. Ao verem um companheiro do lote fazer esforços para regressar à margem, os bois que nadam resolvem agir da mesma forma. Desse confuso rodopio os resultados sempre são nefastos. – Os corno tão fazendo pião, meu padrinho! – berra Zé Potoca, assombrado. Umas dez cabeça já foi pro fundo!

Descontrolando-se e a rezar em voz alta, Antônio não sabe agir e, temerariamente, quer enfiar a canoa no meio do turbilhão. Um dos homens adverte: – Cuidado, seu Presidente! Deixe essas peste levar o diabo, mas não morra, não!

Percebendo a tempo o tamanho de sua imprudência inútil, o caboclo retrocede, com um desabafo que se mistura aos agoniados mugidos: – Meu Deus, mas que besteira eu havera de fazer! Tô tão calejado de passar essas porqueira e acabei deixando a peste dessa vaca longe do mardito filho dela!...

Em poucos minutos, mais uma arrasadora decepção acrescenta-se ao cortejo iniciado na miserável noite da “terra caída”: cessado o pandemônio e feitas as nervosas contas, verifica-se que nada menos de trinta reses morreram afogadas!

Recompondo-se penosamente, o infeliz pecuarista passa a tomar as necessárias providências. Lidera o reembarque dos animais sobreviventes no “Machão do Tapajós” e ajuda a recolher, à proporção em que vão boiando, lá adiante – pois é forte a correnteza – aqueles que morreram. Para aborrecer ainda mais o zangado varzeiro, uma barulhenta chuva começa a cair enquanto eles se desgastam na cansativa batalha para ao menos diminuir o vultoso prejuízo. Quase a sussurrar, o caboclo repete, vezes sem conta, a frase predileta de Maria Flor em ocasiões assim: – Porrada em cima de pobre só presta se for grande... Porrada em cima de pobre só presta se for grande...

Ao escurecer de uma noite que ameaça ser muito fria, apenas onze unidades, foram, a duras penas, postas a bordo, dentre as trinta reses que se afogaram. Enquanto vai auxiliando na sangria e na remoção das visceras, para impedir que a carne se decomponha mais rapidamente, Antônio ordena: – Vumbora, seu comandante! Toca pro rumo de casa! – E o resto, seu Presidente? – pergunta Marreca. A gente temo esbagaçado de tanto pelejar, mas inda dá pra pegar mais uma quatro. – O resto fica aí pro diabo merendar com a mãe dele, as piranha e os urubu! – responde Antônio, com muita raiva. Eu não quero mais nem notícia dessas peste! Vumbora! – E o senhor não vai mais deixar nenhum na terra firme? – insiste o espantado embarcadiço. – Olhando firmemente o interlocutor, o magoado varzeiro revela toda a sua ânsia de encerrar o irritante diálogo: – Eu não vou mais passar praga arguma! Dispôs dessa desgraceira de hoje, resorvi agüentar todo o meu gadinho em cima da maromba, até Deus ter pena da gente e fazer o filho duma égua desse rio vazar! Desamarra essa pitomba e vumbora!

Com a morte na alma, imundo de lama e sangue, o dono da “Fazenda Apuizeiro” prossegue trabalhando, de faca em punho. Ninguém se atreve a tecer qualquer comentário, pois o desastre foi terrível. Todos mantêm aquele silencioso e solitário pudor ante a imensa mágoa alheia, discrição habitual nesses inconsoláveis coices da vida.

Enquanto o “Machão do Tapajós” engole as distâncias e vara os furos barrentos, o ruído de sua máquina ecoa na mataria das margens e se perde no coração da escura floresta. O barulho monótono matraqueia lugubremente, como cantilena sinistra de funeral: – Catraque!... Catraque!... Catraque!...

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Vale a pena ler: BASA/CASF

De outra forma, pelas notas (posts) distribuídas na página da AEBA na internet, temos uma variedade de contestações sobre a administração atual do BASA (as anteriores não foram tratadas diferentes), que vão desde os baixos salários, acumulação de serviços, sistemas improdutivos/ultrapassados, entre outros. Essa profusão de reclamações despejadas no site denota o estado geral de insatisfação do pessoal e vai contaminar todo o sistema, que compreende o BASA, a CAPAF, a CASF e a UNICREVEA. Como estamos às vésperas de nova eleição para a Diretoria Executiva e dos Conselhos da CASF, preocupa-nos os rumos das discussões desarvoradas que às vezes impõem dissabores aos colegas que pretendem se submeter ao escrutínio do próximo dia 16.05.14. Entendemos que no estado em que se encontra o pessoal da ativa em face de situação descrita, de modo parcial, no parágrafo precedente, pode excitar um certo desequilíbrio emocional, edificando um cenário não compatível com a formação ética de todos nós, integrantes da família bancreveana: pessoal da ativa, aposentados, pensionistas e demais componentes.

As deficiências do nosso Plano de Saúde, na atual conjuntura, que todos os integrantes devem conhecer, não tiveram origem em administrações fraudulentas, nem tampouco em gestões criminosas, mas são frutos, em primeiro lugar, da retirada do patrocínio pecuniário do empregador, e num segundo momento, pela evasão acentuada dos participantes (perdemos até esta data, cerca de cinco mil), tudo isso somado aos aumentos abusivos dos serviços médico-hospitalares, que corroem os recursos do Plano, cuja fonte principal é a nossa contribuição mensal. Em sendo assim, não vemos motivos para desqualificar os colegas da Diretoria e os ocupantes do Conselho, porque a atualização dos pagamentos mensais é feita anualmente conforme estabelece o regulamento e tem amparo nas leis vigentes. Antes, devemos organizar uma grande campanha reivindicatória congregando a AABA, AEBA, CASF e Sindicato, para exigir – pelo meio administrativo – que o BASA retorne a contribuir para o Plano, apartando um percentual de seu encargo mensal com a folha de pagamento dos seus empregados, para assegurar, na plenitude aceitável, o funcionamento do Plano de Saúde dos seus empregados, como fazem o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e o Banco do Nordeste. Naturalmente que o movimento deve buscar a colaboração de executivos importantes da administração pública federal, bem como contar com o apoio dos políticos comprometidos com as boas causas.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Maromba - de Emir Bemerguy - Capítulo 8


Capítulo VIII
  - A “PASSAGEM” -
Decididamente, toda a rotina tradicional da várzea está sendo virada de pernas para o ar, neste amaldiçoado ano. Também a “passagem” do gado terá de ser providenciada quase dois meses antes do tempo normal. Senhor de baraço e cutelo, déspota que dita os procedimentos da vida individual e coletiva, o rio Amazonas desandou a inchar com tão descarada pressa que os caboclos mal acreditam na espantosa realidade. Não se fala em outra coisa, dia e noite, desde que o destino de cada um está tragicamente amarrado ao amedrontador fenômeno.

Conversando na casa de Antônio Presidente, o velho Duquinha Mocotó, entre dois tragos de cachaça, vai derramando os seus espantos: – Eu tô com essa baita idade de setenta e dois ano e nunca, na minha vida, mardei de ver uma coisa dessa, seus menino. O repiquete deu atrasado e a água tá discunforme desse jeito. Vute! Isso é fim do mundo mesmo! – E a “Rádio Rurar” véve dizendo que daqui pra frente as coisa vão ficando mais pior – revela Dino Pojó. Dizque uns dotô lá do Brasir estudaram que esta enchente vai ser muito grande, porque tamo num tar de ano dicesto. – Tisconjuro! – interrompe-o Maria Flor, benzendo-se. É por isso que a gente ouvimo pouco rádio aqui em casa, pois essa peste só serve pra dar mais consumição pro desinfeliz.

Em épocas normais, só a partir do mês de março, quando os pastos das várzeas começam a ficar alagados, os criadores iniciam, preocupados, a transferência de suas reses para os chamados “campos da terra firme”. Estas áreas, bastante elevadas, têm condições de manter o rebanho, embora em condições algo precárias, dado o acúmulo de animais no mesmo local. Mas não há outra alternativa para se esperar que a vazante permita o retorno da boiada à sua fazenda de origem.

Concluído o corte da juta e postos os feixes em maceração (outro suplício!), para a secagem e o enfardamento posteriores, Antônio transmite à família, na hora do almoço, a importante notícia: – Dispôs de amanhã, cedinho, a gente vamo passar o gado pro campo do seu Nenen Tangará. Já acertei o barco grande do Chico Tenoro.

A decisão significa muito para essas oprimidas criaturas. Poucos são, na Amazônia, os pecuaristas com meios e coragem para se atreverem a preparar pastos de invernada. O dispendioso trabalho de semear capim de boa qualidade e proteger imensas glebas com sólidas cercas de madeira e arame farpado desestimula quase todos os que “mexem com boi”.

Os efeitos seculares e desastrosos de tal situação acabam repetindo-se fielmente: os pequenos criadores alugam os terrenos dos endinheirados, pagando altos preços por cabeça, ao mês. As dívidas são, em geral, amortizadas com o próprio gado, que o “senhor da floresta” vai assinalando com o seu ferro particular. Multipliquem-se os custos de manutenção de cem ou duzentos animais por quatro ou cinco meses, acrescentem-se despesas com fretes de embarcações e se terá uma idéia do tamanho do rombo no já esburacado orçamento dos varzeiros. Isto, quando tudo transcorre dentro dos cálculos, sem os tão habituais imprevistos em que podem ocorrer muitas perdas nos rebanhos – seja por picadas de cobras, consumo de ervas venenosas ou desgraças semelhantes.

É a todo esse festival de aperreios que Duquinha Mocotó, virando a dose “saideira”, faz referências quando garante o que sabe há três gerações: – Meu finado avô já dizia que a enchente pai-d’égua só estrepa mesmo os pequeno criador. Os graúdo fica ainda mais rico porque toma os boi dos pobres a truco de chibé.

Lamentações inúteis à parte, ouvindo a notícia da “passagem”, as crianças exultam, porque gostam demais da animada “operação embarque”. Tão alegres ficam que um dos guris pula, adoidado, quebra um prato e ganha, de brinde, umas boas palmadas da mãe. Zé Potoca não se entusiasma com a situação: – Eu só acho bom embarque de boi quando a gente já vem vortando de vorta da terra firme. Dá muito trabalho. Vute!

Definidas as predileções e antipatias, ao anoitecer do dia seguinte já se encontra no porto da fazenda o barco “Machão do Tapajós”. O comandante Simão Marreca recebe uma banda de tambaqui para jantar com seus tripulantes. Depois, a desferir sopapos em muriçocas que não têm medo de cara feia, os três caboclos do barco escutam por alguns momentos as canções oferecidas aos aniversariantes num programa da Rádio Rural de Santarém”, de grande audiência. Contudo, como começa a chover, eles descem as sanefas de lona e se recolhem às convidativas redes. O tempo está gostoso para dormir, com os pingos d’água batucando no zinco que cobre a embarcação. Além disso, é bom, realmente, descansar, pois amanhã a peleja não será de brincadeira.

Às cinco da madrugada, com um vento gelado fazendo os homens, só de calção, andarem tiritando na lama do curral, principiam as atividades. Essencialmente, a tarefa consiste em laçar a rês, suspendê-la pelos chifres no guindaste manual e deixá-la desabar, esperneando, no porão ou no convés do barco.

Exímio na corda que gira sobre a própria cabeça, Zé Potoca vai pegando cada animal, a começar pelos mais enfezados. Depois, aos pinotes e correrias, o bicho é arrastado até à embarcação, enquanto um outro caboclo, dentro do rio, tenta enfiar-lhe no estrovo a argola da talha. Afinal, todos juntos, puxando ritmadamente uma longa corda, os homens levantam a vítima, até conseguirem arreá-la, com certo cuidado, sobre as estivas de itaúba.

Pitorescas advertências e gracejos oportunos são ouvidos de vez em quando: – Se alembrem que a “Mocoronga” tá barriguda, seus coirão! – grita Maria Flor, ao vê-los brigando com uma vaca enfurecida. Peguem a bichinha com jeito pra ela não perder a criança! – Não brinca, rapaz, que esse corno é imperriado! – previne Antônio, ao ver que o moço chega muito perto de um garrote valente. Não torce o rabo dele assim que tu vai já pegar coice!

Em certo momento, Potoca faz um pedido: – Meu padrinho, pra espantar esse frio que tá tinindo, só uma talagada de cana! O senhor deixa a gente tomar uns goles? – Presidente, que abandonou a bebida há muitos anos, mas conhece bem o meio onde vive, coça o sinal do rosto e concorda: – Tá bom, vai buscar a garrafa. Mas se tu começar a contar história besta e esquecer os boi, eu te enfio o dedo na goela e tu vumita logo o assanhamento. Quer ver, isprementa!

O negro sai correndo, escorrega e cai na lama, porém logo retorna com a bendita “Tenho fé”. Ingere uma reforçada dose e vai oferecer a cachaça aos tripulantes: – Obrigado, diz Marreca. – A gente temo aí no camarote e já tomemo uns tragos.

Olhando para o curral e vendo o padrinho distraído, o crioulo engole, depressa, mais “dois dedos”... em posição vertical. Tufa o peito e proclama: – Agora, sim! Eu sou outro homem! Enxote pra cá esse buizão preto metido a macho que eu derrubo ele no cascudo!

E a lamacenta briga prossegue, sob a chuva que voltou a cair, forte. A várzea inteira está encharcada.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Eleição na CASF: CHAPA 1

3. AMPLIAÇÃO DA REDE DE CONVÊNIOS E CREDENCIADOS: Em respeito aos contratos firmados com profissionais de saúde e a rede hospitalar credenciada, priorizou-se os pagamentos de contas que estavam em atraso, de valor superior a R$-6.500.000,00, resgatando a credibilidade da CASF. Essa credibilidade permitiu a ampliação da rede de parcerias e a assinatura de novos convênios com qualificados prestadores de serviços, dentre os quais se destacam as operadoras CASSI, CAMED, CABERJ, UNIMED, que dão “abrangência nacional” aos Planos de Saúde administrados pela CASF, para tranquilidade de todos os associados, que dessa forma, podem ser atendidos em hospitais e clínicas credenciados a essas operadoras parceiras, em todo o país.
4. RELACIONAMENTO COM A ANS: Em 2010 encontramos a CASF sob ameaça de intervenção fiscal pela Agência Nacional de Saúde-ANS. Mas o trabalho sério, responsável e competente, desenvolvido por esta Administração, foi e continua sendo reconhecido por essa agência reguladora, que requereu o arquivamento da ação judicial contra a CASF no fórum do Rio de Janeiro-RJ e, no ano de 2012, tomando por base os dados do exercício de 2011, outorgou à CASF o prêmio IDSSÍndice de Desempenho da Saúde Suplementar. E para coroar o êxito desse grande trabalho, aquela agencia reguladora classificou os Planos de Saúde da CASF entre os mais bem administrados do Brasil, conforme critérios de avaliação por ela estabelecidos, à disposição dos interessados no site da ANS.
5. RECONSTRUÇÃO DA CONFIANÇA JUNTO AO ASSOCIADO: Com a volta da presença do corpo técnico da CASF nas ambientações dos novos servidores admitidos no BASA e com o início do programa CASF ITINERANTE e, fundamentalmente, pelo resgate da credibilidade, promoveu-se o ingresso de novos associados e realizou-se ações de prevenção às doenças para os funcionários do Banco da Amazônia, lotados na Matriz e em boa parte das Agências.
6. APROVAÇÃO DE NOVOS PLANOS DE SAÚDE: Esta Administração obteve mais uma grande vitória ao conseguir aprovar junto a ANS, em 03.04.2014, depois de mais de doze meses, três novos Planos de Saúde, com os quais espera trazer para a CASF um bom número de novos empregados do Banco da Amazônia, que hoje são atendidos por planos de outras operadoras.
7. REESTRUTURAÇÃO DA CORAMAZON PARA CRIAÇÃO DE FUNDO FINANCEIRO: A Coramazon, que deveria ser fonte supridora de recursos financeiros capazes de dar equilíbrio às contas da CASF e permitir a criação do Fundo Financeiro de Proteção Social, não satisfez à expectativa e, devido ao baixo dinamismo arrecadador, levou esta Administração a propor o encerramento das atividades dessa corretora. Atitude acompanhada da devolução do imóvel alugado e da simultânea criação de nova corretora, agora denominada CASF CORRETORA DE SEGUROS LTDA, com estrutura leve, porém compatível com o grande porte da carteira de clientes que possui, assegura o nível de produtividade que se deseja alcançar, através do cumprimento de metas comissionadas. A CASF CORRETORA será, portanto, a garantia de suprimento de recursos para a constituição do Fundo Financeiro de Proteção Social previsto no Estatuto da CASF, que se constitui no principal instrumento para eliminação e/ou redução das coparticipações dos associados em OPMS, objeto de constantes reclamações de todos eles.
8. PROGRAMA CASF VIDA: Criado em junho de 2012 e implantado após a inscrição na ANS sobre o tripé de patologias: Hipertensão – Diabetes - Obesidade, atende atualmente 176 associados de planos administrados pela CASF, oferecendo-lhes acompanhamento médico, nutricional, exames laboratoriais e atividade física, com vistas à melhoria da qualidade de vida e a prevenção de doenças.
9. PROGRAMA CASF ITINERANTE: Criado em janeiro de 2013 com o objetivo de promover a avaliação nutricional e clínica dos empregados da ativa do Banco da Amazônia, sejam associados ou potenciais associados da CASF. O programa atendeu mais de 900 (novecentos) empregados. A avaliação clínica serve, ainda, para estimular os empregados da ativa, associados da CASF, a participar do Programa CASF VIDA, caso sofram de patologias como hipertensão, diabetes e obesidade.
10. MAIOR SEGURANÇA NO ATENDIMENTO: Criação do Cartão Magnético de Habilitação, importante ferramenta de facilitação e controle de acesso aos serviços, disponibilizado a todos os associados dos Planos de Saúde da CASF desde novembro de 2013.

11. REPRESENTATIVIDADE JUNTO AO CONSELHO REGIONAL DA UNIDAS:
O talento dos colaboradores internos da CASF foi determinante para que a coordenadora de contas médicas, senhora Lucilurdes Santa Brígida Soares fosse escolhida para participar desse importante Conselho, como representante da CASF nos assuntos relacionados a convênios, tendo sido eleita, inclusive, Diretora de Treinamento de todas as operadoras de planos de saúde associadas à Unidas nesta Região.

12. AUDITORIA DE GESTÃO:
A Diretoria Executiva propôs e o Conselho Deliberativo aprovou por unanimidade, a contratação de Auditoria Independente, para examinar as contas da CASF a partir de 1º de julho de 2010. A empresa R & M Auditores Independentes e Consultores S/S, com sede em Belém-PA, foi contratada para a realização deste importante trabalho que deve trazer aos atuais e futuros administradores da CASF e aos seus associados, a posição das Contas da CASF no período da atual, acompanhada da análise de riscos decorrentes do processo decisório adotado. Esta é, sem dúvidas, uma das mais importantes medidas dentre as muitas adotadas pela atual Administração da CASF, pois confirma sua determinação de bem zelar pela CASF, com ética, competência, honestidade e muito profissionalismo, prestando contas do que foi feito com toda transparência, para o bem de associados e suas queridas famílias.
O QUE PRETENDEMOS FAZER SE FORMOS REELEITOS
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sexta-feira, 18 de abril de 2014

MAROMBA - de Emir Bemerguy - Capítulo 7


- A JUTA -
Dezembro ainda vai em meio e toda a Amazônia já anda alarmada com o impetuoso avanço das águas. O rio está subindo a tal ponto que faz lembrar a furiosa afobação de alguém que vence, três a três, os degraus de uma escada porque acaba de saber que, lá em cima, um louco arromba-lhe o apartamento.

Mesmo reconhecidamente equilibrado, Antônio Presidente não consegue esconder a preocupação que lhe rouba o sono, sempre pensando: – A coisa tá mesmo de deixar tudo quanto é caboco desinquieto. – Aponta com o dedo uma determinada árvore e pergunta: – Onde é que já se viu, antes do Natar, a enchente chegar na ilharga desse apuizeiro? Tem ano que só em março ela encosta aí. – Coçando o sinal da face, balança a cabeça, desanimado: – Não tá bom, não. Coisa que preste não vem por aí, Parece até que a peste da terra caída foi só o cumecinho da uruca.

Mais do que um infalível fenômeno cíclico, a enchente é um negativo estado de espírito. Cada ribeirinho fica a esperá-la imaginando os prejuízos que corre o risco de sofrer. O medo individual é dimensionado pelo valor dos bens sujeitos a se perderem durante a ascensão assassina do rio malvado. Todavia, apesar de essa angústia ter o mesmo tamanho das posses materiais do varzeiro, todos padecem, adultos e crianças, a dilacerante expectativa. Mesmo aqueles pescadores que concentram toda a sua riqueza num velho e pobre tapiri não escapam ao sofrimento que a ninguém poupa. É que também esses párias procurarão preservar, a qualquer preço, as migalhas ali agasalhadas. “Onde está o teu tesouro, aí colocas o teu coração” – lembra-nos o Evangelho de Jesus Cristo.

A juta, excelente fibra de procedência asiática, tão bem adaptou-se à ecologia amazônica em pouco tempo, que passou a ser um dos pilares da economia regional. Quando caem as primeiras chuvas, em novembro ou dezembro, as sementes são espalhadas ao longo das margens. Ficam a uma distância que lhes permitirá germinar e crescer até que as plantas atinjam, em março ou abril, o tamanho ideal para o corte.

Neste ano, contudo, as mais cautelosas previsões dos caboclos começam a falhar, tal a desusada rapidez com que o Amazonas aumenta de volume. Pelo rumo que as coisas vão tomando, a ceifa terá de ser feita antes da época habitual, por pequenos que estejam os vegetais, para que não se perca toda a safra. É a respeito desse crucial problema que, logo aos primeiros dias de janeiro, Zé Potoca, retido em casa, pela chuvarada que cai, acha conveniente conversar com o patrão: – Meu padrinho? – Hum? – faz Antônio que conserta uma tarrafa estragada por piranhas. – Zé, diz preocupado: – Só de ontem pra huje a praga da água tufou um parmo bem esticado. Nós vamo perder um bom bucado dessa juta, pois parece que só dá pra esperar até o fim do mês. – É, eu quase já não durmo, maginando bestera – confessa Antônio, sem interromper o manejo da agulha. Inda farta nós ajeitar a maromba dos boi, que percisa de cunserto. O diabo é que a gente não pode se meter nas duas faxina só duma porrada.

Maria Flor, que escuta o diálogo entre o afilhado e o o marido, intervém, animada: – Bobage, homem! Toca pra frente que eu e os curumim ajudamo vocês. E vumbora, que o tempo ruim chegou de com furça!

A partir desse dia, já enfrentando as pesadas e constantes chuvas do inverno regional, praticamente só a criança de dois anos fica dispensada de trabalhar como jumento de carroça. Todos fazem o que é possível, somando suores e palavrões para não sucumbirem aos novos – embora repetidos anualmente – desafios de sua cruel situação de inquilinos (ou invasores?) do zangado rio barrento. A várzea inteira atira-se a um nervoso e massacrante combate contra o calendário.

Depois de fazerem os reparos mais urgentes na maromba – o rústico jirau onde o gado passa a maior parte da enchente – as atenções todas voltam-se para a juta. Chegou-se ao início de fevereiro e não há mais condições de esperar sequer uma semana: já é preciso cortar as plantas com água pela cintura.

Colheita de juta... Uma das mais duras tarefas impostas a um filho de Deus neste mundo em que todos, ofegando sob o peso da maldição bíblica, devemos ganhar o pão de cada dia com o suor do próprio rosto. Homens, mulheres e crianças – sem exceção para as madames gestantes – armados de foices afiadas, passam dias inteiros, semanas seguidas dentro do rio, ceifando os arbustos pela raiz. Além de, muitas vezes, precisarem mergulhar para fazê-lo, inúmeros são os riscos a que se expõem. Além dos resfriados e pneumonias, arraias no fundo tabatinguento, poraquês eletrificados, cobras, jacarés e sanguessugas compõem um horrorizante exército de inimigos invisíveis, dispostos a atacar quando menos se espera.

Nesta friorenta manhã, embora esteja chovendo fortemente, a família moureja no jutal, pois boa parte da produção prevista já se perdeu. A água cresce, cresce e não se tem o direito de desperdiçar nem uma hora de trabalho. De repente, o berro de Bibito, o segundo filho, esperto moleque de onze anos: – Aaaiii!... Uma coisa me mordeu, papai! Aaaiii!...

Rápido, Antônio carrega o menino, pondo-o num banco da canoa grande onde se vai jogando a juta cortada. Olhando a feia ferida, que sangra muito, Zé Potoca sentencia, de olhos arregalados e examinando a dentada na perna direita: – Trairambóia!... E pegou de jeito. – Pelo aspecto, parece ter sido mesmo a peçonhenta serpente aquática, que mata a rês nos pastos alagados, decepando-lhe a língua num instante. Rasgando um pedaço da própria saia ensopada, Maria Flor ordena, afobando-se ante os gritos da vítima: – Vumbora! Larga a pira dessa juta aí e vamo pra casa que o filhinho percisa de muito cuidado!

O garoto vai apresentando os sintomas iniciais do progresso do veneno em seu sistema circulatório, além de perder muito sangue. Experimentam-se remédios caseiros, mas como o paciente piora de momento a momento, o pai resolve: – Zé, tu fica aqui com os outro curumim, que eu vou pra cidade mais o Bibito e a Maria. Eu tô descunfiando que foi outra mardição mais pior que trairambóia que mordeu ele. Perpara o barco depressa.

Em questão de vinte minutos, sob a chuva que diminui de intensidade, o “Flô das onda II” zarpa no rumo de Santarém e a viagem se atrasa bastante devido ao mau tempo. O vento de cima forma ondas irregulares que, fazendo a embarcação balançar para os lados, vão ensopando o choroso e febril enfermo. A mãe procura protegê-lo da melhor maneira possível com um plástico que esvoaça a todo instante, revelando-se um agasalho quase inútil. Por tudo isso, quando conseguem chegar ao porto do Mercado Municipal, o menino, já tendo perdido muito sangue, está quase inconsciente e inchando, da perna para cima.

- Trairambóia mata, mas não acaba com um cristão assim tão depressa! – diz Maria Flor, chorando e comprimindo o filho de encontro ao peito. Minha Nossa Senhora da Conceição, sarve o meu Bibito!

Deixando o barco sob a vigilância do dono de uma baiúca próxima, o casal, às carreiras, mete-se num táxi e rápido para o hospital da “Fundação SESP”. Ao desembarcarem os dois, carregando o doente com muito jeito para não lhe agravar os padecimentos, aparece uma enfermeira que, lá da porta, pergunta, saboreando um cafezinho: – É do INPS? – Não, senhora – responde Antônio, respeitosamente, com o chapéu de carnaúba encostado ao ventre, enquanto a criança geme, baixinho, no banco de pedra onde foi colocada. – É do FUNRURAL, por acaso? – indaga novamente a mulher, aproximando-se do garoto. – Não, dona menina, é da “Fazenda Apuizeiro”! – grita Maria Flor. O bichinho tá mordido de cobra, quase morrendo! Chame logo o dotô, pelo amur de Deus! – Tenha modos, senhora! – ralha a pernóstica funcionária, no momento em que surge um padre, habituado a visitar diariamente os enfermos. A atendente completa o sermão: – Saiba que se o seu esposo não está vinculado ao INPS ou ao FUNRURAL, únicas instituições com as quais mantemos convênio, trata-se de um caso específico de internamento em clínica particular.

Contudo, antes de a zelosa burocrata encerrar o caridoso discurso, Bibito estremece violentamente e expira sobre o bloco de marmorite! O sacerdote faz o que lhe compete e Maria Flor, vendo o filhinho morto, descontrola-se: insultando a mãe ausente da assustada enfermeira, aplica duas sonoras bofetadas na cara da moça que, afinal, deve ter cumprido superiores diretrizes de serviço.

Estabelecido o tumulto, correm algumas pessoas para o local, inclusive o guarda que vigia a entrada do hospital. Conseguindo conter, no ar, o terceiro tapa da esposa, Antônio Presidente, enxugando os olhos vermelhos, limita-se a dizer: – Vamo simbora. Deus quis assim. Descurpe as parmada, dona menina, mas a senhora foi muito braba com a gente. Nós viemo da varja, mas nós somo gente também. Cachurro é que morre desse jeito!

Talvez só isto de bom acontece neste trágico dia: embora agredida e chorando em silêncio, a funcionária reconhece que a dor daqueles pobres matutos é bem mais devastadora que os dois merecidos bofetões acertados em seu rosto. Por isso, pede ao soldado que deixe sair em paz a espoletada Maria Flor.

Após alguma hesitação sobre as providências a serem tomadas, os desolados pais resolvem conduzir o cadáver para a residência do amigo Babá Sapateiro, abandonando a idéia inicial de levá-lo para ser sepultado em Paricatuba, comunidade bem próxima à “Fazenda Apuizeiro”. Com a ajuda de um vereador que às vezes aparece lá na fazenda, em campanha política, no dia seguinte, cedo, eles enterram o garoto no cemitério de Santarém.

Às oito horas da chuvosa manhã, os tristonhos caboclos retornam às amenidades do lar, doce lar. Na tarde do mesmo dia já estão cortando juta outra vez, pois o rio cresceu mais quatro dedos. No entanto, a conselho de amigos, trouxeram da cidade o milagroso “Específico Pessoa”, infalível contra picada de cobra, ainda que seja surucucu-de-fogo, cascavel, coral ou jararaca. Só que ninguém soube dizer se serve também para anular veneno de trairambóia. Quem duvida, no entanto, que não aparecerá uma oportunidade para se tirar a dúvida?

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Maromba - de Emir Bemerguy - Capítulo 6


- O BOTO -
De vez em quando, conforme a fecundidade das vacas que existem nos seus rebanhos, os criadores da várzea fazem a “ferra” dos novos bezerros. Esses instantes sempre funcionam como pingos de alegria no miúdo mundo particular de cada caboclo, pois, em geral, pelo menos duas coisas essenciais os participantes da cruel carimbagem encontram com fartura: comida e cachaça. Isto, porém, se o patrão for generoso, porque se sabe de alguns tão sovinas que não admitem qualquer festejo para assinalar os mamotes com suas iniciais, gravadas a fogo na anca ou na cara do animal.

Antônio Presidente chega em casa e participa à família: – O compadre Sabá Caraxué me convidou pra gente fazer a ferra de parcerada. Como nós temo pouco bezerro, a gente junta com os dele, no domingo que vem, lá na “Fazenda Jatuarana”. Ele dá um carneiro gordo e nós entramo com um bode capado pra bóia. – E a birita? – quer saber Zé Potoca, enquanto a meninada comemora ruidosamente a maravilhosa notícia. – Ele já tem muita cachaça lá – tranqüiliza-o Antônio. – Maria Flor faz uma sugestão: – Como fica no caminho, nós pára um bocadinho na fazenda do Miro Brito. Eu quero dar uma espiada nuns frango que ele trouxe da cidade. – Depois é debatido o problema da permanência de alguém para vigiar a casa enquanto eles estiverem fora. Combina-se pedir ao vizinho Lulu Pinduri que se incumba dessa tarefa.

As coisas transcorreram dentro dos planos e, no domingo, a turma da “Fazenda Apuizeiro” está outra vez antegozando, rio abaixo, os prazeres de uma gostosa manhã. Os dez bezerros foram enviados de véspera, no barco grande do compadre Sabá. Está ocorrendo, hoje, a gloriosa estréia da nova embarcação da família – o garboso “Flô das onda II” – que substituiu o primeiro, tragado pelo funil da miserável “terra caída”, e desfalcou o plantel em três reses – o preço da transação do novo barco.

Na propriedade do amigo, um pouco mais abastado que Presidente, estão reunidos, às nove horas, seis vaqueiros tagarelas, senhoras e um magote de meninos com idades variadas e iguais diabruras.

A ferra é algo relativamente simples... para quem apenas aprecia o bárbaro ritual. Derruba-se o mamote que, imobilizado no chão, recebe em um dos quartos traseiros, ou no meio da testa, o ferro incandescente! Louca de dor, a rês muge e baba, um cheiro de carne sabrecada passeia pelo ar e, com um vigoroso tapa na anca, o carrasco liberta o animal, que dispara, aos pinotes. O gesto repete-se até à última vítima.

Quando se encerra a principal tarefa, outra, bem mais interessante, se inicia: o preparo do moquém para o churrasco. As mulheres ajudam de várias maneiras, temperando a carne, conferindo a dosagem dos molhos, vendo o que falta aqui e ali. Ao mesmo tempo, experimentados ribeirinhos incumbem-se de reunir lenha boa para se ter um braseiro de respeito, em condições de assar os gordos e tentadores pedaços de carne que rolarão lentamente, a chiar nos espetos, até ficarem no ponto desejado – macios, cheirosos, irresistíveis...

Como agora há gente de sobra para essa atividade final, alguns caboclos preferem o refúgio sombreado de uma árvore de castanha sapucaia, onde várias garrafas de batida de limão já se dispõem, convidativas, sobre um banco de tábua comprida. Zé Potoca, esperto, arruma-se aí, logo chegando também Mané Carrapato, Totonho Fura Bolo e Juca Potó. Tomam a dose inicial de cachaça – a bendita abrideira – e, puxando conversa, indaga Juca: – Mas vocês suberam do causo do buto lá de Óbidos? – Não vi falar, não – responde Mané. – Os outros dois alegam a mesma ignorância. Contudo, porque se trata de uma das presenças mais familiares e folclóricas no misterioso rio alaranjado, o lendário boto é um personagem que sempre se olha com supersticioso respeito na Amazônia. Constitui um assunto de interesse permanente em rodas de conversa. É por isso que Potoca, acabando de engolir o segundo trago do queimante aperitivo, pede ao amigo que esmiuce a ocorrência: – Sapeca aí, Juca, que a gente gostamo desses causo! – Eu até nem sei muita coisa, não – confessa o outro. Já foi o Furgenço Guariba que me contou. Dizque um regatão tava parado lá no porto de Óbidos quando o dono viu um macho vestido de roupa branca. O sem-vergonha ia saindo do barco e levava uns bagulho roubado. O homem tocou o pau-de-fugu em cima do cabra e o ladrão caiu, mortinho. Quando chegaram perto dele pra ulhar, um pitiú dos diabo empestava o ar e todos correram de medo: o defunto era um pai-d’égua dum buto tucuxi! – Sério, sentencia Totonho: – Os cuirão desses buto só véve aporrinhando a vida dos desinfeliz. Vai ver que tem mulher no causo. Eu sei muita arrumação de buto, mas só quero contar uma. – Então, manda logo a tua, que eu tenho um causo insquisito pra dispôs – apressa-o Zé Potoca.

E Fura Bolo começa: – A Vivina, filha do cumpadre Junito Perneta, era danada de bunita. Um dia a cabuca tava esfregando uma peça de roupa na beira do Amazona quando deu com um homem sentado na ilharga dela, num tronco de pau. – Acende um cigarro e continua: – Ela se espantou, mas não pensou em mardade. Pois o capeta veio tomando chegança e aí passou uma cantada de dotô na menina, que ficou logo duidinha por ele. Dispôs de fazer sem-vergonhice com a cunhã, o cão mergulhou e sumiu. – Ela ficou buchuda? – pergunta, curioso, Carrapato. – Peraí que eu te conto já – promete Totonho. A muça, meio pateta, ficou percurando o namurado fujão e quando o vento ventou numas aningueira, ela viu um baita buto buiar bem pertinho. O bicho sortou uma gorfada de água quase na cara da cabuca. Aí deu um assuvio fininho e vortou de vorta pro fundo, espalhando um pitiú disconforme de fedurento. Era o cachurro garanhão que tinha desgraçado a Vivina! – E dispôs, o que aconteceu? – quer saber, interessadíssimo, Juca Potó.

Após longa tragada, Fura Bolo fornece o desfecho: – A muça ficou toda abestalhada e nove mês mais tarde pariu um curumim que era iguarzinho um boto e mais pitiú que piracema de apapá! O muleque morreu logo e a mãe no outro dia. Vute!

Zé Potoca, a essa altura com as baterias em plena carga, sem perda de tempo assume o comando e ataca: – Agora vocês vão ouvir um causo que eu juro que aconteceu lá na cidade. Minha mãe conhecia o homem dessa história.

Chega Sabá Caraxué. Quando os vaqueiros lhe oferecem um dos quatro tamboretes para sentar, ele o rejeita, gentil: – Tejam em casa. Não se vexem comigo. Tão falando de buto? – É, seu Sabá – confirma o afilhado de Presidente, tomando outra lapada. Escute aí que o meu causo é muito legar.

Acomoda-se o dono da fazenda numa raiz da sapucaieira, enquanto o crioulo vai em frente: – Apareceu em Santarém um cabuco desses lá do Brasir, que chega nos navio do Lóide. Dizque era namurador como o cão e ouviu dizer que ulho de buto é muito pai-d’égua pra arrumar mulher. – Isso eu garanto – proclama Carrapato. O ulho é bom, mas eu inda acho o vergalho dele mais melhor. Nos meus tempo de rapaz sorteiro, eu andava com eles nos borso da carça e fazia miséria com a mulherada, seus menino! Eu nem gosto de me alembrar, que me dá vontade de chorar. – Mas deixa eu acabar, pitomba! – exclama Potoca, impaciente. O cuirão do macho mulherengo percurou arguém que vendia ulho de buto e comprou um, nuvinho em folha. Enfiou a praga no borso da carça, mas as coisa começaram a ficar insquisita pras banda dele. – Por que? – indaga Caraxué, sorrindo. Ele teve encrenca com marido de mulher casada? – Que nada! Diz Potoca. Era até mais melhor que fosse isso. O garanhão deu foi pra falar fino, piscar pra homem e andar rebolando a bunda, feito fêmea! E só bigududo se engraçava dele! – Na cidade tem muita judiação – filosofa Totonha. Eu tô mardando que fizeram argum feitiço pro desinfeliz. –Tu quer adivinhar, mas tu não acertou! – zomba, vitorioso, o imaginativo narrador. Dispôs de sufrer o diabo, o bunitão acabou descobrindo o que tinham vendido pra ele era ulho de buta!... O cabuco, avacalhado, sumiu da cidade e nem cachurro de faro fino sabia onde ele se enfiou.

Gargalhadas estouram, sobretudo porque o crioulo sai andando a balançar as nádegas e a falar fino, como o herói da história. Mané Carrapato, meio bêbado, rola no chão, rindo, e Zé Potoca se baba de gozo com o triunfo quando Presidente os convoca: – Ei, seus cuirão! Vumbora que a bóia tá pronta, tinindo! – E lá se vão todos, ainda se contorcendo de rir. Agora, em volta do moquém, se empenharão numa valente disputa de apetites. A carne suculenta e aromática, a farinha torrada, a jiquitaia especial e o limãozinho com cachaça à vontade farão milagres. Vão atirar efêmeros, mas merecidos dulçores sobre essas vidas intragavelmente amargas durante a maior parte do ano.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Maromba - de Emir Bemerguy - Capítulo 5


- TERRA CAÍDA -
O verão é uma época de prodigiosa fartura nas várzeas, funcionando como a traiçoeira isca atirada pelo rio para que o homem se fixe à terra. Então, o monstro amarelo poderá torturá-lo até ao desespero nos meses da enchente. No período situado entre agosto e dezembro, quando a vazante é normal, a vida é uma festa. Parece que tudo contribui para injetar nas almas aquela entusiasmante felicidade a que se referiu Maria Flor, quando Antônio, seu marido, ponteava o violão.

Há frutos em assombrosa abundância numérica e qualitativa. Por toda parte encontram-se queijos, doces, tracajás, incontáveis produtos agrícolas e, sobretudo, peixes, muitos peixes à escolha. No lago que fica por trás da “Fazenda Apuizeiro”, Zé Potoca só tem o trabalho de esticar a malhadeira ou o espinhel para que tucunarés, curimatãs, tambaquis, pescadas, pirapitingas, surubins ou jatuaranas – todos pingando gordura! – abasteçam a mesa às refeições.

Ao longo do Amazonas, principalmente quando a Lua evolui do esperado quarto crescente para o plenilúnio, sucedem-se os cardumes de jaraquis, pacus, aracus, sardinhas e outras espécies, que sobem o rio para a complementação de seus ciclos vitais. E, de vez em quando, a família de Antônio atravessa o “Mar Doce” e vai fazer uma saborosa “piracaia” num alvinho areal, a meia hora de barco. Ali, sob a magia da noite enluarada, arma-se braseiro ou moquém e se come o peixe fresco (acari, por exemplo!) na praia. É uma das boas gostosuras da vida ribeirinha.

Neste sábado, ultimadas as tarefas rotineiras, Presidente resolve sair com o afilhado: quer ver se mata umas capivaras lá na ribanceira do outro lado do rio. Soube que elas andam pastando desde o Paraná do Calango até ao Igapó do Tiririca. Para a viagem reúnem, os dois, todo o material necessário, como cartucheiras, munição, facas e também equipamento de pescaria, porque ali é lugar de pirarucu. Anoitece quando eles partem, levando uma pequena canoa atravessada sobre o comprido bote azul, em cuja lataria, à proa, aparece o nome pintado em vistosas letras vermelhas pelo primo Turico: “Flô das onda.”

O tempo está uma beleza. Mergulhões atrasados para o repouso noturno voam a meio metro da água. Após uma hora de viagem, chegam ao destino e, amarrando a embarcação a uma árvore da margem, desembarcam a montaria e os apetrechos. Devem, agora, remar uns dez minutos, mata adentro, por estreitas veredas, bem visíveis sob o foco da lanterna de carbureto, colocada sobre um caixote.

Em certo ponto do percurso, Antônio acha conveniente estenderem logo a malhadeira maior, que examinarão mais tarde, ao retornar da caçada. Estão entretidos no trabalho quando um abafado, mas forte estrondo se faz ouvir. Benzendo-se e pondo na voz baixa todo o atávico espanto supersticioso dos amazônidas, diz Zé Potoca: – Vute! Paresque terra caída, meu padrinho! – Ao segundo ronco misterioso, grita Presidente, afobado: – Larga tudo aí e vamo embora, que a praga é lá pras banda do nosso bote! Pelo jeito, é terra caída mesmo! – E, como doidos, varam o matagal, na ânsia de salvar o barco, deixado às proximidades de um barranco talhado a prumo, com umas cinco braças de altura. Estão a cem metros do local quando um novo rugido aterrador lhes acelera os corações. Há uns segundos de silência agourento em que até os sapos, grilos, arapapás e demais seresteiros das campinas guardam os instrumentos e... o mundo vem abaixo! O pecuarista, desesperado, após ver a canoa em segurança na margem, cai de joelhos e suplica: – Minha Mãe do Céu, sarve o meu barquinho, pelo amor de Deus!...

Com arrepiante escarcéu, uma enorme fatia da ribanceira desaba! É, realmente, o perigoso e apavorante fenômeno amazônico da “terra caída”, que talvez só fique atrás da enchente no tamanho do medo que provoca nos caboclos.

E por que tão grande assombro? Justifica-se a covarde reação dos varzeiros. Faz poucos anos que ali no Paricatuba, por exemplo, nove pessoas morreram, tragadas pelo potente redemoinho que se forma ao despencar, inteiro, dentro do rio, um imenso bloco do solo. É que, lentamente, as águas vão cavando, corroendo as bases dos barrancos, até que, um dia, a pertinaz erosão produz um catastrófico desabamento. Tudo o que fica às proximidades da área desmoronada é succionado violentamente para os peraus lodosos do Amazonas, enquanto vagalhões se erguem, convulsionando tudo ao redor!

O fenômeno costuma, curiosamente, denunciar-se por um ronco soturno que, emergindo das entranhas da terra, enche de terror as almas crédulas e assustadiças da gente ribeirinha. Deve ser esse o rugido que dizem sair dos vulcões prestes a entrar em erupção, ou dos epicentro de arrasadores terremotos. Enquanto se acomodam, nas profundezas, as camadas geológicas brincam de assombração, grunindo sinistramente como a porca da meia-noite...

Na Amazônia, entretanto, existe uma crendice que associa a desgraceira da “terra caída” a um mal ainda maior: a Cobra Grande. Morando nas funduras aquáticas, ao se aborrecer ou se espreguiçar lá pelos abismos, ela agita o corpanzil de quarenta metros e desmonta, sem esforço, um grande pedaço do barranco mais próximo. Então, o paralisante estrondo nada mais é do que o bramido mortal da bichona zangada. O tumulto das águas explica-se, à luz da secular superstição, nem tanto pelo volume de terras que nela se despeja, mas pelos colossais “esperneios” do monstro lá embaixo...

Serenado outra vez o ambiente, Zé e Antônio, reprimindo o medo e com extrema cautela, vão ver o que aconteceu ao precioso barco “Flô das onda”. De lanterna em punho, aproximam-se o bastante para, a uma só voz, proferir, desolados, a mesma palavra indesejável: – Sumiu!...

Tragado pelo turbilhão infernal, o barco está definitivamente perdido! Aí a correnteza é tão forte e tamanha a profundidade que, conhecendo tanto a região, seria estupidez de ambos tentar uma busca. Girando em semi-círculo o farolete de pilhas e já meio resignado com a desfeita da Mãe do Céu, Presidente mostra ao companheiro a dimensão do trecho que caiu: uns trinta metros de ribanceira! Fazem o que lhes compete nessas amargas circunstâncias. Vão recolher a malhadeira, onde encontram dois bonitos bodecos (filhotes de pirarucu), uma vasta arraia e um tambaqui. Não foi de todo inútil a desastrosa viagem para assassinar capivaras...

Dispondo tudo a bordo da pequena canoa, que fica apenas com o pavês fora d’água, tal o peso da carga, os dois remarão, a seguir, cerca de duas horas para atingir a “Fazenda Apuizeiro”. Mas, como não há vento, o retorno transcorre sem problemas e às dez da noite estão entrando em casa. Pouco falaram pelo caminho, trocando somente algumas idéias para se arrumar outra embarcação. Providencialmente, Antônio tem um amigo que anda querendo se desfazer de um bote motorizado, bem semelhante ao falecido “Flô das onda”.

Abrindo a garrafa térmica, Maria Flor põe o cheiroso café em dois canecos de alumínio e pergunta: – O motor deu prego? Eu não vi barulho. Cadê a capivara? – Em poucas palavras, o marido conta o que aconteceu, enquanto atira os peixes sobre a mesa da cozinha. E comenta: – Dizque tem gente tão azarada que vai passando embaixo duma casa e uma telha cai bem no cocuruto dela. Nós tivemo a uruca de resorver ir caçar logo nessa noite mardita e pusemo o bote num lugar que nem a Mãe do Céu sarvou ele. – Tomando um pouco de café, concluiu, sombrio: – Eu e o Zé rezemo mais do que velha coroca em cima de defunto. Mas não adiantou nada e eu já tô conformado. Tem o Diabo pra tirar e Deus pra dar. A gente arruma outro barco.

Ouvindo o esposo, em interessado silêncio, a mulher tem como única reação inicial o palavroso discurso de duas lágrimas, que logo ela enxuga na manga do vestido. Ao lavar os canecos, entretanto, exprime o que lhe passeia pelo coração e fala, emocionada: – É bestera. Porrada em cima de pobre só presta se for grande. Minha mãe dizia pra nós que desgraça só gosta de andar em procissão. É como um bando de andor que tem demônio em vez de santo. Se aparece uma consumição maior, pode perpará o corpo que vem outras cacetada. – Jogando no quintal a água suja, arrisca um palpite sinistro: – Eu já tô mardando que essa enchente inda vai fazer nós muito desinfeliz. Tisconjuro!

De muito longe, cavalgando o vento terral e prostituindo o silêncio da noite serena, chega aos ouvidos o espalhafatoso berreiro de guaribas que sofrem de insônia.