sexta-feira, 18 de julho de 2014

Maromba - de Emir Bemerguy - Capítulo 20


– A TROVOADA –
Começou junho. Mais uma pasmosa carga de água ainda se adiciona ao formidável volume do rio que, neste amaldiçoado ano, parece multiplicar esforços para conseguir a definitiva expulsão dos andrajosos intrusos que prostituem suas sagradas margens. Não basta pô-los em alucinada, mas provisória fuga, porque é sempre a véspera de teimoso regresso às terras enxutas. É preciso matar essa gente profanadora, reduzi-la à quietude irreversível das sepulturas.

Forças ciclópicas somam perversidades, de mãos dadas, tramam e logo executam sinistros projetos para despejarem incalculáveis massas líquidas no grávido regaço do gigante, antipaticamente amarelado como todas as desgraças. As chuvas pesadíssimas e o degelo da cordilheira dos Andes funcionam como cúmplices diabólicos do vaidoso rio-mar, que talvez alimente o fantástico sonho de recuperar, um dia, perdidas grandezas. E não sendo suficiente essa abominável sementeira de misérias, até a lírica e sonsa Lua provoca as grandes marés e também se inscreve, como vil comparsa, na conspiração satânica.

Sabe-se de razoáveis suposições científicas em que seus eruditos autores presumem ter sido o Amazonas, há inúmeros milênios, um vasto mar interior, represado pelas montanhas andinas. Tal hipótese explica fatos sumamente intrigantes, como a presença da maior reserva salina do mundo – dez trilhões de toneladas! – descoberta quando se farejava petróleo no território amazonense. A teoria também joga alguma luz sobre os misteriosos “sambaquis” – conchas de mariscos amontoados em quantidades incríveis nos mais diversos quadrantes da região.

Bem. Calcula-se, então, que, com o tempo, aquele mar primitivo acabou escavando, na rocha, uma estreita saída, à altura de Óbidos, no Pará, vindo desembocar no Atlântico, pois antes ele seria tributário do oceano Pacífico, a correr de leste para oeste. Parece, assim, que a frustração por haverem perdido o velho e imperial “status”, rebaixado de mar para rio, se assanha perigosamente, de vez em quando, e as águas barrentas avançam, incontroláveis, tentando alagar tudo, tudo, tudo!

Após repartir as pequenas porções de capim entre as trinta reses sobreviventes, Zé Potoca aparece em casa e diz: – Encheu meio parmo e passou daquela marca de 1953, que tá naquele buraco do apuizeiro. Eu digo que nós inda vai pelejar e alevantar de novo a maromba da casa. Os boi já tão com as pata mergulhada. Vute! – Tisconjuro! – esperneia Maria Flor. Tu acha puco o murro que a gente demo, pra começar a andar feigo osga, saindo e entrando pelo buraco do telhado? Égua!

Antonio Presidente não opina. Sentado num banco, olha a mulher que tira as vísceras de um jaraqui. Sabe, porém, que o destrambelhado preto possui motivos para temer novas aflições. O assoalho já foi erguido nada menos de três vezes. Sempre esperançosos de que o nível não passasse de certo ponto, e para diminuir o tremendo calor interno, que faz durante o dia, ales suspenderam apenas aquilo que lhes parecia suficiente para enfrentar as marés maiores da próxima Lua.

Agora, eis a realidade: chegaram à situação de ter que caminhar inclinados, como velho gagá, para não baterem a cabeça nos caibros do teto da casa, a pouco mais de um metro e meio. Só podem sair ou entrar, executando uma cansativa ginástica: varam um furo aberto no telhado, que fica protegido por uma folha de zinco. Na cumeeira ainda se agasalham umas quatro galinhas magricelas. Mas na hora de lhes dar a única refeição diária – uns restos de babugem que as aves famintas ciscam até sumir o último farelo – tanto elas como os dois patos têm que comer dentro da habitação. Com o ossudo cachorro “Desacato” compõem uma caótica miniatura da arca de Noé.

Água por todo lado... Nada escapou do naufrágio... Até o barracão da ladainha está com meio metro de Amazonas em seu interior. Quase não se pode mencionar, em tempos assim, um gesto, uma atitude que não exija sacrifício pessoal. Nada é fácil. O rio complica a vida a tal ponto, faz o sofrimento descer a níveis tão individuais, sem respeitar idade ou condição, que aparenta possuir olhos, mãos, ouvidos – embora se saiba que jamais teve coração. O carrasco vibra sadicamente com os gemidos, exulta com as mortes e resmunga, zangado, quando vê um sorriso ocasional num rosto qualquer – sorriso que, em verdade, aproveita caminhos de lágrimas, enxutos por alguns instantes. Nem os defuntos estão livres das fúrias apocalípticas do rio: nas grandes enchentes, cemitérios comunitários são invadidos, recobertos, fazendo ossadas irem, de bubuia, na correnteza...

Mas os perseguidos enteados do destino têm pelo menos uma forma de vingança contra o invencível inimigo. Ao sentirem as advertências de uma necessidade fisiológica, estando a privada do quintal inteiramente no fundo, apanham a canoa e se afastam um pouco da casa. Firmando-se num galho de pau, eles pagam o humilhante imposto devido à natureza, mas o fazem com desdenhosa satisfação. Tal estado de espírito foi bem expresso por Zé Potoca, ao amarrar a montaria, de volta do “sanitário de macaco”: – O marvado desse Amazona afoga nós, mas nós joga mijo e bosta bem na venta dele! Toma, seu curno!

No momento do magro jantar – uma panela com dois jaraquis e uma pirapitinga pequena – depois de tossir muito, engasgado com um bago de farinha, Antônio Pergunta: – O que é que a gente fazemo pra arrumar madeira pra subir a maromba dos boi? Se eles demorar com as canela mergulhada, vão ficar dispilicando e o tutano perde a sustança. Eu não posso agora comprar nem um pedaço de pau, farta dinheiro.

Sem entusiasmo, a dona de casa lembra: – A Rádio Rurar deu huje uma mensagem que amanhã venham uns graúdo pra ver a enchente aqui na varja. Eu não acredito em promessero sem-vergonha, mas como nós tamo liso que nem jacundá, vamu ver se eles arruma umas tauba pra gente.

Atirando um espinhaço de peixe para o cachorro, o afilhado intervém, desiludido por tantas decepções anteriores: – Que nada, minha madrinha! Se fusse ano de ileição, eles sortava dinheiro pra pegar o votinho da gente. Mas não é. – Tá bom, mas o jeito e esprementar – pondera Antônio. Me sortaram essa: o Nhuquinha Catauari arrumou na cidade seis dúzia de itaúba. Não sei quem deu pra ele.

Combina-se, afinal, que, se aparecer a anunciada caravana, será solicitado aos visitantes o material necessário ao levantamento do jirau externo. É outra das malvadezas das inundações: quando a maromba fica recoberta pelas águas, as canelas das reses vão perdendo os pelos protetores. Menos resistência passam a ter os debilitados animais para se manterem de pé, desde que a medula óssea é afetada de alguma forma pela contínua imersão dos membros. Além disso, persiste a constante ameaça das vorazes piranhas e das perigosas trairambóias – umas e outras com tradicional vocação para o cangaço assassino.

Quando se recolhem, nessa noite, como uma vaga esperança de conseguir que os políticos lhes arrumem alguma coisa, o calor, que foi fora do comum durante o dia inteiro, ainda está sufocante como o custo de vida. Com o diminuto espaço disponível para a circulação do ar, e sem uma brisa sequer, o martírio aumenta. Essas criaturas somente conseguirão dormir porque o corpo moído e a alma retalhada são quase insensíveis à temperatura de fornalha e ao aperreio das muriçocas – suplício que nem a sobrenatural imaginação de Dante Alighierii meteu entre as torturas infernais, quando ele não deve faltar ali. O gênio de “A Divina Comédia” teria certamente entregue os seus mais rancorosos inimigos à fúria sanguinária dos alucinantes mosquitos, capazes de varar tecidos e encerados para picarem o infeliz.

Olhando o céu escuro, Zé Potoca avisa: – Ih! Paresque vai cair um tempo feio, de cima! Tem relampo que nem presta. Vamu logo amarrar bem essa fulha de zinco que é pru vento não arrancar ela.

Usando as mãos como platibanda sobre os olhos, Presidente examina a noite, calada como criança que acabou de fazer grave danação e concorda com o vaqueiro: – Esse calurão que fez huje era mesmo sinar de truvuada. Vamu se perparar que o temporar vem de com furça e não demora.

E recolhem as aves. E fixam mais firmemente o zinco do teto. E põem a montaria bem abrigada. E enrolam malhadeiras. Depois esperam, deitados, os ribombos do céu e os rugidos das águas tipitingas, que os envolvem como bárbaros sitiando uma cidade indefesa.

Ainda não são nove horas quando o primeiro trovão ronca, surdo, longínquo, como anúncio de terra caída quando a Boiúna fala grosso, lá embaixo. Esses formidáveis vendavais amazônicos parecem mulher em trabalho de parto. A princípio muito espaçadas, as colicas da Natureza prestes a expelir legiões de demônios de suas negras entranhas, revelam-se através de urros intermitentes, com duração e potência variáveis. Todavia, na hora crucial do nascimento, as contrações quase não cessam mais e os cegantes relâmpagos clareiam sinistramente o amedrontador cenário. Afinal, a parteira precisa de luz para trabalhar e os faróis do firmamento se acendem providencialmente na ocasião do aperreio.

Também desta vez a escrita funciona. Como quem não quer nada, numa tentativa inútil de iludir os calejados caboclos, o vento oeste ou “de cima” começa a soprar, mansinho, arremedando brisa e crepúsculo, leque de donzela ou cantiga de juruti viúva. Mas, aos poucos e depressa, vai ganhando tutano. O primeiro corisco estala e o escangalho de uma árvore desabando reboa pela fazenda alagada.

– Caiu pau no mato! A coisa vai ser feia, mas Nossa Senhora e Santa Barbra vai livrar nós! – diz, medrosa, Maria Flor, embalando-se na rede com uma criança enferma.

Pela tarimba da vida, os varzeiros sabem que, ao despencar um gigante da floresta quando se inaugura uma procela, quando o vento ainda está fraquinho, podem ficar certos de que terão uma furiosa borrasca pela proa. É a sabedoria dos ignorantes sem ciência de livros.

Realmente, logo o tufão se estusiasma, convida todos os ventinhos vagabundos a engrossá-lo e, dentro de quinze minutos, parece que um milhão de Boiúnas atiça, bufando, igual número de foles gigantescos, a urrarem e a unirem os clarões de seus olhos horrendos. A noite é, agora, um festival medonhamente belo de chuva, trovões, assovios, raios e relâmpagos.

Os gregos costumavam colocar sobre os telhados de suas casas as líricas “harpas eólicas”: queriam dormir ouvindo a música do vento a tanger as cordas dos engenhosos brinquedos... A poética tradição seria impraticável nas várzeas amazônicas, pois numa noite de turbulências como as de agora, se escutaria um soturno réquiem, uma agourenta liturgia de enterros, caso o instrumento não voasse, antes, desfeito em farelos...

A tremenda tempestade tropical arroja-se em cima do mundo submerso e o faz com aquela raiva que reconduz o homem à sua absoluta insignificância diante dos petardos cósmicos sobre si desencadeados. A própria luz irreal das claridades que riscam o céu incute nos corações apavorados um terror agônico, um cheiro de morte, um antegosto de inferno. Se presenciasse uma dessas assombrosas convulsões da bacia amazônica, Abraão Lincoln certamente repetiria a sua frase famosa: “Em determinados momentos eu caio de joelhos por ter a convicção absoluta de que não me resta outra coisa a fazer.”

Transidos de um medo atávico, esmagados pela total submissão impotente ante os elementos em colérico descontrole, os caboclos não mais pronunciam qualquer palavra. Cada um reza sozinho, sentindo frio na espinha quando ouve o estalido seco de um raio. Eles se encolhem, metem os dedos nos ouvidos e, de olhos fechados, escutam com menor intensidade o abalador estrondo que chega logo depois da faísca elétrica.

De repente, sem um convite, por iniciativa pessoal e simultânea, Antônio, Maria Flor e Zé Potoca jogam-se, prostrados, sobre o chão úmido da casa: nunca ouviram falar de Lincoln, mas se ajoelham porque o instinto lhes assegura que não existe outro adequado procedimento para as circunstâncias. Ao frouxo e tremelicante clarão de um candeeiro, os três adultos oram, de mãos postas e rostos que refletem o terror interno. Começaram a rezar assim porque uma descarga atmosférica pareceu ter atingido a própria residência, perigosamente sacudida pelo rugido pavoroso de um trovão mais potente que os mil anteriores.

Espicaçado em seu constante humor azedo pela colossal tormenta, o Amazonas aproveita o ensejo para lançar água suja dentro dos miseráveis tapiris naufragados. Com escarcéu, ele se joga de encontro às paredes, molhando tudo – pessoas e trastes. E, a uma rajada mais severa do fortíssimo vento de cima, a folha de zinco, que se agitava barulhentamente, batendo nas ripas da cobertura, solta-se de vez!

Enquanto a chuva se despeja, livre, pelo rombo aberto, Zé Potoca, rápido, transpõe a passagem rasgada no teto e logo apanha a preciosa proteção, que já ia descer, de bubuia, na correnteza. Com muita dificuldade, ele e o padrinho repõem a “porta” em seu lugar, prendendo-a com a firmeza possível. Todavia, a residência está inteiramente inundada.

São duas horas de agonias, sustos, preces e ansiedades. Só aí por volta da meia-noite o temporal começa a dar sinais de que não tardará muito a sossegar, cansado de tanta brutalidade. Quando, já de madrugada, voltou a calmaria – uma espécie de paz de cemitério – Maria Flor, acariciando a filhinha febril, tem um derradeiro comentário: – Os bacana da cidade fica se mardizendo quando uma goteira besta no telhado pinga chuvisco na venta deles. Eu queria era ver aqueles curno pelejar com um trivuada disconforme como essa que a gente peguemo. Morria tudinho, só de fruxura...

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Maromba - de Emir Bemerguy - Capítulo 19


– MEDICINA DE CABOCLO –
Menos usado, porém tão eficaz como a prestigiosa infusão de folhas de sabugueiro, é o chá de fezes secas de cachorro para apressar a erupção do sarampo... Sangue de jabuti constitui maravilha infalível para extinguir teimosas erisipelas – as temidas “isipras” ou feridas malditas... Lavar os olhos com a própria urina (mas só serve a primeira do dia) acaba com as mais rebeldes inflamações da vista... Eis aí umas insignificantes amostras do folclórico, grotesco, às vezes milagroso e, não raro, assassino ou mutilante arsenal farmacêutico das comunidades ribeirinhas.

Radicados a imensas distâncias dos centros médicos, os pobres varzeiros não se podem permitir o luxo de escolher sequer entre duas alternativas, pois só têm uma: ou usam aquilo que está em seu quintal, no campo e no igapó, ou morrem sem ao menos uma tentativa de vencer a enfermidade que os prostra no fundo de uma rede. E, nesse terreno, ocorrem coisas espantosas.

Zeca, de seis anos, acorda a mãe no meio da noite: chora com dor num dente. – Peraí que eu já vou te dar remédio – diz Maria Flor, estremunhada, a esfregar os olhos.

De uma lata, na cozinha, retira um vidro pequeno e coloca duas ou três gotas de certo líquido escuro na colherinha que está sobre a mesa. – Abre bem a boca – ordena ao filho. – Antônio, anda, me ajuda aqui.

O marido, bocejando, segura a lamparina bem junto ao rosto do garoto e a mãe despeja óleo de pau-rosa na cavidade do molar estragado. O menino grita e recebe um cascudo: – Larga de ser fruxo, já vai passar!

Não demora muito e a criança, de fato, vai sossegando e pára de choramingar. Contudo, antes de amanhecer está se queixando novamente e o pai decreta: – Huje, assim que eu vortar de vorta do capim eu vou logo é distrair o cuirão desse mardito dente.

Olha o bicho que dói e assegura, com a certeza dos profissionais: – É jito como bago de milho, mas tá apustemado.

Não, Antônio Presidente não se diplomou em odontologia, mas, por necessidade, entende um pouco de tudo. Retornando, às dezesseis horas, a esposa completa o anterior diagnóstico: – O Zeca tá com a cara meia inchada. O jeito é arrancar logo esse dente. – Vê aí a tesurinha que eu vou já fazer essa distração – responde o marido.

Toma dois canecos com água e convoca: – Vem cá, curumim! Senta nesse tamburete e abre a tua bucona – ordena o caboclo, sem ao menos lavar as mãos. – Vai doer pra burro, mamãezinha!... – diz, chorando e de olhos suplicantes o menino, pedindo socorro à genitora, como quem sobe ao patíbulo para ser enforcado por um crime que não cometeu. – É pro teu bem, meu filho! – consola-o a mãe, desviando, entretanto, o olhar daquela dolorosa imagem do sofrimento infantil. – Dá-lhe um beijo na cabeça e um conselho: – Larga de teimosura e abre a buca pra acabar logo isso.

Como a vítima recusa-se a obedecer, Antônio pega uma colher das de sopa. Tendo a tesoura na mão direita, com a esquerda força a abertura dos lábios do guri que, por enquanto, já levou umas palmadas e berra como porco peiado. Os três irmãos assistem, com visível horror, a dramática cirurgia de vaqueiro...

Conseguindo, afinal, espaço bastante para trabalhar, o dentista enfia a ponta do instrumento na gengiva e levanta, de um só vez, o molar de leite, que salta sobre o assoalho! A criança deixa de gritar porque desmaiou, mas com uma cuia de água do pote na cabeça e uma xícara de café, logo volta ao normal. – Eu trouxe um mangará de banana ruxa lá da casa do Janjão Garrote – previne o pai. – Se o sangue continuar pingando, a gente sapeca o cardo na ferida. É só uma porrada.

Foi providencial a lembrança do tarimbado caboclo. Apesar das bochechadas feitas com o chá da casca do cajueiro, às nove da noite manifesta-se a hemorragia. Apanhando o mangará, Presidente dá-lhe diversos cortes e ensopa um pedaço de algodão, com que se calafetam canoas, embebendo-o no viscoso líquido que escorre. Durante cinco minutos faz compressão sobre o lugar do dente. Afrouxa, olha e... pronto! Cessou o corrimento vermelho. Persistiria, agora, apenas o risco de tétano, mas como Deus costuma dar aos pobres uma proteína especial e milagrosa, a “pobrina”, essas civilizadas ameaças acabam sendo muito mais exceções do que regras.

Entre os matutos há remédios para tudo. Alguns deles adquirem, ao longo das gerações, “status” de prodigiosas panacéias que nunca negam fogo.

Zé Potoca está procurando amarrar as pernas de uma vaca “imperriada”, para a ordenha matutina. Descuida-se um pouco e o animal desfere-lhe um coice que, embora não o atinja em cheio, deixa-lhe a perna esquerda meio machucada. Só à tardinha, porém, leva o fato ao conhecimento da família, porque o local inchou e a dor aumenta.

Maria Flor examina a contusão arroxeada e promete: – Eu vou fazer uma afumentação de andiroba com sar. Amanhã tu tá bonzinho da sirva.

Apanha o vidro, derrama o líquido de cheiro desagradável na palma da mão e faz enérgicas massagens na perna do negro, que suporta, firme. Depois, improvisa uma atadura com retalhos de pano velho e, à noite, antes de se recolherem, repete as vigorosas esfregadelas. NO dia seguinte, o crioulo mal se lembra de que recebera um agrado da vaquinha “Pupunha”...

A andiroba, espessa resina de certa árvore cuja madeira é muito usada em construções, aparece como um dos milagres medicamentosos da selva amazônica. Amolece tumores e sara feridas feias. Misturada ao mel de abelhas e à copaíba – outra seiva fantástica – dificilmente se precisa ir além da segunda embrocação nos casos de amígdalas inflamadas.

A vida, afinal, seria simplesmente impossível nesses ermos se os céus não autorizassem tais respostas a tantas emergências. Raízes, cascas, folhas, ervas e resinas do “Inferno verde” desfrutam de renome internacional por sua eficácia terapêutica. E os caboclos servem-se delas continuamente, só indo à cidade quando seus remédios tradicionais se mostram impotentes numa determinada situação.

Qualquer moléstia tem um chá, um óleo, uma garrafada correspondente. A infusão de casca de carapanaúba, mais amarga que desgosto amoroso, exerce um mágico efeito nas disenterias, enquanto a sacaca não encontra rival em problemas hepáticos. Para dissolver pedras no figado, Antônio ensina a qualquer bonitão de Santarém: – Toma o chá da folha de quebra-pedra tudo dia, como se bebesse água. Basta um mês. Misturando com cana mansa, inda é mais melhor.

Interminável seria o relacionamento de produtos incluídos no prosaico receituário caseiro. Mas, como isolados componentes de um vasto e colorido painel, mencionemos ainda alguns desses curiosos medicamentos.

Sementes torradas de jerimum constituem poderoso vermífugo. Calos e verrugas desaparecem com a aplicação de rodelas de tomate, sobre eles, durante a noite. Pingar mel de abelhas nos olhos, duas vezes ao dia, acaba com a catarata em poucos meses. A banha da cobra sucuriju exorciza o reumatismo, o chá de limão e alho cura a gripe, o jucá é ótimo cicatrizante e destrói tumores que resistem até os antibióticos. Urucu faz expectorar e a casca preciosa tem efeitos digestivos e anti-espasmódicos. O leite-de-amapá fortalece pulmões tuberculosos e o chá de folhas de graviola e laranja-da-terra não falha nos males cardíacos.

E há muito mais. Infusão de escada-de-jabuti põe fim às hemorróidas, jurubeba vence anemias, artemija cura hepatites, chá de perna de grilo solta urina presa. O paricá, a urtiga, o sebo de carneiro, as banhas de galinha, anta e tartaruga, a erva-cidreira, o capim-santo, a hortelã, o marupazinho, o jutaí, o jaramacaru, a ucuuba, a...!...

Às vezes, entretanto, os quintais e matas não fornecem a solução para um específico problema de saúde. Nesses momentos são acionados a Maria Puxadeira, mestra em desmentiduras de ossos, a Bibi Rezadeira, diplomada em espinhela caída, golpe de ar e dor-de-cotovelo. Brilha, sobretudo, o Neco Benzedor – o milagreiro da várzea.

Quando o caçula tinha seis meses de idade, Maria Flor, em certa manhã, disse ao marido: – Eu tô cismando que aquela curica da cidade que teve aqui com nós, a tar de Terma, botou mau ulhado nessa criança. Isso é quebranto puro. Aposto. Eu já dei tudo o que sei de chá e olha como o bichinho tá jururu, feito bacurau no sol.

O pai apalpa, examina o doentinho e concorda com o diagnóstico da madame, saindo logo para ir buscar o benzedor.

Chega o caboclo velho. Alto e magro, barbicha de bode, Neco Benzedor é venerado principalmente por não cobrar nada e tirar candidatos a defunto da beira do túmulo com suas rezas e puçangas. Senta-se na rede, põe o bebê sobre as pernas e segura um raminho de alecrim (arruda também serve). Concentra-se, faz uns gestos cabalísticos, resmunga orações incompreensíveis enquanto vai movendo a plantinha em vários sentidos.

Estranhamente, na mesma proporção em que o homem reza, sua muito, ensopa-se a camisa que veste e o alecrim verde vai murchando, como sensitiva. Após uns vinte minutos, o varzeiro está encharcado, as folhas do vegetal ficaram totalmente encolhidas e o garoto... bem mais esperto. Uma hora depois, brinca, alegre, com o seu maracazinho vermelho. Era quebranto puro.

Essa, a medicina de caboclo, em doses infantis, pois exigiria imensos tratados para ser esmiuçada. E os curandeiros, como o Neco, apesar das asneiras que fazem e até dos crimes que cometem com suas mandingas, vez por outra fatais, aí estão, desafiando a ciência. Representam um suculento manjar à espera dos eruditos pareceres de omniscientes, onipotentes e presporrentes parapsicólogos – os escafandristas da alma.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Maromba - de Emir Bemerguy - Capítulo 18


– O PARTO –
As crianças já dormem. Após comentarem as vivências do Paricatuba, Antônio, Maria Flor e Zé Potoca escutam umas canções na “Rádio Rural” quando, para o lado de cima do rio, zumbe um motor, arranhando o silêncio da noite como um desses grandes besouros cascudos. Porque barcos de todas as espécies cruzam constantemente a região, os ribeirinhos, habituados à velha rotina, pouco interesse demonstram ao vê-los subindo ou descendo o rio. Mas logo, dentre as trevas das vinte horas, os três percebem que a embarcação reduz a marcha e vai atracar. Antes dos outros, Presidente identifica o bote: – É o motor do Dedé Pajurá, teu cunhado – diz à esposa.

Alguém de bordo grita, saudando: – Ei, gente boa!...

– Que foi? Arguma dificurdade por lá? – responde, perguntando, Maria Flor, algo sobressaltada, porque sua irmã Conceição está em fim de gravidez e seus partos sempre dão encrenca.

– O seu Dedé mandou nós vim buscar a senhora, pois a Dona Conceição já tá querendo parir – comunica um caboclo muito forte, enquanto passa a corda do barco numa viga do alpendre.

– É, a esmola foi muito grande pru santo não desconfiar. Eu bem que tava achando esse dia de huje bom demais pra pobre. Havera de aparecer uma consumição pra desinquietar a gente. Vute!

Antônio hesita se vai ou não, mas a mulher, já se arrumando, decide: – Não. É mais melhor tu ficar. Eu não sei que hora eu vorto de vorta e os parto da mana são cheio de bestera. Deixa que eu vu com o Mundico e o Lili, meu sobrinho. A nuite tá bunita e se for perciso eles venham te buscar.

E viajam logo depois. Necessitam de uma hora para encostar na cobertura da casa, metade no fundo. Afinal, a “Fazenda Apuizeiro” não pode merecer o privilégio: soçobrou também, como todas as outras da várzea encharcada. Varando, penosamente, o buraco aberto no telhado, que agora funciona como porta, Maria Flor encontra, de cachimbão na boca, Dona Chica Aparadeira – a venerada obstetra daquele mundão liqüefeito. A mulata é danada de competente no ofício: até hoje só morreram oitenta e poucas crianças, além de trinta e sete gestantes, em todos os partos – mais de trezentos! – que ela já fez.

– Boa noite, Dona Chica! – saúda a recém-chegada.

– Boa noite, Mariinha! – responde carinhosamente, a robusta e grisalha cabocla. – Como é que o puvo de lá tão?

– Ei, Maria Flor! – interrompe o cunhado Dedé. – Eu mandei te buscar porque a Conceição queria tu aqui na ilharga dela.

Ao débil e tremeluzente clarão de uma fumacenta lamparina, que torna ainda menos acolhedor o atravancado ambiente, a única irmã da gestante encaminha-se para a rede, onde, com as mãos sobre o enorme ventre, geme a franzina e simpática senhora. Acariciando-lhe o rosto, pergunta, com voz doce: – Como tu tá, maninha? Tem coragem e muita fé em Nossa Senhora, que o teu parto vai ser muito legar! – Coragem eu tenho, mana, e fé também. O diabo é que essa dor disconforme, que acaba com o cristão – explica a parturiente, arquejante e apontando o abdomem.

Navegando, com o pesado corpanzil, através dos obstáculos – redes e cacarecos – espalhados com desordem pelo abafadiço recinto, a parteira, após fazer ligeiro exame, recomenda, segurando o malcheiroso cachimbo: – Eu acho mais melhor tu te alevantar, menina, e dar umas vorta pela sala, que é pro curumim poder arriar. A borsa das água já tá pra furar. Não demora muito pra tu te livrar dessa consumição.

Com grande dificuldade, auxiliada pela irmã, Conceição senta-se na rede. Entretanto, ao fazer esforço para ficar de pé, exclama: – Meu Jesus! Dona Chica! Eu me molhei toda!

Acaba de romper-se a bolsa amniótica, obrigando a “doutora” a trabalhar com a rapidez que lhe permite a obesidade. E dá algumas ordens, enquanto enxuga a mulher que se prostrou novamente, ofegando e repetindo “Ai! Ai! Ai!” – Dedé, ajeita as tauba e bota um candeeiro bem aqui.

Maria Flor recebe outra incumbência: – Pega a faca da cuzinha pra torar o imbigo.

A pequena “mesa obstétrica” não passa de uma espécie de jirau formado por dua tábuas largas, apoiadas sobre tamboretes, como se costuma fazer para colocar caixão de defunto. É aí que, a gemer alto e sob as vistas das assustadas crianças que despertaram com a movimentação, se coloca a parturiente. Quando ela se arruma como pode em cima do leito improvisado, a parteira chega a lamparina bem perto e anuncia, soltando uma baforada:

– Oba! Já tá coruando! Esse curninho não vai dar as dificurdade dos outro.

Sob o martírio das violentas contrações que expulsam o bebê do útero, como se fosse um intruso que passou nove meses sem pagar hospedagem, a gestante, apertando desesperadamente as mãos da irmã, traduz apenas em uivos soturnos, que procura abafar com um pano na boca, a terrível dor que lhe rasga as entranhas: – Uuuummm!... Uuuummm!...

Sentada num banco ante a mulher em posição ginecológica, a aparadeira “chama” a criança, movimentando rapidamente o dedo indicador na direção de seu próprio peito: – Anda, bichinho! Vumbora, muleque! Furça, que tu sai logo dessa porquera! Mais uma coisinha! Tá quase...

Esfregando as mãos na comprida saia suja para limpá-las um pouco, a pitoresca mulata agarra a cabeça, que já aparece bem, e puxa, com força, o corpinho que vem deslizando sem problemas. Afinal, dando duas boas palmadas na silenciosa criaturinha, proclama, triunfante, ao ouvir o berreiro inaugural: – Eita, gente bua! Taqui o curumim! É um baita macho e já nasceu mijando!... – Dedé, me dá logo uma dose de cana pra gente começar o festejo.

Maria Flor, mesmo tendo passado seis vezes por essa horrível experiência, está abalada e desabafa, com alívio: – Graças à Mãezinha do Céu eu fui capada e não posso mais parir! Tisconjuro! É uma judiação que nem égua agüenta! Vute!

– Qual o que, minha filha! – atalha Chica Aparadeira. – Larga desses dengo de muleca criada com vó. Tu sabe que isso aí é uma dor esquecida. Quem pariu huje, amanhã já quer fazer filho de nuvo, porque nem se alembra mais do que sofreu.

Agora, segurando o ainda palpitante cordão umbilical, pede à Maria: – Me dá aqui essa faca.

Com um só golpe do afiado instrumento, corta a ponte que ligava os organismos da mãe e do filho. Depois, apaga o cachimbo, deixa esfriar um pouco e coloca sobre a ferida o sarro nele contido. É um dos curativos umbilicais comuns na várzea, aliado ao pó de café, teia de aranha e outras imundícies.

Entregando à tia o recém-nascido, a parteira examina o útero quieto de Conceição e previne: – Se esse cuirão não deixar de preguiça, eu tiro a pelica dele a purso.

Decidida, passa a fazer enérgicas massagens sobre o ventre da mulher, esfregando nele as mãos gordas, de cima para baixo. Aos poucos, reiniciam-se as contrações e a placenta é expelida, sem que se concretize a assustadora ameaça de removê-la a pulso...

Ultimado o parto, transfere-se novamente a aliviada senhora para a rede, enquanto a obstetra se esparrama, cansada, numa cadeira.

– Taqui, Dona Chica, um bocó muquiado pra tirar o gusto da cachaça com limão – diz Dedé, apresentando-lhe o peixe num prato, farinha e um caneco cheio do forte aperitivo.

A caboclona faz a sua farra solitária, pois o dono da casa não tolera bebida alcoólica. É mais de meia-noite e o bebê dorme serenamente, cercado pelos quatro maninhos que o examinam, curiosos e enternecidos. Pela primeira vez, em cinco partos, Conceição escapou das hemorragias que quase a mataram em outras ocasiões.

Todavia, dentro de uma semana, desgraçadamente, sobreveio a compensação da sorte grande: com febre alta, convulsões e rigidez muscular, o anjinho... morreu!

Entre duas cachimbadas, ensina Dona Chica Aparadeira: – O curumi pegou o mar dos sete dia. Foi gorpe de ar.

O recém-nascido contraiu tétano umbilical. Foi sarro de cachimbo – contestariam os médicos da cidade.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Maromba - de Emir Bemerguy - Capítulo 17


– A BOIÚNA –
À sombra de uma vasta mangueira, a roda acaba de organizar-se, com oito componentes. Engolindo o derradeiro pedaço de lambuzante pé-de-moleque e limpando a mão melada na velha calça de mescla, Mingote Pica-pau, um caboclo atarracado e meio bicudo, inicia narrativa da aventura que alega ter vivido: um encontro com a formidável “Cobra Grande” ou “Boiúna”, mito que povoa e aterroriza tantas insônias amazônicas. Pigarreia e começa:

– Nós vinha, eu mais o Raimundo Cuiteua, no batelão “Tira teima”, cheinho de canarana e premembeca. Como vocês sabe, o capim tá cada vez mais escasso e a gente se atrasemo na viagem. O Sol já ia mergulhando ali pras banda do Roçado Alegre e nós atravessava aquela travessia do Marimarituba, com a vela marmente se tufando. O vento tinha quebrado muito e nós andava devagar.

Escarra, dá uma baita cusparada e vai adiante:

– Eu tava comendo na pá do remo umas fagulha de carauaçu muquiado. Aí o companheiro me cutucou e só fez amostrar com o dedo, mais branco que arma penada. Eu virei a cara pra ilharga e o coração velho quis sartar pela buca cheia de peixe e farinha: os faror da bichona faiscava na buca da nuite, como duas disconforme lanterna de carbureto!

– Vute! Então a coisa tava mesmo preta, Mingote! – comenta Catinga-de-mulata. Eu só quero ver como vocês se desembrulharam da desinquietação.

– Mais depressa que relampo, nós sentemo a mão no remo e toquemo pra beira! – continua o varzeiro.

– E a Boiúna tava muito longe? Indaga Antônio Presidente.

– Que nada, seu menino! Tava daqui praquela guiabeira! Nós só tinha começado a travessia e a valença foi essa, porque se a gente já tivesse mais pro meio do rio, eu não tava aqui contando esse causo.

– Égua! Eu me arrupeio tudinho! – confessa Zé Potoca.

– Mas espera aí, sacana, que tu inda não viu nada! Promete o empolgado narrador. – Nós puxemos o batelão até onde nós pôde e se enfinquemo no mato! Fiquemo ali trepado num galho de marizeiro, moroçoca como o diabo, mas a gente nem sentia as porquera, porque o medo era disconforme. Nessas hora não tem macho bom.

– Chega, nesse momento, João Bucheiro, com uma garrafa de cachaça. Mingote interrompe a história e pede: Me dá aí um trago dessa mardita! Deixa eu molhar o gogó pra acabar de contar.

Sorve uns goles no gargalo, enxuga a boca no ombro e retoma a palavra:

– O animarzão veio tomando chegada e fazia umas onda tão arta que jogaram o “Tira teima” lá em terra, como se fusse um barquinho mixuruca. A peste bufava como quinhentus buto junto e os zóio dela deixava dois clarão dentro d’água, iguarzinho como a Lua faz quando foca lá de cima.

Enxuga o suor da testa e revela: – Só de me alembrar, inda me dá tremedera, e toda essa varja velha sabe que eu nunca fui fruxo. Nem de visage eu não curro. Mas a gente pensar que pode ser engulido vivinho...Credo!

– Eu tô nessa idade e nunca, até o dia de huje, achei macho pra Cobra Grande – interrompe, solidário, Antão Aquiqui.

Mas Pica-pau ainda tem o que contar:

– A Lua tinha saído e nós enxergava direitinho as marmota da eguona da cobra. Quando ela mergulhava, fazia um funir iguarzinho de terra caída, num espumaceiro dos diabo! Mas o que nós achamo mais pior mesmo, de parar o coração, foi os esturro da mardita Boiúna dos inferno. Ela dava, de vez em quando, uns ronco tão medonho que o Cuiteua me disse, baixinho: – Mingote, se sangue é fedurento, eu tô muito ferido.

A turma, tensa, nem sequer consegue rir da pilhéria e o herói do Marimarituba explica:

– Coitado do parceiro! Inda mais fruxo do que eu pra essas arrumação que derruba quarquer caboco, ele não agüentou o tamanho do susto e sujou tudinho o carção. Pensava que era sangue...

– E como é que acabou o causo? – interrompe Zé Potoca, impaciente para contar a sua experiência.

– Bom. Nós fiquemo ali tremendo e rezando no tuco do pau e a desgraçada fincando o pé: mergulhava e buiava... Parecia que ela queria brincar de assombrar nós e não tinha pressa de ir de vorta pra casa. Passou umas três hora naquela sem-vergonhice, até que arresorveu ir passear. Com o fugo da Lua foi que nós vimo o monstro tudinho brilhando, de pupa à prua.

– Deu pra carcular o tamanho dela? – indaga Paulo Cascudo.

– Menino, o bichão foi saindo pra fora, como navio do Lóide que desatraca do porto da cidade. Deu um bordo e tomou o rumo do meio do rio. Pra ninguém dizer que eu tô mentindo, eu dou o tamanho da Boiúna por baixo: era uma cobra aí pruns trinta metro! Por Deus do Céu e Nossa Senhora!

– E vocês fizeram logo dispôs a travessia? – pergunta Antão.

– Que nada, mano! – replica o outro. – Nós fiquemo no marizeiro matando moroçoca e sofrendo frio até o dia butar a venta de fora. Aí nós atravessemo a travessia, ulhando pra tudo lado. Vute! Deve tá pra aparecer outra notícia de que a diabona butou outros cabuco pra correr por aí.

Sem respeitar o supersticioso silêncio que emudeceu o grupo, Zé Potoca abre logo o bico grosso. Embalado por alguns aperitivos, está tinindo de eloquência:

– Dizque eu sou potoqueiro. Mas dessa vez tá aqui na minha ilharga o meu padrinho, que tem mais raiva de mentira do que de trairambóia. Eu e ele vimo esse causo de pertinho.

– Mas, então, conta direito! – adverte, sério, Antônio. Não vai enfeitar o periquito.

– Não se avexe, meu padrinho – pede o crioulo. – Nas hora das coisa séria esse nego aqui não brinca, não.

E começa:

– Nós tava fazendo um puxirum, lá no Paraná de Baixo, na fazenda do seu Vivico Maracanã. Faz uns seis ano.

Atira um punhado de paçoca na bocarra, engole rapidamente e prossegue:

– Nós era uns vinte macho e fazia broca pra uma baita prantação de maniva. Pudia ser umas nove hora da manhã quando a gente ouvimo o primeiro ronco. Foi um negócio feio: “Uuuuuuú!”... Como não tinha barranco no lugar, não dava pra nós mardar que aquilo era terra caída. Os caboco todo, descunfiado, pararam de derrubar o pau e arrumar cuivara.

– O Vivico era mais ruim que mamona em jejum – lembra Antônio. Ruim e pão duro. Quando ele dava uma cibalena prum curumim, ele amarrava uma linha de costura na píula. Assim que passava a dur do dente, o miserave puxava o fio e guardava o remédio pra utra vez...

– A caipirada ri e o preto retoma a narrativa:

– É. O bandidão era tão suvino que a gente só trabalhava se ele pagasse tudo adiantado. Quando ele já vinha dar bronca em nós porque nós tava parado, ouvimo outro esturro, mais perto e mais feio:

“Uuuuuuú!”...

O negro abre inteiramente a boca, amarra a cara e arregala os olhos graúdos, tentando uma cômica imitação do aterrador e soturno rugido. Depois, readquire embalagem:

– Foi aí que o seu Vivico sentiu que aquela peste era mesmo a tar de Cobra Grande atravessando o mato. Disse pra gente largar depressa as foice e os machado, pra pegar os pau-de-fugo que ele guardava no barracão da farinhada. Nós fumo lá e arrumemo quatro cartuchera, dois rifle 22 e muita munição. Meu padrinho puxou logo o revorvi dele, um baita dum 38 que ele comprou dum gringo.

– Agora que se arrupeia su eu – confessa Catinga-de-mulata. Eu sempre tive medo pai-d’égua de Boiúna.

Prestigiado pelo aparte, Potoca vai adiante, entusiasmando-se a cada frase:

– Quando nós escutemo o terceiro esturro, a bichona já vinha saindo do matagar, pois ela tava querendo passar dum lago pru rio. E era aquele escangalho de pau quebrando e bicho correndo pra tudo canto!

Emocionado à simples lembrança do assombroso episódio e vendo que o rapaz não exagera ao relatá-lo, apesar das biritas ingeridas, Presidente mete-se na conversa:

– Eu nunca mais quero ver coisa iguar nessa minha vida, seus menino! Foi um tiroteio medonho, com bala e cartucho pipocando pra tudo lado! Os caboco armado era bom de pontaria e acertaram logo na baita cabeça do monstro.

Mesmo tendo respeitado a intervenção sem licença, Potoca não suporta mais a agonia de ficar em silêncio e acrescenta:

– O diabão dava cada besta pinote que botou um jauarizeiro embaixo e urrava como tudos os cão junto!

– Quando a gente vimo que ela tava quase morta – arremata Antônio – os cabra mas macho chegaram perto dela e retalharam a peste com machado e facão. Era uma bichona de trinta e quatro metro bem medido, da grossura de um camburão de carbureto. As presa deu três parmo de tamanho!

– E quando acabou a confusão, nós demo com um caboco estendido no chão – recorda-se Zé. Corremo pra lá e vimo que era o Quixito Coroca, mortinho da sirva! O fruxo morreu de medo, botando o esprito pela bunda, porque tava cheinho de bosta! No outro dia um vaqueiro achu no mato um cocô seco da Boiúna: era da grossura duma panela de cozinhar peixe! Também uma cobrona daquela tinha que ser disconforme em tudo, até na bosta. Olha lá!

O caboclo faz a circunferência das fezes com as mãos, quando o padrinho resolve corrigi-lo, sorrindo: – Tu não havera de esquecer ao menos uma potoca, Zé. A merda do bicho era assim como uma lata de leite em pó, dessa que a gente compramo na cidade.

– Só, meu padrinho?!

– E tu inda acha puco, pira! – rebate o pecuarista, entre as gargalhadas da turma.

– É, eu soube desse causo e... – começa a dizer João Bucheiro, mas é interrompido por uma senhora que chega com quatro meninos. Trata-se de Maria Flor, que convida: – Vumbora, Antônio? Já é mais de meio-dia. Vamo comer a merenda que nós trouxemo, pra não chegar muito tarde lá em casa.

– Levantando-se Presidente, a espanar as calças com as mãos, a roda logo se desfaz: – Até outra vez! – vão dizendo os matutos uns aos outros.

Depois de almoçarem e fazerem uma visita à sepultura de Toninho, os peregrinos reembarcam no “Flô das onda II”. Escurece quando amarram o bote no beiral da residência, na “Fazenda Apuizeiro”, descansados e num estado de espírito traduzido por Maria: – Um dia alegre e feliz como esse paga tudas as desinquietação daqui da varja. Obrigado, Mãezinha do Céu!

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Maromba - de Emir Bemerguy - Capítulo 16


– O PADRE E O CATEQUISTA –
No jantar, os deliciosos quitutes do gordo peixe-boi ajustaram-se a todos os paladares, pois Maria Flor é cozinheira muito competente. A refeição está quase terminando e, após limpar os lábios com a mão, ela participa a novidade: – O Frei Arnardo teve aqui huje. Chegu na vuadeira dele e veio convidar nós pra Missa, dumingo que vem, lá na capela do Paricatuba. Fazia três mês que ele não podia viajar pra cá, porque anda muito avexado com a enchente.

Lutando para engolir uma reforçada porção de alimento, Antônio toma uns goles de água e concorda: – Tá bom. Nós vamo arrumar um jeito de ir. A gente tá rezando pouco. Só essa ladainha de Nossa Senhora e uns quatro curto dominicar por ano não dá, não.

Maria sempre foi mais piedosa – ou menos relaxada – que o ignorante esposo. Animando-se com sua imediata adesão, ela acrescenta sábios argumentos: – É isso aí. O cristão percisa mesmo ter mais hora de reza do que urubu tem de vôo. Já faz uns uito mês que a gente não sabemo o que é Missa e eu nem me alembro quando nós teve no úrtimo curto dominicar. Vute!

Tosse, expelindo um transviado caroço de farinha e encerra o pequeno sermão: – É por isso que tanta consumição tem pressiguido nós. Se a gente véve de bunda virada pra Deus, Ele também fica de costas pros caboco. – Eu faço minhas reza tuda noite – assegura Zé Potoca, enquanto limpa os dentes com a ponta do garfo. Duvido que esse preto durma sem fazer na testa o sinar da cruz. Portege a gente do cão, de arma penada e de mau ulhado!

– Bem – interfere novamente o dono da casa. Farta nós acertar o jeito de subir lá pro Paricatuba. Que parpite tu dá, Zé?

Antes, porém, que o pensativo afilhado sugira uma alternativa qualquer, Maria Flor propõe: – O seu Romuardo Bicudo, lá do Garapé do Matupiri, tem quatro filho homem. Se nós mandar um recado pra ele, nós arruma dois pra trabalhar dumingo no corte do capim. A gente pagamo eles com peixe-bui sargado e duas garrafa de cachaça, eu sei que eles aceita. São protestante, não querem saber de Missa nem de padre. Mas a religião deles deixa beber cana.

–Mas a senhora é danada mesmo, minha madrinha! – exclama, encantado, o negro Zé Potoca. Eu tava maginando outras bestera, mas nunca ia mardar uma coisa dessa.

Concluindo as confabulações, o patrão elabora o esquema para que se ponha em prática a idéia da engenhosa esposa. Hoje é sexta-feira. Quando voltarem, no sábado, da colheita da forragem, passarão pela fazenda de Romualdo Bicudo.

Não surgem obstáculos. O vizinho (a três quilômetros de distância...) logo se prontifica a ceder os robustos rapazes e também uma filha para vigiar a residência dos amigos. Só não aceita a cachaça, porque mudaram de seita: agora são Testemunhas de Jeová e “os meninos não tenham quarquer viço, além de mulher”. Em lugar da aguardente, Antônio lhes fornecerá um pouco de querosene.

É assim que, às sete da manhã do ensolarado e bendito domingo, o último de maio, a família toda, inclusive o cachorro “Desacato”, sobe o Amazonas no “Flô das onda II”, em direção ao Paricatuba. Um alegre vento geral balança mansamente o barco, pondo risonhos contentamentos nesses corações com várias feridas em início de cicatrização. Ao menos durante um dia, eles estarão livres da desgastante briga com o rio.

Já se concentram umas cem pessoas no grande barracão que funciona como capela de toda a redondeza. Frei Arnaldo Smith, o sacerdote estadunidense, e o catequista Miracildo Coelho serão as estrelas da liturgia. O padre ouve confissões e o caboclo arruma com esmero a mesa onde se há de celebrar a Missa.

Ficando um pouco para trás, Antônio Presidente diz à Zé Potoca, apontando com um bico formado pelos lábios: – Vigia só quem vai ali...

– Eu já vi aquela vaca, meu padrinho – responde, sério, o rapaz.

Trata-se de Mundinha, filha de Mário Catinga-de-mulata, ex-quase-futura noiva do bom crioulo. Dengosa, derreia-se no braço de um matuto com cara de porco-espinho e calça arregaçada de um lado...

Entram no templo. Como já são mais de nove horas, a Eucaristia começará com atraso, pois na fila do improvisado confessionário – uma cadeira anexada a um caixote, que é o genuflexório – esperam diversas pessoas. Para prender as atenções da caboclada inquieta, o catequista passa a ensaiar alguns hinos, puxando os cânticos com uma voz de taboca rachada, porém de irrepreensível afinação.

É impressionante a participação dessa maltratada gente: quase todos, a plenos pulmões, louvam a Deus e à Virgem Maria através das letras singelas e expressivas, adaptadas à sua mentalidade. Isto, no entanto, tem uma explicação: a diocese de Santarém concentra uma das mais notáveis obras catequéticas do mundo católico. Cerca de três mil homens e mulheres, cuidadosamente preparados em cursos regulares, na cidade, substituem os poucos sacerdotes disponíveis, dirigindo o chamado “Culto dominical” de todas as semanas. É uma liturgia em que praticamente só falta a consagração das hóstias. Como a maioria dos varzeiros participa assiduamente dessa assembléias comunitárias, os ribeirinhos sabem de cor as piedosas canções.

Pouco antes das dez horas o padre inicia, finalmente, a celebração. Embora esteja na Amazônia há uma década, o franciscano originário do Texas maneja precariamente o idioma brasileiro. Mas sempre se faz entender pelos simplórios ouvintes das comunidades interioranas que visita, em intermináveis e penosos rodízios apostólicos.

Após a leitura do milagre da multiplicação dos pães, o sacerdote profere uma homilia alusiva às agruras da grande enchente. Diz, em certo instante de entusiasmo: – A cheia é ruim, meus queridos irmãos, não pela vontade de Deus, mas por causa da má vontade dos homens. Se os graúdos quisessem, se fossem eles que sofressem aqui como vocês, logo endireitariam esse rio, dando um jeito de corrigir o seu curso. Vocês teriam mais assistência e esses promesseiros não iriam aparecer na várzea só em véspera de eleições ou quando as desgraças são maiores, como agora, para depois dizerem no rádio e no jornal, que são os salvadores da pátria.

Lá no fundo, uma irreverente intervenção é ouvida por todos: – Tome cuidado, seu padre! O senhô é gringo e cumeça aí a fazer cumício contra o gumverno. Os sordado da polícia acaba encanando o senhô..

Estabelecendo-se um princípio de revoltada algazarra na platéia, Miracildo, o catequista, brada, com voz firme: – Respeita a Casa de Deus, seu bêbado!

Contudo, uns quatro fiéis já vão levando para fora o atrevido aparteante. Trata-se de Bené Gambira, lá do Atumã. Tomou umas antes da Missa e, metido a comunistóide, resolveu ameaçar o franciscano em pleno sermão. Até ao fim do ato litúrgico não ocorre mais nenhum incidente.

Encerrada a celebração, o povo espalha-se pelo imenso terreiro, onde se amontoam bancas de venda de café com bolos, mingaus e “rala-rala”, com gelo trazido na véspera da cidade, e conservado em caixotes com serragem de madeira. Até moleques com tabuleiros de pirulito e paçoca trançam pelo meio dos grupos que já se formam. Aos gritos, eles tentam vender os pobres atrativos.

Não só os meninos, mas, sobretudo, os castigados adultos sempre consideram essas raras e gostosas interrupções de uma rotina aniquiladora, um ameno deleite, que precisa ser devidamente saboreado. E se reúnem a rir, a conversar, comentando a inundação, dividindo esperanças, fazendo as tristezas ficarem menores ao reparti-las em fatias distribuídas entre os irmãos de calvário.

– O Divino Esprito Santo esse ano caiu muito tarde no calendaro – ensina Mário Catinga-de-mulata. É por isso que a gente tamo com essa água disconforme. Mas ontem eu arreparei, não sei se vocês viram: a Lua tava virada pra banda da cidade. É sinar seguro de vazante.

Assentindo com a cabeça, Mingote Pica-pau torce ligeiramente o assunto, embora permanecendo na mesma linha... fluvial: – Transantontem eu e o Raimundo Cuiteua corremo da bichona. – Conta, conta como foi! – pede Zé Potoca, sempre doido por um “causo”. Conta, que dispôs eu sorto a minha.

– Conta, conta, Mingote! – insistem todos, ajeitando-se confortavelmente no chão varrido.

Vão sair as últimas da cobra grande...

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Maromba - de Emir Bemerguy - Capítulo 15


– O PEIXE-BOI  –
É sempre assim. Quando um perigo – seja bicho feroz, fogo, doença ou bala – nos amedronta e fere a alma, fica, durante algum tempo ou definitivamente, dependendo da coragem com que cada qual enfrenta a vida, fica um um complexo, um medo no pensamento e no coração torturado. Teme-se que a dose brutal de lágrimas se repita, pois dizem que as desgraças costumam chegar aos pares.

Na “Fazenda Apuizeiro”, após o enterro de Toninho, a relativa serenidade interior das pessoas andou muito abalada com a “neurose da cobra”. Receava-se que o par da sucuriju assassina estivesse a rondar por perto, em busca da companheira ou de alimento. Daí as cautelas, as advertências, os sustos ante qualquer coisa que parecesses com a infernal serpente. No entanto, ao correrem os dias com sua carga massacrante de tarefas e preocupações de outra espécie, a psicose foi diminuindo até que se extinguiu.

Zé Potoca vai descendo para desamarrar o batelão do capim. Ainda está escuro, pois são apenas quatro horas da madrugada. Ao conseguir entrar no barco, ele tem de conter uma espantada e alegre exclamação, que sai em voz baixa de seus lábios grossos: – Oba!... Muito pai-d’égua!... Hoje a gente não vamo dar murro no varejão!

Eis a razão da repentina euforia que lhe enche a alma de luz, antes mesmo de brilhar o clarão da aurora: acaba de enxergar, ali pertinho, um imenso matupá – ilhota de canarana e outros vegetais comestíveis – que encalhou na margem com a ventania da noite. Retida pela maromba, aí está ela, numa imprevista colher de chá atirada pela Mãezinha do Céu. Subindo no estrado, o vaqueiro examina bem a avantajada bolota de pasto e conclui, satisfeito, que os bois terão alimento para quase três dias, desde que se divida o presentão com engenho e arte. Antônio Presidente aparece, já pronto para viajar, e é recebido com espalhafato: – Eita, meu padrinho! Muito pai-d’égua! A gente hoje tamo por cima! Venha ver essa bacanagem: tem capim que nem ladrão acaba!

Presidente olha a forragem que chegou, de bubuia, na correnteza do Amazonas, e diz, algo preocupado: – Graças a Deus. Mas eu vou já chamar a Maria e os dois curumim maior pra ajudar nós. A gente tem que se avexar porque o rio tá correndo como o diabo gosta e essa porqueira fica aí forcejando em cima da maromba. Vumbora se virar, caboco!

Tão intensa é a atividade conjunta da família que, às sete da manhã, todo o capim foi retirado da ilhota. Potoca ainda teve que matar uma surucucu-pico-de-jaca. Por um triz ela não lhe acertou a picada, fatal se não houver socorro imediato. Depois de concluído o serviço, num violento esforço final, a turma desprende dos esteios da maromba a massa careca. Muito lentamente, lá se vai o bagaço, à deriva, no rumo de baixo...

Terminada a labuta não programada, o dono da fazenda lembra-se de uma notícia que lhe haviam dado e propõe ao companheiro: – Zé, o Totó Pica-pau me disse que anda boiando uns peixe-boi lá naquela restinga do Sovaco da Velha. Nós tamo meio forgado hoje. Vamo ver se a gente estragamo um corno desse? – Vumbora, meu padrinho! – aquiesce, entusiasmado, o leal caboclo. Já faz bem uns três ano que nós não matamo um peixe-boi.

Maria Flor intervém, complascente: – Vão mesmo se divertir um bucadinho. Vocês tenham sufrido mais do que cangote de estivador. A Mãezinha do Céu havera de abençoar essa pescaria, pois huje a santinha acurdô inda mais camarada. Mandou o rio despejar até capim na nossa porta. – Papai, deixe eu ir com o senhô! – pede Raimundinho, que, agora é o mais velho.

– Não, meu filho. Tu tem que ajudar tua mãe – responde-lhe o pai, arrumando coisas para a viagem.

– Que nada, Antônio! Leva o menino. Deixa que eu me ajeito com os outros – sentencia a esposa, com autoridade.

– Pois vumbora, moleque! – concorda Presidente. Mas o peixe é velhaco que nem rato. Se tu atrapalhar nós, eu te meto peia. Veste uma camisa, põe o chapéu e vumbora.

Sai o barco “Flô das onda II”, que deverá navegar durante hora e meia para que se chegue ao local pretendido. Olhando a desolação da paisagem que vai surgindo ao longo do caminho, com as casas quase totalmente no fundo, o crioulo fala alto, para superar o ruído da máquina: – Meu padrinho! – Que é?! – Quando nós parar eu quero lhe dizer uma coisa! – limita-se a prevenir Zé Potoca, que de vez em quando tem uns rompantes idiotas.

Chegando o bote às proximidades do lugar procurado, o fazendeiro desliga o motor. Eles devem prosseguir, agora, a varejão, tanto por motivo do capinzal espesso, como para não afugentar os ariscos peixes que desejam arpoar. Cessada a barulheira da máquina, pergunta Presidente: – Que diabo então tu quer comigo, rapaz? – Não é nada, não, padrinho. Eu ouvi dizer que quando a água tufa muito aqui na varja, ela seca num tar de Ceará e outros país. Então eu fico mardando assim: puxa vida, Deus até que faz as coisa bem pai-d’’egua!

Pega a cuia do porão e vai movimentando a vasilha conforme as palavras que pronuncia: – A terra é paresque uma baita cuia, uma cuiona do tamanho do céu. Então, quando Deus entorta ela pra este lado, enche aqui e fica seco lá. Se Ele emborca ela ao contrário, enche no Brasir e vaza aqui. Não é? – Sei lá, homem! – retruca Antônio, fazendo força na vara. Tu sai com cada arrumação insquisita! Eu nunca estudei essa tar de Ingronomia pra conhecer essas porquera direito. Mas vamo calar logo a buca, senão a gente não pegamo nem baiacu! – encerra, ríspido, o padrinho, que nunca teve grande paciência nesses momentos de original loquacidade do benquisto xerimbabo.

Antes de iniciar a tocaia, Presidente instrui muito bem o filho calouro: o peixe-boi tem o ouvido altamente sensível e, por isso, qualquer barulhinho, quando ele vem à tona, espanta o animal. Nem fósforo risca-se na canoa.

Agasalhados num esconderijo que lhes parece bom, todos ficam quietos e silenciosos. O esposo de Maria Flor segura o arpão firmemente preso a uma longa vara de pau-d’arco, ligada a um resistente cordel plástico de cem metros de comprimento.

Não transcorreu ainda meia hora de espera, quando o que eles chamam de “bezerro” – o filhotão do peixe-boi – emerge, perto. Com a máxima cautela, Presidente ergue o braço para lançar o ferro, mas nesse crucial instante o impossível acontece: – Atchim!... – espirra, com estardalhaço, Raimundinho!

– Seu cachurro do cão! – explode, furioso, o pai, aplicando-lhe dois cascudos. Tu fez o peixe fugir, moleque sem-vergonha! Mardita hora em que eu arresorvi trazer essa peste! Vá ser panema assim na baixa da égua! Vute!

– Eu não agüentei mais, papai! – explica, a chorar, o desastrado menino. Já fazia um bocado que meu nariz tava coçando. – Cala já essa buca suja, curumim perebento, senão eu te bando a cabeça com essa vara!

Ficam quietos, de novo. Em períodos mais ou menos regulares, o estranho peixe sobe para respirar e comer o capim da superfície. Todavia, se toma um susto, pode ir embora e não voltar mais, indo reaparecer num local muito distante.

A paciente vigília já se prolonga por duas horas, quando, sem dizer nada, Antônio leva o dedo indicador aos lábios, num gesto em que exige completa imobilidade. Algumas bolhas espumantes anunciam a presença iminente da cobiçada embiara. Primeiro, surge um focinho avermelhado e, depois, uma parte do cinzento dorso. De pé, o caboclo solta vigorosamente o arpão que penetra, fundo, no lombo do animal. Agora, podem falar e espirrar à vontade, porque a bóia está segura...

No desespero da dor, o bichão dispara pelo capinzal, arrastando consigo todo o peso do barco e de seus três ocupantes. Firme, no banco da proa, o experiente pescador segura a corda. Não sendo muito grande, logo o fujão há de se deter, extenuado.

Cinco minutos depois, emaranhando-se numa galharia do igapó, o peixe pára, exausto, mas ainda sacudindo raivosamente o rabo em forma de pá. Com todo o cuidado, Antônio enfia uma cunha de madeira roliça numa das narinas do boi aquático, fazendo-o agitar-se com ligeira e ainda perigosa violência. Tenta, inclusive, arrancar o tarugo que lhe meteram na venta, acionando a insólita nadadeira lateral que possui na parte anterior do ventre. Entretanto, ao receber o segundo rolo na outra narina, ele é convulsionado pelos derradeiros espasmos agônicos e... está morto. Agora, bóia, de barriga para cima.

É com muito trabalho que a trinca de varzeiros consegue embarcar a grotesca figura biológica, apesar de serem relativamente modestas as suas dimensões: deve pesar uns cento e vinte quilos, quando até de duzentos ou mais se pode apanhá-los. Trata-se de um peixe com hábitos singulares, desde que vive na água, alimenta-se de capim e “fisionomicamente” faz lembrar um boi. Apresenta cinco dedos sob o couro de duas patas-nadadeiras e, com o corpo redondo, aerodinâmico, dá a impressão de uma descomunal e acinzentada melancia.

O Sol já vai assinalando quatro horas da tarde no momento em que o “Flô das onda II” zarpa de volta à fazenda. A bóia anda tão escassa em toda a várzea que, durante dias seguidos, só conseguem os caboclos enganar o estômago com os mandis e piranhas fisgados pelos meninos, que jogam o anzol da varanda ou da cozinha. O grosso dos cardumes está embrenhado nos igapós, engordando para as piracaias do verão. Alegre com o êxito da pescaria, Presidente grita, rindo, para Raimundinho, o autor da inédita façanha espirratória: – Mas tu é um bestão mesmo, meu filho! Então quando eu ia arpoando o bichão, tu sortou um disconforme dum espirro que butô até arma penada pra correr? – Gargalha, sacudindo-se, e acrescenta: – É muita uruca prum curumim desse tamanho! Tua mãe percisa rezar pra ver se tu fica menos panema. Vute!

E os três riem muito, acariciando, vez por outra, o falecido e imenso peixe-boi...

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Maromba - de Emir Bemerguy - Capítulo 14


– A SUCURIJU –
A tarde já vai mostrando os sintomas iniciais do mal galopante que, dentro de uma hora, por entre desmaios e rubores, há de levá-la ao suspiro derradeiro. Maria Flor esfrega umas roupas das crianças nos degraus da escadinha dos fundos, quando um dos meninos grita: – Mamãe, a sucuriju pegou o patarrão! ...

A mulher corre, mas Antônio, que regressa da maromba onde estava cuidando das reses, dá vigorosas remadas na montaria e parte no rumo indicado pelo garoto, que disse ter visto a cobra fugir para as bandas do aningal próximo. Como, porém, o local já está parcialmente no fundo e é muito feio, o caboclo, depois de navegar um pedaço, reconhece que não adianta perseguir agora a temida serpente. Preocupado, pergunta ao filho: – Tu viu ela? De que tamanho era? – Eu não vi bem o tamanho. Mas paresque era grandona e assim da grossura de uma lata de leite “Ninho”.

Quieto, no pontalete da canoa, o varzeiro calcula que, se é correta a informação do guri, deve ser uma cobra para uns três ou quatro metros, no mínimo. É um desassossego a mais, neste fim de mundo, saber-se que passeia pelo quintal alagado uma traiçoeira e aterrorizante sucuri, a fera que mata se enroscando com tremenda força no corpo da embiara que lhe cai no bote – seja pato, boi ou gente.

Quarenta e oito horas mais tarde, o ramerrão de outro dia insuportavelmente igual aos anteriores e vindouros está quase encerrando. Terminou-se de inspecionar as quatro dezenas de animais restantes e foi preciso jogar, lá no meio do rio, uma esquelética novilha morta pela manhã. Só de olhar os esfomeados bichos em cima do estrado, Antônio sente um desespero a lhe pungir o coração. Contam-se as costelas de cada um e os pontiagudos ossos das ancas estão quase varando o couro, tal a magreza do gado. Se a vazante demorar, ele não tem dúvida de que os prejuízos serão totais.

Entardece. Cansado, o Sol se apóia sobre as copas da mataria azul, reunindo esforços e coragem para o mergulho no desconhecido, de onde boiará, de manhãzinha, consumando o milagre triunfal de um novo dia. Entretanto, ainda está bem claro e Antônio Presidente atira a primeira cuia com água sobre o corpo, num gostoso banho, quando reboa pelo ar o berro horrível: – Aaaiii!... Papaaaiii!...

– A sucuriju pegou o Tuninho! – denuncia, espavorida, a irmã de sete anos.

Como um raio, Maria Flor, que costurava, pula n’água, com a tesoura grande na mão.

– Deixa comigo! – brada, enérgico, o marido, correndo com o facão afiado. Dá uma trombada na menina, atirando-a longe e salta quase em cima do monstro que aperta a esperneante criança em suas roscas fatais!

Com indizível pavor nos olhos esbugalhados, lutando desesperadamente para se livrar da triturante pressão, ruge a inocência martirizada: – Aaaiii!... Papaaaiii!... Me sarve, papaizinho!... Meus osso tão quebrando!... Mamãezinha do meu coração! Aaaiii!...

Os quatro irmãos da vítima fazem tremendo alarido de medo e compaixão, enquanto se trava formidável combate aquático. Sua simples visão é suficiente para fulminar covardes ou cardíacos. Maria Flor conseguiu agarrar a cabeçorra da enorme cobra e tenta introduzir a tesoura em seus olhos, pondo, na briga desigual, toda a força que lhe dá a alma rasgada de dor e ódio. Escancarando a bocarra onde se agita a língua bífida, a serpente procura morder o rosto da valente mãe.

Louco de fúria, Presidente acerta a primeira terçada na fera, que logo começa a afrouxar o torniquete assassino, dando rabanadas violentas que fazem um escachoante tumulto na água suja. Repetindo, vezes sem conta, os violentos golpes, o alucinado pai termina matando a sucuriju. Mas, quando retira o menino daquele inferno de sangue e lama, compreende, com um profundo soluço, que tudo foi inútil: toda fraturada, a criança acaba de morrer, por asfixia! Recebera o bote fatídico da cobra quando brincava na escada do alpendre.

Antônio não chora há muitos anos e nem saberia dizer quando isso ocorreu pela última vez. Todavia, com o garoto morto nos braços, exausto da luta feroz, o pobre pai, agasalhando o cadáver sobre a mesa da cozinha, não consegue reter o pranto convulsivo. O rio acaba de lhe roubar o segundo filho em menos de três meses!

Entrando um pouco depois, Zé Potoca nem precisa perguntar nada: viu o monstro estraçalhado lá na porta e, de longe, escutara o berreiro pavoroso. Limita-se a curvar a cabeça sobre o peito nu, lagrimando em silêncio. Dos cinco meninos, esse era sempre o mais amigo do crioulo. Está, assim, outra vez enlutada e em tão dolorosas circunstâncias, a bela “Fazenda Apuizeiro”.

Aplacada a tempestuosa crise emocional que agitava Maria Flor e postos em calma os chorosos maninhos do falecido, passa-se a fazer o que a vida (ou a morte?) exige: mandar avisos à vizinhança através do prestativo afilhado e preparar o velório do pequeno defunto, para, no dia seguinte, conduzi-lo ao cemitério de Paricatuba. No entanto, fazendo das tripas coração, Antônio ainda vai substituir o vaqueiro no fornecimento do capim para a pequena boiada. É que, na várzea, até o sofrimento, às vezes, se torna um luxo proibido.

Antônio e Maria não dormem um minuto sequer nessa noite, arrastada e interminável como soro pingando em veia de doente. Além da mágoa dilacerante de um filho a menos, o caboclo tem seu martírio ampliado por uma amarga sensação de culpa: acha que deveria Ter morto a sucuriju de qualquer maneira, quando ela pegou o pato. A esposa, porém, já lhe disse, com o apoio de todos os amigos presentes: – Tira isso da cabeça! Era o dia dele. Se tu havera de matar essa marvada, o cão mandava logo outra mais grande do que ela. Foi a vontade de Deus.

É impossível acreditar, contudo, por mais fatalista que se consiga ser, que o Senhor de todas as misericórdias tenha desejado mesmo que uma criança morresse tão pavorosamente assim.

Às duas horas da fria madrugada, com os caboclos jogando baralho, na cozinha, para espantar o sono, começam os dois cônjuges a conversar, a prestações e em voz baixa, debruçados no parapeito do alpendre: – Essa nossa vida, Maria, tá mesmo um causo sério – principia, hesitante, o marido.

Ele nunca mais fumara. Contudo, para acalmar os nervos esfrangalhados, pita um cigarro que enrolou durante dez minutos, já sem a prática antiga. Contra os seus hábitos de tagarelice, a mulher continua muda, a olhar, de mãos no queixo, um ponto invisível na cara da noite escura. Mais alguns momentos transcorrem. Como quem pensa alto, Presidente fala, de novo: – Nem que nós havera de se acabar tudinho em boca de cobra ou jacaré, eu juro que não arredo pé daqui pra canto argum. Para onde, então, a gente podia se mudar? Pra murrer de fome na cidade, é mais melhor penar na varja. Pelo meno no verão a gente não véve desinfeliz.

Suspirando fundo, Maria Flor concorda, embora com alguma grosseria: – Não fica pensando bestera, homem. Eu só ia de vez morar na cidade se fosse presa por sordado e levada para o xilindró. Aqui a gente pega bote e dentada de cobra, ferrada de caba, arraia e lacrau. Lá é carro que mata, é bandido que assarta, é ruindade de patrão e ortoridade que só quer os pobre como inleitor, engraxate e lavadeira. Tisconjuro!

Por toda a redondeza, sapos seresteiro e insones continuam a ensaiar, em conjunto, a mesma interminável e áspera sinfonia e o fazem como quem raspa fundo de cuia com caco de vidro: – Crrrrôooo!... Crrrrôooo!... Crrrrôooo!...

Como contraponto ao monótono coral, uma rês faminta, ou agonizante, faz a segunda voz lá na maromba: – Muuuuuú!...

Dando um tapa no próprio rosto, como autoflagelação, mas, em verdade, esfarelando um carapanã impertinente, Antônio confidencia, enquanto atira a bagana do cigarro dentro do rio: – Eu tô com muita vergonha de ti e dos pirralho, Maria.

Abaixa a cabeça, mas, erguendo-lhe o queixo com as mãos e fitando meigamente os seus olhos, indaga a esposa, com ternura na voz: – Mas por que então, meu bem?

Usada com pouca freqüência, a expressão carinhosa surge no instante psicológico exato. A esperta criatura intuiu rapidamente a razão determinante do incomum desabafo e se sente na feminina obrigação de confortar o seu humilhado e másculo companheiro.

Com a dificuldade visível de quem se esforça querendo vomitar coisa intragável, ele comprime a mão da esposa de encontro ao próprio coração e diz, num sussurro: – Eu churei na ilharga de vocês. E churei como criança. Macho não chora, Maria. Só lagrima.

Lutando para não dar continuidade ao teimoso pranto que já lhe ensopa os olhos amarelados, Maria Flor aperta-lhe fortemente a mão calosa. Não pode dizer nada, ainda. Mas assim que consegue engolir o nó da garganta, segreda-lhe ao ouvido: – Não pensa mais nisso, meu amurzinho. Vergonha é robar e ser marvado. Tú só fez churar a morte tão triste do nosso Tuninho. – Detém-se, engasgada. Mas logo completa, num só fôlego: – Eu inda te quero mais bem dispôs dessa desgraça. Sei que tu é macho pra cachurro, mas tu não deixou de ter um coração bom e amuroso dentro do peito.

E, de rostos unidos, os dois emocionados caboclos ali ficam, durante longos minutos. Na cozinha, o jogo de baralho prossegue, animado, a até uns palavrões já saíram por lá. É preciso, porém, interromper o doce colóquio para servir mais uma rodada de café quentinho aos participantes do velório. Como foi uma criança que morreu, não se bebe cachaça. Só em vigília de adulto os varzeiros gostam de tomar umas duas ou três.