sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Origens do colapso das prisões

Editorial - Estadão
O crônico déficit de vagas nos 1,4 mil estabelecimentos penais brasileiros tem sido objeto de planos destinados a reduzir a superlotação das penitenciárias. Com um orçamento de R$ 1,2 bilhão, o último foi lançado no final de 2011 pela presidente Dilma Rousseff. Intitulado Plano Nacional de Apoio ao Sistema Prisional, ele previa a criação de 42,5 mil novas vagas nas penitenciárias e a redução do número de presos em delegacias de polícia.

O Plano também oferecia um banco de projetos arquitetônicos a serem adotados como modelos pelos Estados. Autorizava ainda a constituição de grupos de trabalho para estimular a aplicação de penas alternativas e a instituição de um sistema de acompanhamento da execução das penas, medidas de segurança e prisão provisória. E, sob a justificativa de que o País não podia mais tolerar a violação da dignidade humana, prometia assistência integral aos presos. “Não podemos mais conviver com cadeias e presídios que são verdadeiras escolas de criminalidade, com infrações aos direitos humanos. Não podemos mais tolerar situações como essas, em que pessoas são tratadas como animais”, disse, na época, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.

Seis anos depois, o saldo do Plano Nacional de Apoio ao Sistema Prisional é pífio. Das 42,5 mil vagas prometidas, somente 2,8% foram entregues. Das 92 obras financiadas pelo governo federal, 34 estão paradas, 40 não têm nem 10% do serviço executado e 9 não saíram da estaca zero. Nas restantes, a única providência foi a delimitação das respectivas áreas. Em 2015, o Ministério da Justiça já estimava que, no melhor dos cenários, conseguiria entregar apenas 1,5 mil vagas naquele ano e outras tantas em 2016.

Entre os convênios com os governos estaduais, dois foram firmados para a expansão do sistema prisional do Rio Grande do Norte e do Amazonas, em cujos estabelecimentos penais as rebeliões dos últimos dias resultaram em 90 presos decapitados e carbonizados. Nos dois Estados, as obras financiadas pelo Plano estão bastante atrasadas, tendo sido executados 35,8% das do Rio Grande do Norte e 75,9% das do Amazonas. Em Roraima, como informa o jornal [ITALIC]O Globo,[/ITALIC] os convênios tiveram de ser suspensos por falta de prestação de contas entre os anos de 2012 e 2013. Depois de esse problema ter sido sanado, as obras voltaram a ser suspensas, por falhas na parte elétrica e hidráulica dos projetos. Em seguida, o governo de Roraima teve de abrir nova licitação para retomar as obras.

As razões do fracasso do Plano Nacional de Apoio ao Sistema Prisional são conhecidas há muito tempo. Elas envolvem resistência das prefeituras à criação de presídios em sua jurisdição, dificuldades jurídicas na desapropriação de áreas para a construção de penitenciárias, documentação irregular, cancelamento de licitações, desistência de empresas, inépcia administrativa dos governos estaduais, morosidade do agente financeiro encarregado do pagamento das empreiteiras e falhas da própria concepção do Plano, que, por ter sido feito às pressas, incorporou contratos de construção firmados no segundo mandato do presidente Lula para a criação de presídios destinados a jovens e adultos. Um desses contratos, assinado em 2007, previa a construção de uma cadeia pública em Gericinó, zona oeste do Rio de Janeiro. Até 2015, nada havia sido erguido no local. A implementação do Plano também foi afetada por atrasos na liberação de recursos, pois entre 2013 e 2014 o governo federal desviou 34% das verbas destinadas à expansão do sistema prisional para construir estádios para a Copa do Mundo.

O colapso do sistema carcerário, evidenciado pela trágica onda de sangrentos motins, é o resultado da inépcia dos governantes, que são pródigos em lançar planos inconsistentes e despreparados para gerir a máquina pública e cumprir promessas.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Entrevista de Casagrande

Glamurama: Por que fazer o bate-papo sobre o livro só agora, anos depois de sua publicação?
Casagrande:
“Eu já faço parte de um projeto no Ceará que chama ‘Ceará sem Drogas’, em que giro o Ceará todo dando uma palestra contando a minha história. Uma ação espetacular da Assembleia Legislativa com o problema do estado porque, no Brasil, o governo federal nunca se preocupou com isso. Ninguém tenta fazer um projeto oficial sobre isso. E aí eu tive a ideia de relançar o livro e fazer um debate em SP com profissionais da área pra eu contar a minha história e esclarecer a parte psicológica e ver se assim alguém se mexe pra fazer algo no resto do país como tem sido feito no Ceará.”
Glamurama: O que você acha do projeto de João Dória para o combate às drogas em São Paulo?
Casagrande: “Acho que tudo o que se faz no Brasil é muito pequeno em relação ao adversário que no caso é a droga. O adversário é muito grande. Não é trabalhinho deste tamanho que vai resolver. É preciso combate forte mesmo porque é uma guerra. Tem traficante do outro lado que não quer que as pessoas se recuperem, né ‘meu’?  Eles querem que o pessoal se detone porque querem vender droga. E é preciso puxar os caras para o lado do bem. É preciso falar direto com as pessoas. Esclarecer, mostrar a elas o que vai acontecer no futuro se continuar dessa maneira. É assim que a situação vai melhorar.”
Glamurama: Você é a favor ou contra a legalização de drogas?
Casagrande: “Não sou a favor e nem contra. O Brasil tem outras coisas muito mais importantes pra se pensar do que se vai liberar a maconha ou não. Eu quero que resolva a Lava Jato, o Mensalão, a segurança pública, o transporte público, saúde. O que menos me interessa e o que devia menos interessar ao governo é isso. Essa discussão é pra país desenvolvido, o que não é o nosso caso.”
Glamurama: O vício parte da curiosidade. Como enfrentá-la? 
Casagrande: “Eu não faço campanha contra a droga porque se eu for falar que a droga é ruim seria uma hipocrisia. A gente só se vicia em coisas boas. Se eu virei um dependente químico, foi porque eu adoro a droga. Então o que eu posso dizer é: você tem o livre arbítrio pra fazer o que quiser. Eu conto a minha história, que começou igual a sua curiosidade e veio parar dentro de uma clínica de psiquiatria, onde eu fiquei um ano. Se é este o risco que você quer correr, que corra. Eu não sou super herói pra falar ‘não faça isso’ ou ‘não faça aquilo’. Isso é bobagem e também não funciona. Esse negócio de ‘diga não às drogas’ não funciona porque ninguém vai dizer ‘não’. É preciso mostrar os riscos e jogar o futuro na mão de cada um. A briga que eu comprei foi essa: eu sou um dependente químico. Eu sei da dificuldade. Eu sei o que quem está usando droga está sofrendo e eu sei a dificuldade pra sair e pra ter uma vida decente. E eu tô conseguindo fazer isso e não vou ficar assistindo de camarote outros dependentes se matando enquanto eu, que sou igual, estou me recuperando. Me sinto no dever de ajudar.” 
Glamurama: Você sente uma melhora diária em sua recuperação?
Casagrande: “Sim. Hoje eu tô bem, tô ótimo. E a cada vez que eu faço um evento desse eu fico melhor. Sempre mais seguro.”
Glamurama: Se dar alta um dia e largar o tratamento está nos seus planos?
Casagrande:
“De forma nenhuma. Eu faço tratamento há 10 anos e tive por vários anos altos e baixos. Achava que podia beber, que usar um pouquinho não daria nada… Foi de um tempo pra cá que a coisa se estabilizou. Não uso mais, não bebo mais, faço todas as coisas direito e regradas e não vou abandonar [o tratamento] nunca. Eu tô numa fase ótima da minha vida. Está tudo funcionando, e tá tudo funcionando porque eu tô sóbrio. Esse é o detalhe. Minhas conquistas eu devo a minha sobriedade.”
Glamurama: Como é ser um dos comentaristas que mais virou manchete no jornalismo brasileiro?
Casagrande: “Eu vivo a minha vida. Se algumas coisas que eu faço são tão importante assim pra chamar a atenção pública… De algumas coisas eu acho graça e levo na boa. Levo minha vida de forma muito simples. Me dou com todo mundo e não tenho a mínima separação em nada, sabe?”
Glamurama: E quais são seus programas favoritos?
Casagrande: “Amo ir ao teatro e ao cinema. Vejo todos os filmes estrangeiros. O último que vi foi um iraniano chamado “O Apartamento”. Amei!”
Glamurama: Sempre bem acompanhado? 
Casagrande: “Sempre bem acompanhado. Tô feliz… repete ele.”
Baby do Brasil foi assunto vetado na ocasião por Casagrande. Já Graziela, acompanhante terapêutica do ex-jogador, falou sobre o namoro: “Ela tem feito muito bem a ele. Foi um encontro de almas”, completou em tom de alívio. “Ela não usa drogas e não bebe. Ele precisava de alguém assim na vida dele. Ela o tem ajudado muito. O acompanha em tudo.”
*
Hoje, quase dez anos depois, ele ainda se interna aos domingos e fica na clínica até terça-feira, às vezes quarta, fazendo terapia de grupo e se consultando com psicólogos e psiquiatras. Diariamente, inclusive nos fins de semana, se reúne com sua terapeuta que virou também uma grande amiga, Graziela Maria. Juntos, vão ao cinema, ao teatro às quintas, a cafés, restaurantes e etc. Lembrada por Mariana Godoy durante o debate de que o sacerdócio tornara impossível manter uma vida pessoal, Graziela riu, sem graça, e disse que faz o que gosta.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

'Sim, nós fizemos'; leia a íntegra do discurso de despedida de Obama

É bom estar em casa. Meus concidadãos americanos, Michelle e eu estamos comovidos com todos os bons votos que recebemos nas últimas semanas. Mas hoje é minha vez de dizer obrigado. Quer tenhamos coincidido em nossas posições ou raramente tenhamos concordado, minhas conversas com vocês, americanos –em salas de estar e escolas; em fazendas e fábricas; em restaurantes populares ou em postos avançados distantes– são o que me mantiveram honesto, me mantiveram inspirado e me deram força para seguir adiante. Aprendi com vocês todos os dias. Vocês me fizeram um presidente melhor e vocês me fizeram um homem melhor.

Vim para Chicago originalmente quando tinha 20 e poucos anos, ainda tentando decifrar quem eu era, ainda à procura de um objetivo na vida. Foi em bairros não muito distantes daqui que comecei a trabalhar com grupos de igreja à sombra de siderúrgicas fechadas. Foi nestas ruas que testemunhei o poder da fé e a dignidade discreta de pessoas trabalhadoras confrontadas com dificuldades e perdas. Foi aqui que aprendi que a transformação só acontece quando pessoas comuns se envolvem, se engajam e se unem para reivindicá-la.

Após oito anos como seu presidente, ainda acredito nisso. E não sou apenas eu quem acredita. Esse é o coração latejante de nossa ideia americana –nosso experimento ousado com o autogoverno.

É a convicção de que todos fomos criados iguais, dotados por nosso Criador de certos direitos



inalienáveis, entre os quais estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade.

É a insistência em que esses direitos, embora sejam manifestos, nunca foram autoexecutados; que nós, o povo, por meio do instrumento de nossa democracia, podemos formar uma união mais perfeita.

Essa é a grande dádiva que nossos fundadores nos legaram. A liberdade de correr atrás de nossos sonhos individuais, com nossa suor, trabalho e imaginação –e o imperativo de lutarmos juntos, também, para alcançar um bem maior.

Há 240 anos o chamado de nossa nação à cidadania confere trabalho e objetivos a cada nova geração. Foi esse chamado que levou patriotas a escolher a república e não a tirania, que levou os pioneiros a abrir caminho rumo ao oeste do país, que inspirou escravos a aventurar-se naquele caminho arriscado rumo à liberdade. Foi o que atraiu imigrantes e refugiados a cruzar oceanos e o rio Grande, que impeliu mulheres a buscar o direito de votar, que inspirou trabalhadores a se organizar. Foi por isso que soldados americanos sacrificaram suas vidas na praia de Omaha e em Iwo Jima, no Iraque e no Afeganistão; foi por isso que homens e mulheres de Selma a Stonewall se dispuseram de sacrificar as suas, também.

Então é isso o que queremos dizer quando falamos que a América é excepcional. Não que nosso país tenha sido perfeito desde o começo, mas que demonstramos a capacidade de mudar e de melhorar a vida daqueles que vêm depois.

Sim, nosso progresso tem sido desigual. O trabalho da democracia sempre foi árduo, contencioso e por vezes sangrento. Para cada dois passos à frente, muitas vezes temos a impressão de termos recuado um. Mas o longo avanço da América vem sendo definido pelo movimento para frente, por uma constante ampliação de nosso credo fundador, de modo a abraçar todos, e não apenas alguns.

Se eu tivesse lhes dito oito anos atrás que a América reverteria uma grande recessão, revigoraria nossa indústria automotiva e daria início à fase mais longa de geração de empregos de nossa história... se eu tivesse dito que abriríamos um capítulo novo com o povo cubano, que fecharíamos o programa iraniano de armas nucleares sem disparar um único tiro e que eliminaríamos o arquiteto do 11 de setembro... se eu tivesse dito que conquistaríamos o casamento entre pessoas do mesmo sexo e que garantiríamos a outros 20 milhões de nossos concidadãos o direito a um plano de saúde –vocês talvez tivessem dito que estávamos querendo demais.

Mas foi o que fizemos. Foi o que vocês fizeram. Vocês foram a transformação. Vocês responderam às esperanças das pessoas, e por causa de vocês, segundo praticamente qualquer critério, a América é um lugar melhor e mais forte hoje do que era quando começamos.

Dentro de dez dias o mundo vai assistir a um ato que caracteriza nossa democracia: a transferência pacífica de poder de um presidente livremente eleito a outro. Prometi ao presidente eleito Trump que minha administração asseguraria a transição mais tranquila possível, como o presidente Bush fez comigo. Porque cabe a todos nós assegurar que nosso governo possa nos ajudar a fazer frente aos muitos desafios que ainda enfrentamos.

Dispomos do que precisamos para isso. Afinal, ainda somos o país mais rico, mais poderoso e mais respeitado da Terra. Nossa juventude e garra, nossa diversidade e abertura, nossa capacidade ilimitada de risco e reinvenção significam que o futuro deve nos pertencer.

Mas esse potencial só será realizado se nossa democracia funcionar. Será realizado apenas se nossa política refletir a decência de nosso povo. Apenas se todos nós, independentemente de nossa filiação partidária ou de nossos interesses particulares, ajudarmos a restaurar o senso de objetivos comuns que nos é tão seriamente necessário agora.

É disso que quero tratar hoje: o estado de nossa democracia.

Entendam que a democracia não requer uniformidade. Nossos fundadores brigaram, fizeram concessões e esperaram que fizéssemos o mesmo. Mas eles sabiam que a democracia requer, sim, um senso básico de solidariedade –a ideia de que, não obstante todas nossas diferenças externas, estamos nesta juntos; que nos elevamos ou tombamos com um só.

Houve momentos ao longo de nossa história que ameaçaram romper essa solidariedade. O início deste século tem sido um desses momentos. Um mundo cada vez menor, a desigualdade crescente; as mudanças demográficas e o espectro do terrorismo –essas forças puseram à prova não apenas nossa segurança e prosperidade, mas também nossa democracia. E o modo como enfrentamos esses desafios à nossa democracia vai determinar nossa capacidade de educar nossos filhos, gerar bons empregos e proteger nossa pátria.

Em outras palavras, vai determinar nosso futuro.

Nossa democracia não vai funcionar sem a ideia de que todos têm oportunidades econômicas. Hoje a economia está crescendo outra vez; os salários, as rendas, o valor dos imóveis e as aposentadorias estão voltando a subir, e a pobreza voltou a diminuir. Os ricos estão pagando uma parcela mais justa de impostos, ao mesmo tempo em que o mercado acionário quebra recordes. O índice de desemprego se aproxima do nível mais baixo em dez anos. O índice de pessoas sem seguro nunca foi mais baixo. Os custos da saúde estão subindo no ritmo mais lento em 50 anos. E, se alguém puder montar um plano que seja comprovadamente melhor que as melhorias que promovemos ao nosso sistema de saúde –que cubra o mesmo número de pessoas a um custo mais baixo-, eu darei apoio público.

É por isso, afinal, que servimos nosso país –para fazer a vida da população ser melhor, não pior.

Mas, apesar de todos os avanços reais que conquistamos, sabemos que não são o suficiente. Nossa economia não funciona tão bem nem cresce tanto quando poucos prosperam às expensas de uma classe média crescente. A desigualdade gritante também corrói nossos princípios democráticos. Enquanto os 10% mais ricos acumularam uma parcela maior da riqueza e receita, muitas famílias demais, nos centros pobres das grandes cidades e nos condados rurais, ficaram para trás: operários de fábricas demitidos, garçonetes e profissionais de saúde que têm dificuldade em pagar suas contas, convencidos de que a situação é armada para ser desfavorável a eles, que seu governo defende apenas os interesses dos poderosos. É uma receita de mais cinismo e polarização de nossa política.

Não existem soluções fáceis para esta tendência de longo prazo. Concordo que nosso comércio deve ser justo, e não apenas livre. Mas a próxima onda de deslocamento econômico não virá dó exterior. Virá como consequência do avanço implacável da automatização, que torna obsoletos muitos empregos bons da classe média.

Por isso precisamos forjar um novo pacto social –para garantir a todos nossos filhos a educação que necessitam; para conferir aos trabalhadores o poder de se sindicalizarem em busca de salários melhores; para modernizar a rede de segurança social de modo a refletir o modo como vivemos hoje e empreender mais reformas tributárias, para que as empresas e os indivíduos que lucram mais com a nova economia não evitem cumprir suas obrigações ao país que possibilitou seu sucesso. Podemos discutir sobre as melhores maneiras de alcançar esses objetivos. Mas não podemos transigir em relação aos próprios objetivos. Pois, se não gerarmos oportunidades para todas as pessoas, os desafetos e divisões que paralisaram nosso progresso vão apenas se intensificar nos próximos anos.

Existe uma segunda ameaça à nossa democracia, uma ameaça que é tão velha quanto nosso próprio país. Após minha eleição, falou-se em uma América pós-racial. Por bem-intencionada que fosse, essa visão nunca foi realista. A raça continua a ser uma força poderosa e divisiva em nossa sociedade. Já vivi o suficiente para saber que as relações raciais estão melhores hoje do que eram dez, 20 ou 30 anos atrás –isso é visível não apenas nas estatísticas, mas nas atitudes de jovens americanos de todo o espectro político.

Mas não chegamos onde precisamos chegar. Todos nós temos mais trabalho a fazer. Afinal, se todo problema econômico é apresentado como uma luta entre uma classe média branca que trabalha arduamente e minorias que não são merecedoras, então trabalhadores de todas as cores serão relegados a disputar as sobras, enquanto os ricos se retiram ainda mais dentro de seus enclaves privados. Se nos negarmos a investir nos filhos de imigrantes, apenas porque eles não se parecem conosco, prejudicaremos as perspectivas futuras de nossos próprios filhos –porque essas crianças morenas vão representar uma parcela maior da força de trabalho da América. E nossa economia não precisa ser um cálculo em que alguns ganham tudo e outros ficam com nada. No ano passado houve um aumento de renda para todas as raças, todas as faixas etárias, para homens e mulheres.

Daqui em diante, precisamos respeitar e implementar as leis contra a discriminação –nas contratações, no setor habitacional, na educação e no sistema de justiça criminal. É o que exigem nossa Constituição e nossos ideais mais elevados. Mas as leis não serão o bastante, por si sós. É preciso que os corações mudem. Para que nossa democracia funcione neste país cada vez mais diversificado, é preciso que cada um de nós dê ouvidos ao conselho de um dos grandes personagens da ficção americana, Atticus Finch, que disse: "Você nunca compreende uma pessoa realmente enquanto não considera as coisas desde seu ponto de vista... enquanto não entra em sua pele e caminha nela".

Para os negros e outras minorias, isso significa vincular nossas próprias lutas por justiça aos desafios que muitas pessoas neste país enfrentam: o refugiado, o imigrante, o pobre rural, o americano transgênero e também o homem branco e de meia idade que, visto de fora, pode parecer que desfruta de todas as vantagens, mas que tem visto seu mundo virado do avesso pelas transformações econômicas, culturais e tecnológicas.

Para os americanos brancos, isso significa reconhecer que os efeitos da escravidão e das leis Jim Crow não desapareceram de repente na década de 1960; que, quando grupos minoritários manifestam insatisfação, não estão apenas fazendo racismo ao inverso ou praticando correção política; que, quando promovem protestos pacíficos, não estão reivindicando tratamento especial, mas o tratamento igual prometido pelos fundadores de nossa nação.

Para os americanos natos, isso significa recordar que os estereótipos manifestados hoje sobre imigrantes foram expressos, em termos quase idênticos, em relação aos imigrantes irlandeses, italianos e poloneses. A América não foi enfraquecida pela presença desses imigrantes; eles abraçaram o credo deste país, e o país saiu fortalecido.

Assim, independentemente da posição que ocupamos, precisamos nos esforçar mais; para partir da premissa de que cada um de nossos concidadãos ama este país tanto quanto nós o amamos; que eles valorizam o trabalho e a família como nós; que seus filhos são tão curiosos, cheios de esperança e dignos de amor quanto são os nossos.

Nada disto é fácil. Para muitos de nós, tornou-se mais seguro recuar para dentro de nossas próprias bolhas, quer sejam nossos bairros, nossas universidades, nossos lugares de oração ou nossos feeds de mídias sociais, cercados por pessoas de aparência semelhante à nossa, que compartilham nossa visão política e nunca contestam nossas premissas. A polarização crescente de opiniões, a crescente estratificação econômica e regional, a fragmentação de nossa mídia em canais para todos os gostos –tudo isso faz com que esse grande processo de divisão em categorias distintas pareça natural, até inevitável. E, cada vez mais, nos sentimos tão seguros envoltos em nossas bolhas que só aceitamos informações, verídicas ou não, que se enquadram com nossas opiniões, em vez de basear nossas opiniões nas evidências existentes.

Esta tendência representa uma terceira ameaça à nossa democracia. A política é uma batalha de ideias; ao longo de um debate sadio, priorizamos metas diferentes e meios distintos de alcançar essas metas. Mas, sem alguma base comum de fatos, sem a disposição de aceitar novas informações e reconhecer que nosso adversário está apresentando um argumento justo e que a ciência e a razão têm importância, vamos continuar a falar sem ouvir ou ser ouvidos por nossos interlocutores, impossibilitando qualquer consenso.

Isso não faz parte daquilo que torna a política tão desanimadora? Como podem os políticos ficar falando em déficits quando propomos que se gaste dinheiro com pré-escola para nossas crianças, mas não quando reduzimos os impostos pagos pelas grandes empresas? Como podemos desculpar os lapsos éticos cometidos em nosso próprio partido, mas criticar arduamente o outro partido quando ele faz o mesmo? Essa classificação desonesta de fatos não é apenas desonesta –ela acaba derrotando sua própria finalidade. Porque, como me dizia minha mãe, a realidade costuma nos cobrar a conta.

Tomemos o desafio das mudanças climáticas. Em apenas oito anos, reduzimos nossa dependência do petróleo estrangeiro pela metade, dobramos nossa energia renovável e levamos o mundo a um acordo que encerra a promessa de salvar este planeta. Mas, sem ação mais ousada, nossos filhos não terão tempo para discutir a existência das mudanças climáticas: estarão ocupados enfrentando seus efeitos –desastres ambientais, turbulências econômicas e ondas de refugiados climáticos buscando abrigo em outros países.

Podemos e devemos discutir sobre a melhor maneira de abordar o problema. Mas simplesmente negar o problema significa não apenas trair as gerações futuras: é trair o espírito essencial de inovação e resolução prática de problemas que guiou os fundadores de nosso país.

Foi esse espírito, nascido do iluminismo, que nos converteu em grande potência econômica; foi esse espírito que decolou do Kitty Hawk e de Cabo Canaveral; é esse o espírito que cura doenças e coloca um computador em cada bolso.

É esse espírito –a crença na razão, no empreendedorismo e na primazia do direito, não da força, que nos permitiu resistir à atração do fascismo e da tirania durante a Grande Depressão e a construir uma ordem pós-Segunda Guerra Mundial com outras democracias, uma ordem baseada não apenas no poderio militar e em filiações nacionais, mas em princípios: o estado de direito, os direitos humanos, as liberdades de religião, de expressão, de reunião e de imprensa.

Essa ordem está sendo desafiada hoje –primeiramente por fanáticos violentos que alegam falar em nome do islã; mais recentemente, por autocratas em capitais estrangeiras que enxergam o mercado livre, as democracias abertas e a própria sociedade civil como ameaça ao seu poder. O perigo que cada um representa à nossa democracia tem alcance maior que um carro-bomba ou um míssil. Ele representa o medo das mudanças; o medo das pessoas de aparência diferente à nossa, que falam ou oram de modo diferente; o desprezo pelo estado de direito, que obriga os líderes a prestar conta de seus atos; a intolerância da dissensão e do livre pensamento; a crença de que a espada, a arma de fogo, a bomba ou a máquina de propaganda política são os árbitros finais do que é certo ou errado.

Graças à coragem extraordinária de nossos homens e mulheres nas Forças Armadas e aos agentes de inteligência, policiais e diplomatas que os apoiam, nenhuma organização terrorista estrangeira planejou e executou com sucesso um ataque em nosso país nos últimos oito anos; e, embora Boston e Orlando nos recordem de quão perigosa pode ser a radicalização, nossas agências policiais estão mais vigilantes e são mais eficazes que nunca. Eliminamos milhares de terroristas, incluindo Osama bin Laden. A coalizão global que lideramos contra o Estado Islâmico eliminou seus líderes e arrancou metade de seu território. O EI será destruído, e ninguém que ameaça a América estará em segurança, jamais. A todos os membros das Forças Armadas, ser seu comandante em chefe tem sido a grande honra de minha vida.

Mas proteger nosso modo de vida requer mais que nossos militares. A democracia pode sucumbir quando cedemos ao medo. Assim, do mesmo modo que nós, cidadãos, precisamos nos manter vigilantes contra a agressão externa, precisamos nos precaver contra o enfraquecimento dos valores que nos tornam quem somos. Foi por isso que trabalhei nos últimos oito anos para colocar a luta contra o terrorismo em posição legal mais firme. Foi por isso que acabamos com a tortura, trabalhamos para fechar Guantánamo e reformar nossas leis de vigilância, de modo a proteger a privacidade e as liberdades civis. É por isso que rejeito a discriminação contra americanos muçulmanos. É por isso que não podemos deixar de participar de lutas globais –para ampliar a democracia, os direitos humanos, os direitos das mulheres e os direitos LGBT–, por mais que nossos esforços sejam imperfeitos, por mais que possa parecer conveniente ignorar esses valores. Pois a luta contra o extremismo, a intolerância e o sectarismo faz parte da luta contra o autoritarismo e a agressão nacionalista. Se o alcance da liberdade e do respeito pelas leis encolher em todo o mundo, aumentará a probabilidade de guerras dentro e entre países, e nossas próprias liberdades acabarão ameaçadas.

Portanto, sejamos vigilantes, mas não tenhamos medo. O EI vai tentar matar inocentes. Mas não poderá derrotar a América, a não ser que traiamos nossa Constituição e nossos princípios na luta contra ele. Rivais como Rússia e China não poderão equiparar-se à nossa influência em todo o mundo –a não ser que abrirmos mão daquilo que representamos e nos convertermos em apenas mais um país grande que oprime seus vizinhos menores.

E isso me conduz à questão final que quero abordar: nossa democracia é ameaçada sempre que nós a damos como garantida. Todos nós, independentemente de nossa filiação partidária, devemos nos engajar na tarefa de reconstrução de nossas instituições democráticas. Quando nossos índices de participação eleitoral estão entre os mais baixos entre as democracias avançadas, precisamos facilitar o voto, e não dificultá-lo. Quando a confiança em nossas instituições está baixa, devemos reduzir a influência corrosiva do dinheiro em nossa política e fazer questão que os princípios de transparência e ética sejam respeitados por nossos políticos. Quando o Congresso está disfuncional, precisamos levar nossos distritos a incentivar os políticos a agirem pautados pelo bom senso, e não por posições extremas e rígidas.

E tudo isso depende de nossa participação; depende de cada um de nós aceitar a responsabilidade da cidadania, independentemente do rumo seguido pelo pêndulo do poder.

Nossa Constituição é uma dádiva notável e bela. Mas, na realidade, é apenas um pergaminho. Ela não possui poder, por si própria. Somos nós, o povo, que lhe damos poder –com nossa participação e com as escolhas que fazemos. Se nos posicionamos ou não em defesa de nossas liberdades. Se respeitamos e aplicamos as leis, ou não. A América não é algo frágil. Mas as conquistas de nossa longa jornada rumo à liberdade não são garantidas.

Em seu próprio discurso de despedida, George Washington escreveu que o autogoverno é a base de nossa segurança, prosperidade e liberdade, mas que "muitos esforços serão feitos, a partir de causas e de origens diferentes, para enfraquecer a convicção desta verdade em vossas mentes"; que devemos preservar essa convicção "com ansiedade zelosa"; que devemos rejeitar "a primeira aurora de cada tentativa de alienar qualquer parcela de nosso país do restante dele ou de enfraquecer os laços sagrados" que nos unem.

Enfraquecemos esses laços quando deixamos nosso diálogo político ficar tão corrosivo que pessoas de bom caráter são desencorajadas de atuar na política; tão grosseiro e rancoroso que enxergamos americanos com os quais discordamos como não apenas estando enganados, mas sendo malévolos, de alguma maneira. Enfraquecemos esses laços quando definimos alguns de nós como sendo mais americanos que outros; quando tachamos o sistema por inteiro como sendo inevitavelmente corrupto e atribuímos a culpa por isso aos líderes que elegemos, sem analisar nosso próprio papel em sua eleição.

Cabe a cada um de nós ser um daqueles guardiões ansiosos e zelosos de nossa democracia e abraçar a tarefa compensadora que nos foi dada de procurar continuamente melhorar esta nossa grande nação. Porque, não obstante todas nossas diferenças externas, todos compartilhamos o mesmo título que é motivo de orgulho: cidadão.

Em última análise, é isso o que nossa democracia exige. Ela precisa de você. Não apenas quando há uma eleição, não apenas quando seus próprios interesses limitados estão em jogo, mas ao longo de toda sua vida. Se você está cansado de argumentar com desconhecidos na internet, experimente conversar com um desconhecido na vida real. Se alguma coisa precisa ser consertada, arregace as mangas e organize pessoas para consertá-la. Se você está decepcionado com os políticos que elegeu, agarre uma prancheta, colete algumas assinaturas e candidate-se a um cargo na política, você mesmo. Compareça. Mergulhe fundo. Persevere. Às vezes você vencerá. Às vezes perderá. Supor que há uma reserva enorme de bondade nos outros pode ser um risco, e haverá momentos em que o processo o decepcionará. Mas, para aqueles de nós que tivemos a sorte de fazer parte desse trabalho, de vê-lo de perto, ele pode energizar e inspirar as pessoas, garanto a vocês. E, na maioria das vezes, sua fé na América e nos americanos será confirmada.

A minha o foi, sem dúvida alguma. Nos últimos oito anos pude ver os rostos esperançosos de jovens recém-formados e de nossos oficiais militares mais recentes. Chorei com famílias enlutadas, em busca de respostas, e encontrei a graça divina numa igreja de Charleston. Vi nossos cientistas ajudarem um paralítico a recobrar o senso de tato e vi nossos guerreiros feridos voltarem a andar. Vi nossos médicos e voluntários reconstruir após terremotos e impedir o avanço de pandemias. Vi as crianças menores nos fazerem lembrar de nossas obrigações de cuidar de refugiados, de trabalhar em paz e, sobretudo, de velar pelo bem uns dos outros.

A fé que depositei todos aqueles anos atrás, não longe daqui, no poder dos americanos comuns de efetuarem mudanças –essa fé foi recompensada de maneiras que eu jamais poderia ter imaginado. Espero que a sua também tenha sido. Alguns de vocês que estão aqui hoje ou que estão assistindo em casa estiveram conosco em 2004, em 2008, em 2012 –e talvez vocês ainda mal acreditem que conseguimos realizar tudo isto.

Vocês não são os únicos. Michelle –há 25 anos você é não apenas minha mulher e a mãe de minhas filhas, mas também minha melhor amiga. Você assumiu um papel que não tinha pedido e o fez seu, com graça, garra, estilo e bom humor. Você fez da Casa Branca um lugar que pertence a todos. E uma nova geração passou a ter aspirações maiores por ter você como exemplo a seguir. Você me deixou orgulhoso. Deixou o país orgulhoso.

Malia e Sasha, sob as circunstâncias mais estranhas possíveis vocês se tornaram duas jovens surpreendentes, inteligentes e lindas, mas, o que é mais importante, gentis, profundas e cheias de paixão. Vocês conviveram tão facilmente com o peso dos anos passados sob os holofotes. De tudo o que eu já fiz em minha vida, o que me dá maior orgulho é ser seu pai.

A Joe Biden, o garoto briguento de Scranton que se tornou o filho favorito de Delaware: você foi o primeiro nome que escolhi para minha equipe e foi minha melhor escolha. Não apenas porque você foi um vice-presidente fantástico, mas porque, com isso, acabei ganhando um irmão. Amamos você e Jill como se fossem de nossa família, e a amizade com vocês tem sido uma das grandes alegrias de nossa vida.

A meus assessores excepcionais: por oito anos –e, no caso de alguns de vocês, há muito mais tempo que isso– venho me fortalecendo com sua energia e procurando refletir de volta aquilo que vocês demonstraram diariamente: coração, caráter e idealismo. Vi vocês crescerem, se casarem, ter filhos e iniciar jornadas próprias, novas e incríveis. Mesmo quando as coisas ficaram árduas e frustrantes, vocês nunca deixaram que Washington os dominasse. A única coisa que me dá orgulho maior que tudo o que realizamos é pensar em todas as coisas notáveis que vocês vão realizar daqui em diante.

E a todos vocês aí fora –a cada organizador que se mudou para uma cidade desconhecida, a cada família gentil que o acolheu, a cada voluntário que já foi de porta em porta, a cada jovem que foi votar pela primeira vez, a cada americano que viveu e respirou o trabalho árduo de conquistar mudanças –vocês são os melhores partidários e organizadores que seria possível desejar, e serei eternamente grato. Porque, sim, vocês mudaram o mundo.

É por isso que deixo este palco esta noite ainda mais otimista em relação a este país do que estava quando começamos. Porque sei que nosso trabalho não apenas ajudou tantos americanos; ele inspirou tantos americanos –especialmente tantos jovens aí fora– a acreditar que vocês podem fazer uma diferença; a atrelar suas esperanças a algo maior que vocês mesmos. Esta geração que está chegando –uma geração altruísta, criativa, patriótica–, eu vi vocês em todos os cantos do país. Vocês acreditam em uma América justa e inclusive; sabem que as transformações constantes têm sido a marca registrada da América, algo não a ser temido, mas abraçado, e vocês estão dispostos a levar adiante este trabalho árduo da democracia. Dentro em breve vocês vão nos superar em número, e acredito que, graças a isso, o futuro estará em boas mãos.

Meus concidadãos americanos, servir a vocês tem sido a maior honra de minha vida. Não vou deixar de fazê-lo; na verdade, estarei à sua disposição, como cidadão, por todos os dias de vida que me restarem. Por enquanto, quer você seja jovem ou jovem de coração, tenho um último pedido a lhe fazer como seu presidente –a mesma coisa que lhe pedi quando você apostou em mim, oito anos atrás.

Estou pedindo que você acredite. Não em minha capacidade de trazer mudanças, mas na de vocês.

Estou pedindo que vocês se aferrem à fé inscrita em nossos documentos fundadores; aquela ideia sussurrada por escravos e abolicionistas; o espírito cantado por imigrantes, lavradores e aqueles que marcharam pela justiça; o credo reafirmado por aqueles que plantaram bandeiras em lugares desde campos de batalha no exterior até a superfície da Lua; um credo que está ao cerne de todo americano cuja história ainda não foi escrita:

Sim, nós podemos.

Sim, nós fizemos.

Sim, nós podemos.

Obrigado. Deus os abençoe. E que Deus continue a abençoar os Estados Unidos da América.

Destemperança que se propaga

Editorial - Estadão
Na sexta-feira passada, um oficial de Justiça foi ao Palácio dos Bandeirantes para notificar o governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, de uma decisão judicial. Voltou com as mãos abanando. Segundo o relato do oficial de Justiça, informaram-lhe que o governador não estava presente e que a notificação não seria recebida por qualquer funcionário do Palácio.

A esquiva do governador não foi o fato mais esdrúxulo do caso. Esquisita mesmo foi a decisão do juiz da qual o oficial de Justiça pretendia dar ciência ao governador. Liminarmente, o juiz Paulo Furtado de Oliveira Filho mandou suspender o reajuste das tarifas de trem e metrô, nos bilhetes integrados com os ônibus da capital paulista e nos bilhetes temporais. Como o magistrado explanou, ele não considerou justo o aumento; logo, não poderia valer.

Impensável em outros tempos, tal ousadia judicial vem se tornando rotina nos dias de hoje. Membros do Poder Judiciário fazem vista grossa aos princípios comezinhos do Estado Democrático de Direito – entre eles, a necessária separação dos Poderes – e se julgam legitimados a administrar o Estado, a cidade, a vida dos cidadãos.

O desrespeito à separação dos Poderes não é um descumprimento de uma regra formal, como se fosse uma infração de menor gravidade. Quando um juiz arroga para si competências do Poder Executivo, ele está violando a própria democracia, já que as decisões do Executivo devem ser tomadas por quem a população, pelo voto direto, escolheu.

Ainda que a fundamentação da decisão esteja repleta de boas intenções, é de um autoritarismo vulgar a suspensão do aumento da tarifa simplesmente porque o magistrado não considerou “justo” o reajuste. Ora, a aprovação no concurso público não confere ao juiz a potestade de transformar seus critérios subjetivos em lei. Deve o magistrado cumprir e fazer cumprir a lei, ponto final. Transpor esse limite é manifestação inequívoca de desalinho com sua função institucional.

O valor das tarifas públicas é um elemento de grande importância social. A decisão de aumentar ou congelar seu preço não pode, portanto, ser isolada da correspondente responsabilidade política. Mas é o que ocorre quando, por exemplo, o Judiciário determina a tarifa dos serviços públicos. É o governador quem deve decidir a tarifa do metrô e do trem e é o mesmo governador quem deve responder pelas consequências políticas de sua decisão. Quando um juiz, sem ter razões objetivas para tanto, retira da esfera política o aumento da tarifa, ele não apenas subtrai o poder do governador, como restringe o campo de decisão da própria população. Comporta-se, portanto, como um autocrata.

Há quem pretenda justificar essas interferências do Judiciário com o argumento de que a Constituição de 1988 permite esse tipo de atuação, pois, mais do que o cumprimento formal das competências de cada órgão do governo, ela privilegiaria a adoção da melhor decisão para a população. Esse tipo de raciocínio carrega em si o germe comum a todo autoritarismo: a crença de que uns poucos sabem qual é a melhor decisão para todos. No caso aqui tratado, o iluminado seria o juiz, capaz de proferir o veredicto final sobre a bondade e a justiça das decisões do governador.

Certamente, a Constituição de 1988 tem muitos erros, que não raro dificultam o bom funcionamento do Estado, mas desse equívoco ela está imune. A Carta Magna estabelece e protege a separação dos Poderes, como forma de preservar a democracia. O equívoco de achar que é possível cumprir a Constituição ignorando alguns preceitos fundamentais do Estado brasileiro – como a separação de Poderes, por exemplo – é decorrência da prática de interpretar o texto constitucional almejando, mais do que cumprir a lei, fazer valer o que entende ser a sua própria lei.

Como é evidente, esse tipo de mentalidade não se coaduna com a democracia. Hoje são os juízes que abusam. Amanhã, como alertava Pedro Aleixo, será o guarda da esquina.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Com 48 seleções, Fifa aprova maior reforma da história das Copas

De olho em lucros inéditos e em consolidar o futebol como principal esporte no mundo, a Fifa promove a maior reforma da história de quase cem anos da Copa do Mundo e inicia uma mudança completa no calendário internacional. Além de uma expansão para incluir 48 seleções, a entidade altera as regras do torneio e abre a possibilidade de que continentes possam repartir os jogos em diversos países. Torneios como a Copa das Confederações devem desaparecer e clubes terão maior participação nos lucros. 
 
Uma decisão de princípios já havia sido tomada numa reunião informal no domingo entre os cartolas. Nesta terça-feira, de forma oficial, a Fifa votou a favor da decisão, incluindo 16 novos times a partir da edição de 2026 do Mundial. De acordo com a entidade, a decisão do Conselho foi tomada de forma unânime e não houve voto dissidente.

Na preparação para a decisão desta terça-feira, a entidade havia realizado 10 mil simulações apontando que, em termos de qualidade, o melhor seria manter a Copa com os atuais 32 países. Mas, para atingir seu objetivo de expandir o futebol e elevar a renda da entidade, a opção encontrada foi a de abrir mais vagas.

Assim, a Copa iniciará com 48 times, divididos em 16 grupos de três seleções cada. As duas melhores de cada chave passam para a fase seguinte e, com 32 times, começaria um mata-mata.

A projeção é de que a renda salte em 35%, com uma audiência recorde em novos territórios que jamais sonhariam em se classificar para a Copa do Mundo, principalmente na Ásia. Com a expansão, existem boas chances de que a China também entre na Copa, um sonho de Pequim e dos dirigentes na Fifa.

Pelo projeto aprovado, serão 80 jogos e pelo menos seis horas de futebol por dia. Com quatro partidas por dia, a própria entidade admite que será “um desafio” erguer uma infraestrutura capaz de acomodar o projeto.

Para que isso seja possível, a Fifa vai promover mudanças radicais nas regras do jogo. O primeiro é o fim do empate, com todos os jogos sendo definidos em pênaltis. Além disso, até 2026, a esperança é de que a tecnologia já esteja avançada e de que polêmicas de arbitragem possam ser facilmente resolvidas por vídeo ou outros auxiliares. Estão ainda em estudos medidas como a autorização de novas substituições, na esperança de manter elevado o ritmo de jogo.

CONTINENTAL
Para garantir ainda que o novo projeto possa encontrar uma sede capaz de ter doze estádios novos, 64 campos de treinamentos, 48 hotéis para as seleções e uma segurança reforçada, a Fifa vai abrir a possibilidade de que diversos países se apresentem de forma conjunta.

Um dos temores das federações era de que, com o novo projeto, as futuras sedes da Copa se limitassem aos grandes países: EUA, China, Alemanha ou Japão.

Mas a Fifa, a partir de 2026, permitirá que uma Copa possa ocorrer em mais de três países ao mesmo tempo. Isso, segundo a entidade, reduzirá o custo para cada uma delas. Se o Mundial voltar para a Europa em 2030, por exemplo, ela poderia ser espalhada pelo continente. No caso da América do Sul, o evento poderia ver uma aliança entre Argentina, Uruguai e Chile.

O primeiro teste para o novo modelo pode ocorrer nos EUA, país que quer sediar o evento em 2026. Mas a proposta pode incluir também jogos no Canadá e México.

O pesadelo organizacional ainda fica mais complicado se for considerado que o país ou continente sede tenha de receber 48 torcidas diferentes e garantir a segurança de todos esses grupos.

RISCOS
Entre os críticos das propostas, o principal temor é de que o que parece ser um salto na renda acabe sendo um tiro no pé na qualidade do torneio. Patrick Nally, o homem que montou o esquema de marketing da Copa nos anos 70, alertou que a expansão pode acabar reduzindo o valor do torneio, diante do exagero de jogos.

Em 2016, pela primeira vez em 30 anos, houve uma fatiga na audiência na Inglaterra em relação ao futebol. A conclusão foi de que havia “muitos jogos” ao vivo. Para a Fifa, isso seria compensado por novos territórios e populações que passariam a fazer parte da “festa”.

A meta também é de ter 60% da população mundial envolvida no futebol nos próximos dez anos, consolidando a modalidade como o esporte mais popular – e rentável – do planeta.

PODER
Outro impacto será na divisão de vagas por cada continente. Infantino havia prometido, para ser eleito, que abriria espaço para novas regiões do mundo. A tática foi a mesma usada por João Havelange nos anos 70 para conseguir se consolidar no poder. Com a aprovação, Infantino tem grandes chances de se eleger uma vez mais em 2019.

Nos próximos meses, haverá um debate sobre como serão repartidas as vagas para o torneio. Mas tudo indica que a América do Sul possa ter 6,5 vagas, contra 9,5 para a África, 8,5 para os asiáticos, 16 para europeus, 6,5 para Concacaf e uma para a Oceania.

Com a expansão, a Fifa ainda vai distribuir US$ 1 bilhão às federações a partir de 2026 e apenas por entrar no evento um país pode ficar com pelo menos US$ 8 milhões.

Para acalmar os clubes europeus, a Fifa ainda promete uma série de medidas: limitar a nova Copa a 32 dias, o fim da Copa das Confederações e o fim da obrigatoriedade de liberar jogadores para a Olimpíada.

Por trás dos massacres

Editorial - Estadão
O que está por trás dos massacres nas prisões do Amazonas e de Roraima – que chocaram o País e podem se repetir em outros Estados – é algo ainda mais ameaçador do que se poderia imaginar, como mostra reportagem do Estado publicada no domingo. Ele está expresso tanto nos altos níveis de organização e planejamento dos grupos criminosos que controlam de fato as penitenciárias como na luta que os maiores deles travam pelo predomínio no sistema e, fora dele, pelo controle do tráfico de drogas. Em outras palavras, os presídios, que deveriam ser território sob a guarda e cuidados exclusivos do Estado – até porque é para lá que são mandados aqueles que atentam contra a segurança dos cidadãos –, tornaram-se feudos dos bandidos. As autoridades carcerárias, que lá deveriam manter a ordem e a disciplina, são hoje subordinadas, voluntariamente ou não, àqueles que fazem o favor de se intitular presos. São os bandidos que mandam e as autoridades, querendo ou não, que obedecem.

De acordo com autoridades policiais e do Ministério Público que investigam o crime organizado, são 27 os grupos que agem nas prisões. Os dois principais protagonistas dessa “guerra” – o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, o maior deles, e o Comando Vermelho (CV), do Rio, que vem logo em seguida – buscam se aliar com os outros 25. Entre estes, começa a se destacar a Família do Norte (FDN), que se aliou ao CV e com ele promoveu o massacre de integrantes do PCC no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus, no dia 1.º. Logo seguido, como vingança do PCC, pelo da Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, em Roraima.

O que está em jogo é o controle do tráfico de drogas e armas nas fronteiras com Paraguai, Bolívia, Peru e Colômbia. Um negócio milionário, que explica a ferocidade da disputa. O assassinato pelo PCC de um importante traficante que atuava na fronteira com o Paraguai, em junho do ano passado, reforçou sua posição naquela área e provocou a ruptura com o CV, até então seu aliado, e iniciou a disputa entre os dois grupos.

Hoje o grande objetivo dos dois é o controle do tráfico na região amazônica, vizinha dos três maiores produtores de cocaína do mundo: Colômbia, Peru e Bolívia. Além da droga, a Colômbia teria se transformado também, junto com o Paraguai, em outra importante entrada de armas, vendidas por dissidentes das Farc que acabam de assinar acordo de paz com o governo de Bogotá. E nesse ponto a posição dos bandidos ligados à FDN, forte na região e aliada do CV, é decisiva na luta contra o PCC.

O sistema penitenciário continua decisivo para todos esses grupos, porque é a sua principal base de comando e planejamento – que lhes permite agir sob a proteção do Estado, ou como se o Estado fossem –, e cujo domínio é facilitado pelas condições degradantes em que vive a massa dos presos. Mas o grosso de seus negócios há muito está fora dele. Na mais lucrativa atividade criminosa, que é o tráfico de drogas, que para continuar prosperando exige a facilidade de passagem por aquelas fronteiras. Esse ponto precisa estar sempre presente para se entender a natureza e a magnitude do problema com que o País está às voltas.

Esses grupos criminosos surgiram, organizaram-se, agigantaram-se, multiplicaram-se e mudaram seu ramo de “negócios” – a ponto de se tornarem uma ameaça de altíssimo grau à segurança pública – sob as barbas das autoridades, dentro de espaços sob a responsabilidade delas. Como foi possível ninguém ter visto nada, ao longo de décadas? Ou ter fechado os olhos?

Nossos cartéis de drogas estão aí, traficando em escala cada vez maior e, no momento, travando uma cruel disputa que envolve, em combinações diversas, 27 grupos. Uma guerra de ferocidade típica do que se sabe da ação do tráfico em outros países, e na qual esse grupos desafiam abertamente o Estado, e zombam dele. A análise que faz a desembargadora Ivana David, do Tribunal de Justiça de São Paulo, é precisa. Nos massacres, diz ela, os presos agem abertamente, sem temor: “Eles matam e filmam como se ninguém, nenhuma autoridade estivesse ali. Eles mostram para a sociedade que não têm medo de retaliações”. Essa falta de temor mínimo do Estado é altamente preocupante.

Um desafio que não pode ficar sem resposta. E não uma resposta qualquer, para inglês ver. Mas uma forte o suficiente – e articulada pelos Três Poderes, em todos os seus níveis – para começar a repor as coisas em seus devidos lugares. E o mais rápido possível.

Meu último desejo

Por Arnaldo Jabor - Estadão
“Sim, senhores, eu vou contar tudo que aconteceu e que me levou a estar aqui depondo no FBI. Sim, vou chegar ao meu crime, mas antes devo dizer a vocês, senhores policiais, que tudo começou quando surgiram dores insuportáveis nos meus ossos. Fiz todos os procedimentos clínicos e voltei para saber do resultado.

O médico conferia meus exames e eu não gostei de sua cara. Ele visivelmente tentava um sorriso calmo e ganhava tempo para me dar o diagnóstico. Eu olhava seu consultório, esperando: um elefante de prata na mesinha, órgãos embalsamados em vidros numa estante: um rim, pedaços de músculos, ossos e, estranha coisa, num canto da sala pendurado do teto, um grande mamulengo, um boneco nordestino, pendurado como um cristo enforcado. Finalmente, o médico me olhou. Ele estava com medo ao me dizer que exames não eram bons e meu deu a sentença: ‘Creio que não vale a pena operar, pois... (surgiu a verdade como uma facada) houve metástase da coluna para as vértebras, indo até o fígado, de modo que...’.

– O quê?... perguntei com uma gota de esperança.

– Ao senhor só resta esperar e... aproveitar a família e amigos, a vida que ainda tem.

– Não tenho mais família.

O médico sorriu amargamente.

– Realize seus desejos...

– Quanto tempo? – perguntei.

– Difícil dizer; três, quatro meses...

A janela estava roxa do crepúsculo.

Quando eu saí pela rua, pensava – que desejos? Eu ainda não sabia, Mr. Officer. Eu sofria como um cão, mas apossou-se de mim uma estranha calmaria, um sossego com a perda da esperança. Finalmente, eu tinha um destino traçado. Eu carregava a tragédia pelas ruas como um segredo valioso – ninguém sabia de si, a não ser eu.

Entrei em casa e não olhei o espelho, com medo de não ser refletido. Minha casa só tinha móveis, não tinha ninguém. Nem o cachorro que desisti de comprar, achando-me ridículo com um lulu da Pomerânia assistindo ao meu declínio.

Ocorreu-me, antes de tudo, o sexo. Mergulhei em puteiros sofisticados, onde colhia flores num jardim de mulheres. Em pouco tempo, cansei de ver as meninas com medo de meus gritos no orgasmo, como uma dor lancinante. Drogas, sim; tomei sim, Mr. Officer, elas matam aos poucos, mas e daí? Nada de pó vagabundo, eu tinha posses, graças a Deus, e podia comprar cocaína de Santa Cruz de La Sierra, pó em que o baque durava horas de euforia doida, seguida sempre de depressões devastadoras, lágrimas e vômitos.

Meu desejo qual é?, pensava, andando pelas ruas imundas do Rio falido: obesos se arrastando, meninos jogando bolinha nos sinais, travestis sem fregueses com a maquiagem escorrendo, uma puta leprosa dançando na rua. Finalmente, tive a certeza: vou embora dessa merda de País. Vou curtir lá fora. Primeira classe. Graças a Deus, dinheiro eu tinha.

Nova York sempre me deu a sensação de felicidade vitoriosa. Mas, agora, pairava sobre a cidade uma névoa invisível, como uma grande depressão sobre os arranha-céus. Rostos baixos, discussões ríspidas sem motivo, o taxista paquistanês queria me dar porrada, os museus estavam vazios e mesmo obras de grande arte me pareciam inúteis agora: para quê?

Andava pelas avenidas, vendo rostos sofridos, pensando na minha morte cada vez mais próxima. Minhas dores amainaram, através de mil gotas de morfina que, soube, já consolava sofrimentos desde o tempo dos faraós. Imaginei-me um faraó sem dor no alto do Empire State, de onde olhei a cidade triste. Quem sou eu, faraó inútil, que nunca fez nada pela pátria ou raça? Não era possível minha vida passar em brancas nuvens.

Mas como encontrar felicidade nos parcos dias que me restam? As torres gêmeas já não existiam. Osama deve ter morrido com orgulho pelo seu horrendo crime. Alguma coisa relevante eu tinha de fazer. Como ele.

Na loja de armas, vi o belíssimo rifle de assalto F2000, construído pela FN Herstal na Bélgica, municiado com calibre 5.56x45mm. Como são belas as armas mortais! Depois de comprá-la, sob o olhar suspeitoso do vendedor, me senti poderoso e até com uma ponta de esperança. A esperança é a última que morre, diziam, mas no meu caso era a primeira. Ha, ha... Desculpe-me, Mr. Officer, mas esses detalhes são para que todos entendam a importância do meu gesto.

Alguma coisa tinha se perdido em NY. Os negros passavam por mim e voltaram a ter aquela palidez antiga, quando humilhados nos anos 60. Jovens passavam sem rir. Mulheres nervosas apressavam-se com olhos temerosos. Imenso aumento de ‘sem-teto’ no metrô. Era Natal, mas até a famosa árvore do Rockefeller Center estava quase apagada, com ramos descaídos.

O Hotel Waldorf Astoria, inaugurado em 1931, abrigava os participantes de uma ‘cúpula’, para tentar alguma solução para o trágico Ocidente agora desorientado. A humanidade vivia em suspense, sob delírios irracionais, totalitários. Grandes perigos rondavam depois das últimas eleições americanas. Até guerra nuclear voltou a ser possível.

Eu estava em frente ao hotel, bem-vestido, maquiado para esconder a doença, com uma aparência impecável, mascarando minha lenta agonia.

Foi então que tudo começou a acontecer, Mr. Officer. Surgiu na porta art déco do hotel a grande comitiva que eu esperava, imóvel na calçada.

Os líderes mundiais saíam, sorridentes, como se o mundo fosse uma primavera. Eu tinha parado com a morfina, pois queria sentir a dor do meu desejo. Trêmulo de sofrimento, meu rifle F2000 começou a atirar.

Minha dor era mesclada a um certo triunfo, ao ver o monte de seguranças tentando salvar o corpo que caíra, trespassado por minhas balas calibre 5.56. E vós, police officers, podem me matar, cadeira elétrica, forca, o que quiserem. Dane-se; eu só tenho um mês de vida mesmo.

Mas, graças a Deus, usei esse tempo para ajudar a acabar com o pesadelo americano.

Antes de vocês me prenderem, a última imagem que vi foram cabelos alaranjados, junto à sarjeta, cabelos de um corpo enorme, como um grande urso feroz ou um imenso periquito ensanguentado. Vou morrer, tudo bem, mas ajudei a salvar a humanidade.”