quinta-feira, 19 de junho de 2014

Maromba - de Emir Bemerguy - Capítulo 16


– O PADRE E O CATEQUISTA –
No jantar, os deliciosos quitutes do gordo peixe-boi ajustaram-se a todos os paladares, pois Maria Flor é cozinheira muito competente. A refeição está quase terminando e, após limpar os lábios com a mão, ela participa a novidade: – O Frei Arnardo teve aqui huje. Chegu na vuadeira dele e veio convidar nós pra Missa, dumingo que vem, lá na capela do Paricatuba. Fazia três mês que ele não podia viajar pra cá, porque anda muito avexado com a enchente.

Lutando para engolir uma reforçada porção de alimento, Antônio toma uns goles de água e concorda: – Tá bom. Nós vamo arrumar um jeito de ir. A gente tá rezando pouco. Só essa ladainha de Nossa Senhora e uns quatro curto dominicar por ano não dá, não.

Maria sempre foi mais piedosa – ou menos relaxada – que o ignorante esposo. Animando-se com sua imediata adesão, ela acrescenta sábios argumentos: – É isso aí. O cristão percisa mesmo ter mais hora de reza do que urubu tem de vôo. Já faz uns uito mês que a gente não sabemo o que é Missa e eu nem me alembro quando nós teve no úrtimo curto dominicar. Vute!

Tosse, expelindo um transviado caroço de farinha e encerra o pequeno sermão: – É por isso que tanta consumição tem pressiguido nós. Se a gente véve de bunda virada pra Deus, Ele também fica de costas pros caboco. – Eu faço minhas reza tuda noite – assegura Zé Potoca, enquanto limpa os dentes com a ponta do garfo. Duvido que esse preto durma sem fazer na testa o sinar da cruz. Portege a gente do cão, de arma penada e de mau ulhado!

– Bem – interfere novamente o dono da casa. Farta nós acertar o jeito de subir lá pro Paricatuba. Que parpite tu dá, Zé?

Antes, porém, que o pensativo afilhado sugira uma alternativa qualquer, Maria Flor propõe: – O seu Romuardo Bicudo, lá do Garapé do Matupiri, tem quatro filho homem. Se nós mandar um recado pra ele, nós arruma dois pra trabalhar dumingo no corte do capim. A gente pagamo eles com peixe-bui sargado e duas garrafa de cachaça, eu sei que eles aceita. São protestante, não querem saber de Missa nem de padre. Mas a religião deles deixa beber cana.

–Mas a senhora é danada mesmo, minha madrinha! – exclama, encantado, o negro Zé Potoca. Eu tava maginando outras bestera, mas nunca ia mardar uma coisa dessa.

Concluindo as confabulações, o patrão elabora o esquema para que se ponha em prática a idéia da engenhosa esposa. Hoje é sexta-feira. Quando voltarem, no sábado, da colheita da forragem, passarão pela fazenda de Romualdo Bicudo.

Não surgem obstáculos. O vizinho (a três quilômetros de distância...) logo se prontifica a ceder os robustos rapazes e também uma filha para vigiar a residência dos amigos. Só não aceita a cachaça, porque mudaram de seita: agora são Testemunhas de Jeová e “os meninos não tenham quarquer viço, além de mulher”. Em lugar da aguardente, Antônio lhes fornecerá um pouco de querosene.

É assim que, às sete da manhã do ensolarado e bendito domingo, o último de maio, a família toda, inclusive o cachorro “Desacato”, sobe o Amazonas no “Flô das onda II”, em direção ao Paricatuba. Um alegre vento geral balança mansamente o barco, pondo risonhos contentamentos nesses corações com várias feridas em início de cicatrização. Ao menos durante um dia, eles estarão livres da desgastante briga com o rio.

Já se concentram umas cem pessoas no grande barracão que funciona como capela de toda a redondeza. Frei Arnaldo Smith, o sacerdote estadunidense, e o catequista Miracildo Coelho serão as estrelas da liturgia. O padre ouve confissões e o caboclo arruma com esmero a mesa onde se há de celebrar a Missa.

Ficando um pouco para trás, Antônio Presidente diz à Zé Potoca, apontando com um bico formado pelos lábios: – Vigia só quem vai ali...

– Eu já vi aquela vaca, meu padrinho – responde, sério, o rapaz.

Trata-se de Mundinha, filha de Mário Catinga-de-mulata, ex-quase-futura noiva do bom crioulo. Dengosa, derreia-se no braço de um matuto com cara de porco-espinho e calça arregaçada de um lado...

Entram no templo. Como já são mais de nove horas, a Eucaristia começará com atraso, pois na fila do improvisado confessionário – uma cadeira anexada a um caixote, que é o genuflexório – esperam diversas pessoas. Para prender as atenções da caboclada inquieta, o catequista passa a ensaiar alguns hinos, puxando os cânticos com uma voz de taboca rachada, porém de irrepreensível afinação.

É impressionante a participação dessa maltratada gente: quase todos, a plenos pulmões, louvam a Deus e à Virgem Maria através das letras singelas e expressivas, adaptadas à sua mentalidade. Isto, no entanto, tem uma explicação: a diocese de Santarém concentra uma das mais notáveis obras catequéticas do mundo católico. Cerca de três mil homens e mulheres, cuidadosamente preparados em cursos regulares, na cidade, substituem os poucos sacerdotes disponíveis, dirigindo o chamado “Culto dominical” de todas as semanas. É uma liturgia em que praticamente só falta a consagração das hóstias. Como a maioria dos varzeiros participa assiduamente dessa assembléias comunitárias, os ribeirinhos sabem de cor as piedosas canções.

Pouco antes das dez horas o padre inicia, finalmente, a celebração. Embora esteja na Amazônia há uma década, o franciscano originário do Texas maneja precariamente o idioma brasileiro. Mas sempre se faz entender pelos simplórios ouvintes das comunidades interioranas que visita, em intermináveis e penosos rodízios apostólicos.

Após a leitura do milagre da multiplicação dos pães, o sacerdote profere uma homilia alusiva às agruras da grande enchente. Diz, em certo instante de entusiasmo: – A cheia é ruim, meus queridos irmãos, não pela vontade de Deus, mas por causa da má vontade dos homens. Se os graúdos quisessem, se fossem eles que sofressem aqui como vocês, logo endireitariam esse rio, dando um jeito de corrigir o seu curso. Vocês teriam mais assistência e esses promesseiros não iriam aparecer na várzea só em véspera de eleições ou quando as desgraças são maiores, como agora, para depois dizerem no rádio e no jornal, que são os salvadores da pátria.

Lá no fundo, uma irreverente intervenção é ouvida por todos: – Tome cuidado, seu padre! O senhô é gringo e cumeça aí a fazer cumício contra o gumverno. Os sordado da polícia acaba encanando o senhô..

Estabelecendo-se um princípio de revoltada algazarra na platéia, Miracildo, o catequista, brada, com voz firme: – Respeita a Casa de Deus, seu bêbado!

Contudo, uns quatro fiéis já vão levando para fora o atrevido aparteante. Trata-se de Bené Gambira, lá do Atumã. Tomou umas antes da Missa e, metido a comunistóide, resolveu ameaçar o franciscano em pleno sermão. Até ao fim do ato litúrgico não ocorre mais nenhum incidente.

Encerrada a celebração, o povo espalha-se pelo imenso terreiro, onde se amontoam bancas de venda de café com bolos, mingaus e “rala-rala”, com gelo trazido na véspera da cidade, e conservado em caixotes com serragem de madeira. Até moleques com tabuleiros de pirulito e paçoca trançam pelo meio dos grupos que já se formam. Aos gritos, eles tentam vender os pobres atrativos.

Não só os meninos, mas, sobretudo, os castigados adultos sempre consideram essas raras e gostosas interrupções de uma rotina aniquiladora, um ameno deleite, que precisa ser devidamente saboreado. E se reúnem a rir, a conversar, comentando a inundação, dividindo esperanças, fazendo as tristezas ficarem menores ao reparti-las em fatias distribuídas entre os irmãos de calvário.

– O Divino Esprito Santo esse ano caiu muito tarde no calendaro – ensina Mário Catinga-de-mulata. É por isso que a gente tamo com essa água disconforme. Mas ontem eu arreparei, não sei se vocês viram: a Lua tava virada pra banda da cidade. É sinar seguro de vazante.

Assentindo com a cabeça, Mingote Pica-pau torce ligeiramente o assunto, embora permanecendo na mesma linha... fluvial: – Transantontem eu e o Raimundo Cuiteua corremo da bichona. – Conta, conta como foi! – pede Zé Potoca, sempre doido por um “causo”. Conta, que dispôs eu sorto a minha.

– Conta, conta, Mingote! – insistem todos, ajeitando-se confortavelmente no chão varrido.

Vão sair as últimas da cobra grande...

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Maromba - de Emir Bemerguy - Capítulo 15


– O PEIXE-BOI  –
É sempre assim. Quando um perigo – seja bicho feroz, fogo, doença ou bala – nos amedronta e fere a alma, fica, durante algum tempo ou definitivamente, dependendo da coragem com que cada qual enfrenta a vida, fica um um complexo, um medo no pensamento e no coração torturado. Teme-se que a dose brutal de lágrimas se repita, pois dizem que as desgraças costumam chegar aos pares.

Na “Fazenda Apuizeiro”, após o enterro de Toninho, a relativa serenidade interior das pessoas andou muito abalada com a “neurose da cobra”. Receava-se que o par da sucuriju assassina estivesse a rondar por perto, em busca da companheira ou de alimento. Daí as cautelas, as advertências, os sustos ante qualquer coisa que parecesses com a infernal serpente. No entanto, ao correrem os dias com sua carga massacrante de tarefas e preocupações de outra espécie, a psicose foi diminuindo até que se extinguiu.

Zé Potoca vai descendo para desamarrar o batelão do capim. Ainda está escuro, pois são apenas quatro horas da madrugada. Ao conseguir entrar no barco, ele tem de conter uma espantada e alegre exclamação, que sai em voz baixa de seus lábios grossos: – Oba!... Muito pai-d’égua!... Hoje a gente não vamo dar murro no varejão!

Eis a razão da repentina euforia que lhe enche a alma de luz, antes mesmo de brilhar o clarão da aurora: acaba de enxergar, ali pertinho, um imenso matupá – ilhota de canarana e outros vegetais comestíveis – que encalhou na margem com a ventania da noite. Retida pela maromba, aí está ela, numa imprevista colher de chá atirada pela Mãezinha do Céu. Subindo no estrado, o vaqueiro examina bem a avantajada bolota de pasto e conclui, satisfeito, que os bois terão alimento para quase três dias, desde que se divida o presentão com engenho e arte. Antônio Presidente aparece, já pronto para viajar, e é recebido com espalhafato: – Eita, meu padrinho! Muito pai-d’égua! A gente hoje tamo por cima! Venha ver essa bacanagem: tem capim que nem ladrão acaba!

Presidente olha a forragem que chegou, de bubuia, na correnteza do Amazonas, e diz, algo preocupado: – Graças a Deus. Mas eu vou já chamar a Maria e os dois curumim maior pra ajudar nós. A gente tem que se avexar porque o rio tá correndo como o diabo gosta e essa porqueira fica aí forcejando em cima da maromba. Vumbora se virar, caboco!

Tão intensa é a atividade conjunta da família que, às sete da manhã, todo o capim foi retirado da ilhota. Potoca ainda teve que matar uma surucucu-pico-de-jaca. Por um triz ela não lhe acertou a picada, fatal se não houver socorro imediato. Depois de concluído o serviço, num violento esforço final, a turma desprende dos esteios da maromba a massa careca. Muito lentamente, lá se vai o bagaço, à deriva, no rumo de baixo...

Terminada a labuta não programada, o dono da fazenda lembra-se de uma notícia que lhe haviam dado e propõe ao companheiro: – Zé, o Totó Pica-pau me disse que anda boiando uns peixe-boi lá naquela restinga do Sovaco da Velha. Nós tamo meio forgado hoje. Vamo ver se a gente estragamo um corno desse? – Vumbora, meu padrinho! – aquiesce, entusiasmado, o leal caboclo. Já faz bem uns três ano que nós não matamo um peixe-boi.

Maria Flor intervém, complascente: – Vão mesmo se divertir um bucadinho. Vocês tenham sufrido mais do que cangote de estivador. A Mãezinha do Céu havera de abençoar essa pescaria, pois huje a santinha acurdô inda mais camarada. Mandou o rio despejar até capim na nossa porta. – Papai, deixe eu ir com o senhô! – pede Raimundinho, que, agora é o mais velho.

– Não, meu filho. Tu tem que ajudar tua mãe – responde-lhe o pai, arrumando coisas para a viagem.

– Que nada, Antônio! Leva o menino. Deixa que eu me ajeito com os outros – sentencia a esposa, com autoridade.

– Pois vumbora, moleque! – concorda Presidente. Mas o peixe é velhaco que nem rato. Se tu atrapalhar nós, eu te meto peia. Veste uma camisa, põe o chapéu e vumbora.

Sai o barco “Flô das onda II”, que deverá navegar durante hora e meia para que se chegue ao local pretendido. Olhando a desolação da paisagem que vai surgindo ao longo do caminho, com as casas quase totalmente no fundo, o crioulo fala alto, para superar o ruído da máquina: – Meu padrinho! – Que é?! – Quando nós parar eu quero lhe dizer uma coisa! – limita-se a prevenir Zé Potoca, que de vez em quando tem uns rompantes idiotas.

Chegando o bote às proximidades do lugar procurado, o fazendeiro desliga o motor. Eles devem prosseguir, agora, a varejão, tanto por motivo do capinzal espesso, como para não afugentar os ariscos peixes que desejam arpoar. Cessada a barulheira da máquina, pergunta Presidente: – Que diabo então tu quer comigo, rapaz? – Não é nada, não, padrinho. Eu ouvi dizer que quando a água tufa muito aqui na varja, ela seca num tar de Ceará e outros país. Então eu fico mardando assim: puxa vida, Deus até que faz as coisa bem pai-d’’egua!

Pega a cuia do porão e vai movimentando a vasilha conforme as palavras que pronuncia: – A terra é paresque uma baita cuia, uma cuiona do tamanho do céu. Então, quando Deus entorta ela pra este lado, enche aqui e fica seco lá. Se Ele emborca ela ao contrário, enche no Brasir e vaza aqui. Não é? – Sei lá, homem! – retruca Antônio, fazendo força na vara. Tu sai com cada arrumação insquisita! Eu nunca estudei essa tar de Ingronomia pra conhecer essas porquera direito. Mas vamo calar logo a buca, senão a gente não pegamo nem baiacu! – encerra, ríspido, o padrinho, que nunca teve grande paciência nesses momentos de original loquacidade do benquisto xerimbabo.

Antes de iniciar a tocaia, Presidente instrui muito bem o filho calouro: o peixe-boi tem o ouvido altamente sensível e, por isso, qualquer barulhinho, quando ele vem à tona, espanta o animal. Nem fósforo risca-se na canoa.

Agasalhados num esconderijo que lhes parece bom, todos ficam quietos e silenciosos. O esposo de Maria Flor segura o arpão firmemente preso a uma longa vara de pau-d’arco, ligada a um resistente cordel plástico de cem metros de comprimento.

Não transcorreu ainda meia hora de espera, quando o que eles chamam de “bezerro” – o filhotão do peixe-boi – emerge, perto. Com a máxima cautela, Presidente ergue o braço para lançar o ferro, mas nesse crucial instante o impossível acontece: – Atchim!... – espirra, com estardalhaço, Raimundinho!

– Seu cachurro do cão! – explode, furioso, o pai, aplicando-lhe dois cascudos. Tu fez o peixe fugir, moleque sem-vergonha! Mardita hora em que eu arresorvi trazer essa peste! Vá ser panema assim na baixa da égua! Vute!

– Eu não agüentei mais, papai! – explica, a chorar, o desastrado menino. Já fazia um bocado que meu nariz tava coçando. – Cala já essa buca suja, curumim perebento, senão eu te bando a cabeça com essa vara!

Ficam quietos, de novo. Em períodos mais ou menos regulares, o estranho peixe sobe para respirar e comer o capim da superfície. Todavia, se toma um susto, pode ir embora e não voltar mais, indo reaparecer num local muito distante.

A paciente vigília já se prolonga por duas horas, quando, sem dizer nada, Antônio leva o dedo indicador aos lábios, num gesto em que exige completa imobilidade. Algumas bolhas espumantes anunciam a presença iminente da cobiçada embiara. Primeiro, surge um focinho avermelhado e, depois, uma parte do cinzento dorso. De pé, o caboclo solta vigorosamente o arpão que penetra, fundo, no lombo do animal. Agora, podem falar e espirrar à vontade, porque a bóia está segura...

No desespero da dor, o bichão dispara pelo capinzal, arrastando consigo todo o peso do barco e de seus três ocupantes. Firme, no banco da proa, o experiente pescador segura a corda. Não sendo muito grande, logo o fujão há de se deter, extenuado.

Cinco minutos depois, emaranhando-se numa galharia do igapó, o peixe pára, exausto, mas ainda sacudindo raivosamente o rabo em forma de pá. Com todo o cuidado, Antônio enfia uma cunha de madeira roliça numa das narinas do boi aquático, fazendo-o agitar-se com ligeira e ainda perigosa violência. Tenta, inclusive, arrancar o tarugo que lhe meteram na venta, acionando a insólita nadadeira lateral que possui na parte anterior do ventre. Entretanto, ao receber o segundo rolo na outra narina, ele é convulsionado pelos derradeiros espasmos agônicos e... está morto. Agora, bóia, de barriga para cima.

É com muito trabalho que a trinca de varzeiros consegue embarcar a grotesca figura biológica, apesar de serem relativamente modestas as suas dimensões: deve pesar uns cento e vinte quilos, quando até de duzentos ou mais se pode apanhá-los. Trata-se de um peixe com hábitos singulares, desde que vive na água, alimenta-se de capim e “fisionomicamente” faz lembrar um boi. Apresenta cinco dedos sob o couro de duas patas-nadadeiras e, com o corpo redondo, aerodinâmico, dá a impressão de uma descomunal e acinzentada melancia.

O Sol já vai assinalando quatro horas da tarde no momento em que o “Flô das onda II” zarpa de volta à fazenda. A bóia anda tão escassa em toda a várzea que, durante dias seguidos, só conseguem os caboclos enganar o estômago com os mandis e piranhas fisgados pelos meninos, que jogam o anzol da varanda ou da cozinha. O grosso dos cardumes está embrenhado nos igapós, engordando para as piracaias do verão. Alegre com o êxito da pescaria, Presidente grita, rindo, para Raimundinho, o autor da inédita façanha espirratória: – Mas tu é um bestão mesmo, meu filho! Então quando eu ia arpoando o bichão, tu sortou um disconforme dum espirro que butô até arma penada pra correr? – Gargalha, sacudindo-se, e acrescenta: – É muita uruca prum curumim desse tamanho! Tua mãe percisa rezar pra ver se tu fica menos panema. Vute!

E os três riem muito, acariciando, vez por outra, o falecido e imenso peixe-boi...

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Maromba - de Emir Bemerguy - Capítulo 14


– A SUCURIJU –
A tarde já vai mostrando os sintomas iniciais do mal galopante que, dentro de uma hora, por entre desmaios e rubores, há de levá-la ao suspiro derradeiro. Maria Flor esfrega umas roupas das crianças nos degraus da escadinha dos fundos, quando um dos meninos grita: – Mamãe, a sucuriju pegou o patarrão! ...

A mulher corre, mas Antônio, que regressa da maromba onde estava cuidando das reses, dá vigorosas remadas na montaria e parte no rumo indicado pelo garoto, que disse ter visto a cobra fugir para as bandas do aningal próximo. Como, porém, o local já está parcialmente no fundo e é muito feio, o caboclo, depois de navegar um pedaço, reconhece que não adianta perseguir agora a temida serpente. Preocupado, pergunta ao filho: – Tu viu ela? De que tamanho era? – Eu não vi bem o tamanho. Mas paresque era grandona e assim da grossura de uma lata de leite “Ninho”.

Quieto, no pontalete da canoa, o varzeiro calcula que, se é correta a informação do guri, deve ser uma cobra para uns três ou quatro metros, no mínimo. É um desassossego a mais, neste fim de mundo, saber-se que passeia pelo quintal alagado uma traiçoeira e aterrorizante sucuri, a fera que mata se enroscando com tremenda força no corpo da embiara que lhe cai no bote – seja pato, boi ou gente.

Quarenta e oito horas mais tarde, o ramerrão de outro dia insuportavelmente igual aos anteriores e vindouros está quase encerrando. Terminou-se de inspecionar as quatro dezenas de animais restantes e foi preciso jogar, lá no meio do rio, uma esquelética novilha morta pela manhã. Só de olhar os esfomeados bichos em cima do estrado, Antônio sente um desespero a lhe pungir o coração. Contam-se as costelas de cada um e os pontiagudos ossos das ancas estão quase varando o couro, tal a magreza do gado. Se a vazante demorar, ele não tem dúvida de que os prejuízos serão totais.

Entardece. Cansado, o Sol se apóia sobre as copas da mataria azul, reunindo esforços e coragem para o mergulho no desconhecido, de onde boiará, de manhãzinha, consumando o milagre triunfal de um novo dia. Entretanto, ainda está bem claro e Antônio Presidente atira a primeira cuia com água sobre o corpo, num gostoso banho, quando reboa pelo ar o berro horrível: – Aaaiii!... Papaaaiii!...

– A sucuriju pegou o Tuninho! – denuncia, espavorida, a irmã de sete anos.

Como um raio, Maria Flor, que costurava, pula n’água, com a tesoura grande na mão.

– Deixa comigo! – brada, enérgico, o marido, correndo com o facão afiado. Dá uma trombada na menina, atirando-a longe e salta quase em cima do monstro que aperta a esperneante criança em suas roscas fatais!

Com indizível pavor nos olhos esbugalhados, lutando desesperadamente para se livrar da triturante pressão, ruge a inocência martirizada: – Aaaiii!... Papaaaiii!... Me sarve, papaizinho!... Meus osso tão quebrando!... Mamãezinha do meu coração! Aaaiii!...

Os quatro irmãos da vítima fazem tremendo alarido de medo e compaixão, enquanto se trava formidável combate aquático. Sua simples visão é suficiente para fulminar covardes ou cardíacos. Maria Flor conseguiu agarrar a cabeçorra da enorme cobra e tenta introduzir a tesoura em seus olhos, pondo, na briga desigual, toda a força que lhe dá a alma rasgada de dor e ódio. Escancarando a bocarra onde se agita a língua bífida, a serpente procura morder o rosto da valente mãe.

Louco de fúria, Presidente acerta a primeira terçada na fera, que logo começa a afrouxar o torniquete assassino, dando rabanadas violentas que fazem um escachoante tumulto na água suja. Repetindo, vezes sem conta, os violentos golpes, o alucinado pai termina matando a sucuriju. Mas, quando retira o menino daquele inferno de sangue e lama, compreende, com um profundo soluço, que tudo foi inútil: toda fraturada, a criança acaba de morrer, por asfixia! Recebera o bote fatídico da cobra quando brincava na escada do alpendre.

Antônio não chora há muitos anos e nem saberia dizer quando isso ocorreu pela última vez. Todavia, com o garoto morto nos braços, exausto da luta feroz, o pobre pai, agasalhando o cadáver sobre a mesa da cozinha, não consegue reter o pranto convulsivo. O rio acaba de lhe roubar o segundo filho em menos de três meses!

Entrando um pouco depois, Zé Potoca nem precisa perguntar nada: viu o monstro estraçalhado lá na porta e, de longe, escutara o berreiro pavoroso. Limita-se a curvar a cabeça sobre o peito nu, lagrimando em silêncio. Dos cinco meninos, esse era sempre o mais amigo do crioulo. Está, assim, outra vez enlutada e em tão dolorosas circunstâncias, a bela “Fazenda Apuizeiro”.

Aplacada a tempestuosa crise emocional que agitava Maria Flor e postos em calma os chorosos maninhos do falecido, passa-se a fazer o que a vida (ou a morte?) exige: mandar avisos à vizinhança através do prestativo afilhado e preparar o velório do pequeno defunto, para, no dia seguinte, conduzi-lo ao cemitério de Paricatuba. No entanto, fazendo das tripas coração, Antônio ainda vai substituir o vaqueiro no fornecimento do capim para a pequena boiada. É que, na várzea, até o sofrimento, às vezes, se torna um luxo proibido.

Antônio e Maria não dormem um minuto sequer nessa noite, arrastada e interminável como soro pingando em veia de doente. Além da mágoa dilacerante de um filho a menos, o caboclo tem seu martírio ampliado por uma amarga sensação de culpa: acha que deveria Ter morto a sucuriju de qualquer maneira, quando ela pegou o pato. A esposa, porém, já lhe disse, com o apoio de todos os amigos presentes: – Tira isso da cabeça! Era o dia dele. Se tu havera de matar essa marvada, o cão mandava logo outra mais grande do que ela. Foi a vontade de Deus.

É impossível acreditar, contudo, por mais fatalista que se consiga ser, que o Senhor de todas as misericórdias tenha desejado mesmo que uma criança morresse tão pavorosamente assim.

Às duas horas da fria madrugada, com os caboclos jogando baralho, na cozinha, para espantar o sono, começam os dois cônjuges a conversar, a prestações e em voz baixa, debruçados no parapeito do alpendre: – Essa nossa vida, Maria, tá mesmo um causo sério – principia, hesitante, o marido.

Ele nunca mais fumara. Contudo, para acalmar os nervos esfrangalhados, pita um cigarro que enrolou durante dez minutos, já sem a prática antiga. Contra os seus hábitos de tagarelice, a mulher continua muda, a olhar, de mãos no queixo, um ponto invisível na cara da noite escura. Mais alguns momentos transcorrem. Como quem pensa alto, Presidente fala, de novo: – Nem que nós havera de se acabar tudinho em boca de cobra ou jacaré, eu juro que não arredo pé daqui pra canto argum. Para onde, então, a gente podia se mudar? Pra murrer de fome na cidade, é mais melhor penar na varja. Pelo meno no verão a gente não véve desinfeliz.

Suspirando fundo, Maria Flor concorda, embora com alguma grosseria: – Não fica pensando bestera, homem. Eu só ia de vez morar na cidade se fosse presa por sordado e levada para o xilindró. Aqui a gente pega bote e dentada de cobra, ferrada de caba, arraia e lacrau. Lá é carro que mata, é bandido que assarta, é ruindade de patrão e ortoridade que só quer os pobre como inleitor, engraxate e lavadeira. Tisconjuro!

Por toda a redondeza, sapos seresteiro e insones continuam a ensaiar, em conjunto, a mesma interminável e áspera sinfonia e o fazem como quem raspa fundo de cuia com caco de vidro: – Crrrrôooo!... Crrrrôooo!... Crrrrôooo!...

Como contraponto ao monótono coral, uma rês faminta, ou agonizante, faz a segunda voz lá na maromba: – Muuuuuú!...

Dando um tapa no próprio rosto, como autoflagelação, mas, em verdade, esfarelando um carapanã impertinente, Antônio confidencia, enquanto atira a bagana do cigarro dentro do rio: – Eu tô com muita vergonha de ti e dos pirralho, Maria.

Abaixa a cabeça, mas, erguendo-lhe o queixo com as mãos e fitando meigamente os seus olhos, indaga a esposa, com ternura na voz: – Mas por que então, meu bem?

Usada com pouca freqüência, a expressão carinhosa surge no instante psicológico exato. A esperta criatura intuiu rapidamente a razão determinante do incomum desabafo e se sente na feminina obrigação de confortar o seu humilhado e másculo companheiro.

Com a dificuldade visível de quem se esforça querendo vomitar coisa intragável, ele comprime a mão da esposa de encontro ao próprio coração e diz, num sussurro: – Eu churei na ilharga de vocês. E churei como criança. Macho não chora, Maria. Só lagrima.

Lutando para não dar continuidade ao teimoso pranto que já lhe ensopa os olhos amarelados, Maria Flor aperta-lhe fortemente a mão calosa. Não pode dizer nada, ainda. Mas assim que consegue engolir o nó da garganta, segreda-lhe ao ouvido: – Não pensa mais nisso, meu amurzinho. Vergonha é robar e ser marvado. Tú só fez churar a morte tão triste do nosso Tuninho. – Detém-se, engasgada. Mas logo completa, num só fôlego: – Eu inda te quero mais bem dispôs dessa desgraça. Sei que tu é macho pra cachurro, mas tu não deixou de ter um coração bom e amuroso dentro do peito.

E, de rostos unidos, os dois emocionados caboclos ali ficam, durante longos minutos. Na cozinha, o jogo de baralho prossegue, animado, a até uns palavrões já saíram por lá. É preciso, porém, interromper o doce colóquio para servir mais uma rodada de café quentinho aos participantes do velório. Como foi uma criança que morreu, não se bebe cachaça. Só em vigília de adulto os varzeiros gostam de tomar umas duas ou três.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Maromba - de Emir Bemerguy - Capítulo 13


– BONS NEGÓCIOS –
São sete horas da manhã. Vai chegando à “Fazenda Apuizeiro” o grande e novo barco denominado “Jutaicica”, que um tripulante imobiliza nos esteios da maromba onde o gado se espreme. Como o rio está sereno, sem ondas que sacolejem a embarcação veloz, pode-se permitir a manobra, sem ameaças de avarias no curral. Havendo interrompido os serviços de carpintaria que reiniciara dentro de casa, Antônio observa a cena, quase tão curioso quanto a família, uma vez que novidades assim animam o ambiente alagado, modorrento e sem graça da várzea.

Silenciando o motor de duzentos cavalos, desembarca um cavalheiro alto, espadaúdo, com uma pasta de couro na mão esquerda. Usa bermudas vermelhas, camiseta branca, de mangas, e sandálias de borracha. Um chapelão de palha, do artesanato santareno, cobre-lhe a cabeça. Mas uma calva se exibe ridicularmente quando, de longe, o desconhecido sujeito retira a proteção e, com toda a cortesia, saúda os moradores, apoiados na cercadura do alpendre: – Salve, salve, amigos! Um maravilhoso dia eu desejo ao distindo casal e aos seus simpáticos filhinhos!

– Bom dia, seu menino! – diz Maria Flor, largando no chão, a chorar, o pimpolho de que extraiu um purulento bicho-de-pé, usando espinho de limoeiro como instrumento cirúrgico, enquanto o sério marido mal sussurra a resposta ao espalhafatoso cumprimento.

Aproximando-se devagar, o bigodudo cidadão pergunta, distribuindo sorrisos: – Que tal? Como vão as coisas por aqui? Tudo bem, não é? – É, seu cuisinha, não pode tá mas melhor – admite Maria, irônica e já implicando com o sujeito. Entretanto, pondo a mão na boca, em forma de concha, resmunga, aborrecida com o desastrado ou cruel zombador: – Eu não sei onde eu tô que não mando logo esse cachurro pra baixa da égua. Aparece lá do inferno pra vim mangar da desinquietação da gente aleia.

Afinal, a se equilibrar como pode sobre a oscilante e bem estreita ponte de tábuas, o homem chega à escada, pede licença para “entrar no palacete” e, estendendo a mão onde cintila um graúdo brilhante em reforçado anel de ouro, apresenta-se: – Sou Raimundo da Silva, comprador da firma “Jesus dos Anjos Ltda”, de Santarém. Tenho enorme prazer em conhecê-los pessoalmente, pois já ouvira as mais elogiosas referências a esta bonita propriedade de vocês.

Maria Flor, que decididamente não simpatizou com a fachada feiosa e algo cínica do indivíduo, vai explodir quando Presidente se antecipa, evitando o terremoto: – Sente nesse tamburete aí. Descurpe que tá meio sujo de tabatinga. Que mar eu pergunte: o que é que o senhô quer da gente? – Bem – fala o forasteiro, acomodando-se sobre o enlameado banquinho e pondo a pasta em cima das pernas cabeludas. Eu vim ver o que se pode comprar por aqui. Minha firma é a mais nova e poderosa exportadora de juta desta região. Mantemos também um grande frigorífico na cidade, onde vendemos carne verde, frangos abatidos e peixes.

Joga a ponta do cigarro dentro d’água e prossegue, sob os olhares atentos de todos: – Gostaria, portanto, de saber que negócio nós podemos fazer. E garanto, de saída, empenhando nisto a minha palavra de homem honrado, que faz da honestidade a sua religião: ninguém – mas ninguém mesmo! – paga tão bem como nós em todo o Baixo Amazonas. Nossa fama anda correndo longe, porque sabemos valorizar esplendidamente a labuta desumana do varzeiro oprimido.

Coçando o sinal do rosto, Antônio Presidente sorri, sem entusiasmo. Gira o braço musculoso num círculo que abrange toda a fazenda e pondera ao discurseiro cidadão: – É, mas o senhô deve saber como as coisa tão. Esse marzão tomou de conta tudinho e é um tempo muito ruim pra gente negociar. – Compreendo perfeitamente, meu irmão – diz Raimundo. A calamidade é geral, não poupa ninguém, mas por isso mesmo é que eu estou aqui, como bom amigo. Quero, acima de tudo, evitar os prejuízos de vocês e de outros agricultores e pecuaristas que ainda visitarei nesta cruzada apostólica pelos pobres.

Até então calada e muito séria, olhando sempre na cara daquele falante embarcadiço, Maria Flor dá um cascudo no menino que ainda choraminga e intervém, de mãos nas cadeiras: – Como então, seu menino? O senhô nem conhecia a gente e já tá murrendo de pena de nós... Essa é bua! Nós não tamo percisando disso, não.

Engolindo em seco, o loquaz viajante investe outra vez: – Ora, ora, não me leve a mal, distinta amiga. Minha empresa é especial, tem um fraco por pessoas carentes. Nossos diretores possuem corações muito maiores que as vis ganâncias dos lucros selvagens. Daí o prestígio que temos em toda parte, como verdadeiros e desinteressados amigos dos pobres ribeirinhos. Não esqueçam que o nosso nome comercial já diz tudo: “Jesus dos Anjos”. Procuramos ser bons como Cristo.

Preocupado com os serviços que o esperam, na ampliação da maromba doméstica, Presidente dá um jeito de abreviar o enjoativo diálogo. Receia também a potência trovejante da mulher, com explosivo sangue cearense a lhe esquentar as veias. Por isso, corta a verborragia do bigodudo: – Tá certo, seu moço, mas nós não temo muita coisa pra vender pro senhor. E pra não perder mais tempo conversando fiado, vamo dar uma ulhada na jutinha que eu tenho e, dispôs, no gado. Que mar pergunte: quanto é que o senhor tá pagando? – Bem, o boi, naturalmente, depende do estado geral. Isto a gente acerta na hora. Quanto à fibra, se for de primeira qualidade, não se preocupe: já lhes assegurei que os nossos excelentes preços matam de raiva a concorrência, sem condições de nos acompanhar – esclarece o “caridoso” homem que pisca um olho para o ressabiado caboclo e garante, rindo: – O senhor vai receber uma bolada de dinheiro de dar inveja à sua vizinhança, seu Antônio!

Saem. Maria Flor vai atrás. No meio da caminhada, Silva escorrega na estiva úmida e despenca, de cara, no lamaçal! Presidente ajuda-o a se levantar, mas a esposa e os garotos, vendo a figura do bonitão, disparam a debochativa gargalhada: – Quá!... Quá!... Quá!...

Vermelho, mais sujo que alma de terrorista, o sujeito tenta recompor-se fazendo gracinha: – Podem rir, porque a coisa foi mesmo divertida. Gente da cidade só vem fazer bobagem no interior.

Limpa-se como pode, esfrega o lenço no rosto, nos braços e se declara recuperado. Chegam ao barracão da ladainha, onde se armazena a juta salva da enchente. Correndo a vista sobre os fardos, o negociante apanha um pouco do produto, esfrega várias vezes os fiapos entre as palmas das mãos e diz, com cara de velório: – É uma pena, meu caro Antônio! O senhor perdeu praticamente toda a sua safra. A gente só vai levar isto para ajudá-los e porque é difícil se encontrar coisa menos ruim por aí, com essa água tão grande. Mas quase tudo é refugo.

A palavra final atingiu Maria Flor como uma bofetada. Com o sangue a lhe ruborizar o rosto, ela rosna, de dentes cerrados: – Refugo? O senhô tá maginando que nós vinhemo mexer com juta só este ano? Seje homem de vergonha ou nós não negoceia coisa arguma, de jeito nenhum, nem um pinto goguento o senhor tira daqui!

Tendo percebido, desde o início, que a malcriada cabocla seria um espinho em sua garganta, Raimundo da Silva reveste-se de toda a paciência. Só de pôr os olhos nos fardos, logo soube que a fibra, embora não seja excepcional, é de boa qualidade. Por isso, fingindo que não ouviu o insulto, dirige-se ao dono da casa, aparentemente mais fácil de ser iludido: – Eu levo todo o seu estoque, amigo Antônio, porque a redução da colheita, devido à enorme enchente, será considerável e a gente precisa aproveitar tudo. Quantos quilos o senhor tem aqui? – Quando nós pesemo a primeira vez, deu novecentus e dezuito – revela o varzeiro, com o chapéu encostado no peito. Mas com as quebra, deve ter diminuído arguma coisa.

– Para não desperdiçarmos tempo, vamos, então, fechar o negócio: eu lhe dou setecentos cruzeiros por tudo, sem pesar novamente, pois me basta a sua palavra, honrada como a minha. Sei que a firma perde dinheiro com esta transação, mas eu estou decidido a não sair daqui sem ajudar meus irmãos que me recebem com tanta fidalguia. – Eu não quero nem saber da sua figadia, mas vá ajudar os desinfeliz assim no inferno! – dispara Maria Flor. Pois olhe, seu cara: nós não lhe entrega essa juta por menos de mir e quinhentus cruzeiro, viu? E tamo com muita pressa, porque o Antônio tem que pelejar na maromba da casa.

– É, seu Raimundo – concorda o marido, meio encabulado com a brabeza da companheira. Nós tamo ruim de vida, eu tenho que pagar umas conta na cidade e comprar madeira, mas o preço do senhô tá muito vagabundo. Assim não dá.

Com a estratégia inteiramente pronta, o escorregadio comprador oferece: – Dou, então, novecentos paus pelo produto. É muito, meu irmãozinho, pois a juta não presta.

– Pois se tá pudre, não presta, deixe ela aí e vá simbora! – metralha a madame. Ninguém convidou o senhô pra butar defeito nas coisa aleia. Inda mas essa! Como nós percisa de dinheiro, vamo acabar logo com essa chatice que tá me enjuando: pague mir e duzentus cruzeiro e mande embarcar essa porquera. Vute! Que peste de homem!

Sorrindo para a zangada senhora, Silva fala-lhe em tom amistoso: – Está fechado o negócio! Mas a minha comadre é fogo mesmo, hein? Deus ainda há de mostrar a vocês como fui generoso. É a primeira vez que “Jesus dos Anjos” paga uma fortuna por juta de inferior gabarito. Mas nunca me arrependi de haver agido com amor cristão.

Já tendo desabafado uma parte de sua raiva e achando, intimamente, que a venda foi boa, Maria vai saindo, calada. Na maromba do gado, outra novela de “puxa-encolhe” se desenrola. Após mais alguns desaforos engolidos, o manhoso comerciante consegue adquirir seis reses, “a olho”, sem levá-las à balança. Ele sabe que o peso fará ultrapassar bastante a importância que, evangelicamente, se dispôs a pagar: seiscentos cruzeiros por cabeça.

Embarcada toda a mercadoria, distribuindo bombons às crianças e abençoando-as, uma a uma, Raimundo da Silva aperta efusivamente as mãos do “formidável casal de arejados pecuaristas” e o garboso barco “Jutaicica” deixa a “Fazenda Apuizeiro”.

Alegres, agora, com a dinheirama em tempos tão bicudos, Presidente, a esposa e os meninos ficam, por alguns minutos, comentando as ocorrências. Riem muito da queda, que consideram merecida, de "seu Mundico", e das "poucas e boas" que ele ouviu de Maria Flor. Depois, voltam à trabalheira normal.

À tardinha, regressando da faina do capim, Zé Potoca diz aos padrinhos que, tendo levado o rádio para se distrair, ouviu a notícia de que já estão pagando, em Santarém, até dois cruzeiros pelo quilo da escassa juta e que a carne aumentou para seis cruzeiros. Na hora das mensagens para o interior, a “Rádio Rural”, de fato, confirma tudo o que o vaqueiro disse: novos preços mínimos entraram em vigor...

Não há nada que se possa fazer ante o esbulho sofrido. Os caboclos foram assaltados dentro de casa. No cocuruto do apuizeiro, um passarinho grita, como se vaiasse: – Bem-te... Bem-te... Bem-te-vi! Bem-te-vi!...

– Vai mangar da tua mãe, cachurro! – berra a dona da casa, tirando o bucho de uma piranha-caju. Porrada em cima de pobre só presta se for grande! Tisconjuro! –

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Maromba - de Emir Bemerguy - Capítulo 12


– MAROMBA DE GENTE –
A “Rádio Rural” de Santarém, oráculo do Baixo Amazonas, vai envenenando o éter e as almas com as mais alarmantes notícias sobre a enchente de 1971. Na “Fazenda Apuizeiro”, todavia, já se resolveu ligar o rádio apenas em certas horas, principalmente quando há programas de mensagens para o interior, pois sempre é possível aparecer algum recado importante para a família. De fato, o receptor, acionado a pilhas, despeja, durante o dia, coisinhas estimulantes assim: – Temem as autoridades que a inundação deste ano supere a de 1953! – Ou isto: – Terríveis cardumes de piranhas devastam o gado na região do Aritapera!

– Tisconjuro! – amaldiçoa Maria Flor, benzendo-se. Esses cão que fala aí só dá recado mardoso. – Desliga, zangada, o agourento aparelho e completa: – Esses menino devia é dizer que o tar de prefeito abaixou decreto mandando o Amazona vazar logo e não ficar contando desgraceira pra gente.

O rio!... Todos se põem de joelhos ante o ditador sem entranhas, cuja brincadeira predileta consiste em infernizar, até intoleráveis limites, as vidas obscuras de tantos milhares de pessoas, que sofrem monstruosas punições pelo crime imperdoável de morarem nas várzeas.

O rio!... Se maltratasse apenas os bichos e as plantas, ninguém se queixaria tanto. Mas os padecimentos maiores, porque conscientes, estão reservados, por boçal ironia e requintes de sadismo, aos seres humanos e, sobretudo, àqueles que menos sabem, podem e devem sofrer: as crianças.

O rio!... Insulta e mata quando sobe... Ofende e assassina ao vazar... Enchendo, destrói pastagens, desaloja famílias, dizima rebanhos. Diminuindo de volume, deixa aos ribeirinhos, como diabólica herança, um rastro de epidemias que completam a devastação inacabada, terminando de aniquilar os frangalhos pensantes e os animais que se atreveram a sobreviver.

O rio!... Ah! O rio!... De tantos desesperos, de tamanhos ódios entope os corações, que provoca estranhos desabafos como o do velho Gigi Cebola que, urinando dentro d’água após mais um prejuízo, trovejou, de punhos crispados, no gesto inútil da raiva potente: – Ah! Seu bandidão covarde! Se pau-de-fugu desse jeito em ti, as coisa não ia ficar assim!

Mas o rio, embora não fale, possui os seus autorizados, competentes e cínicos porta-vozes. Quando o caboclo fechou a boca de dois dentes podres e únicos, a cinco metros de si boiaram três botos, soltando, juntos, a vaia zombeteira e humilhante: – Uaaá!...

Hoje, após um esplêndido dia estival em pleno inverno, vem surgindo, triunfalmente, a Lua cheia de abril. Numa tradição que se confirma em todos os anos, esta é a fase temida de modo especial porque as águas crescem com mais rapidez e violência, decidindo, em geral, as proporções finais da enchente.

Depois de alimentar as reses e remover um garrote que morrera pisoteado pelos demais, Antônio dá uma volta em torno da casa e, detendo a montaria, conserva-se calado, mão no queixo, a refletir sobre a séria situação. Rema novamente, entre em casa, sacode o chapéu molhado e previne a esposa: – Amanhã a gente já percisa fazer a primeira maromba aqui dentro de casa. Tá fartando uma só uma cuisinha pra água lamber o sualho por baixo. Nesses dois dias ela tufou quase dois parmo. – Vumbora – concorda Maria Flor. Tu quase me tirou a palavra da buca. Quando dá banzeiro, já ensopa tudinho aqui.

Presidente descasca uma banana e resume os planos: – Nós inda temo uma porção de maçaranduba que sobrou da maromba dos boi. Vai dar pra alevantar o estrado. Eu vou cumbinar com o Zé. – Come a fruta e vai conversar com o afilhado, lá na quitanda. Há, sobretudo, o problema crucial do corte de capim: o preto irá sozinho, no barco “Flô das onda II”. Saindo muito cedo, poderá fazer duas viagens, enquanto o fazendeiro trabalhará duramente para erguer o piso da residência.

Tudo acertado, Antônio embarca outra vez na canoa para tomar o seu banho de cuia, quando, de repente, se lembra: – Mas me diz uma coisa, Zé. Naquela hora em que o lacrau te sapecou a ferrada, tu tava me falando num tar do teu casamento, não foi? Que diabo é isso?

Risonho e meio encabulado, retruca o vaqueiro: – É, meu padrinho. Eu tô noivo com a Mundinha, aquela filha do seu Mário Catinga-de-mulata. Nós tamo mardando de se casar no verão que vem.

Sem rir, indaga o pai de criação: – Mas cumo é que tu pode tá nuivo sem namurar, rapaz? – Eu tô nuivinho da sirva, sim, senhô – confirma o galã. Quando ela veio aqui, no dia da ladainha, eu dancei dois baião esquentado com ela e disse: “Mundinha, eu quero casar cuntigo. Tu topa?” – Aí ela me ulhou bem de pertinho, virou os zóio e respondeu: “Eu topo. Faz uma semana que eu aresorvi meter o chifre no Pedro, filho da Raimunda Goiaba. Troquei ele pelo Cazuzinha, do seu Malaquia Pé Grande, mas huje nós briguemo. Fala com o papai, que nós se casa, pois eu já tô enjuada de ser mulher surteira.”

Reprimindo a muito custo a gargalhada, fala Antônio, ensaboando-se: – Toma juízo, menino! Se a Maria Flor tivesse ouvindo essas bestera, tu ia já engolir desaforo. – Joga uma cuia com água em cima da cabeça e acrescenta: – Tu não tá vendo que isso é duidice de maluco? Pra tu te casar, é perciso juntar um dinheirinho e fazer a tua barraca. E quando tu for mesmo te amarrar, não te junta com uma galinha sem-vergonha daquela, que só não namora imbuá porque não sabe quar deles é o macho.

Ouvindo, atento e sério, Potoca admite, cabisbaixo: – O senhô tá certo. Eu não tinha maginado essas coisa. Nós ia se casar no dia da outra ladainha e eu queria ficar murando ali mesmo no barracão. – Finalmente, decide: – Mas agora, quando eu for lá no forró da Raimunda Goiaba, eu vou dizer pra Mundinha percurar outro marido. Tadinha! Ela tá me esperando.

– Te esperando coisa arguma, abestado! Aquela vagabunda já te chifrou umas dez vez da ladainha pra cá. Anda logo com esse teu banho e vumbora jantar pra dormir, que amanhã tem faxina braba – finaliza Presidente.

No outro dia as atividades são repartidas, como se combinara: enquanto o negro sai no barco, Antônio começa, penosamente, a levantar o assoalho. Resolve erguê-lo em sessenta centímetros, altura que lhe parece suficiente, pelo menos por enquanto. Inicia o trabalho pelos quartos de dormir, pois levará, no mínimo, três a quatro dias para concluí-lo. Na cozinha ou na sala, eles podem caminhar dentro d’água, mas não nos dormitórios, porque o infeliz que acorda e pisa no molhado, “istupora”.

Ao anoitecer, a maromba de gente está mais ou menos adiantada, principalmente porque as tábuas são largas. Mas, voltando da labuta, Zé Potoca informa, alarmado e alarmando: – Puxa vida, meu padrinho! A Lua cheia tá de cum furça! O rio tufou mais um parmo e uma fagulha. Vute!

Antônio já tinha visto o acréscimo amedrontador. E é por isso que resolve prosseguir trabalhando, noite adentro, à luz fraquinha do candeeiro. Nesse momento já estão com cinco centímetros do Amazonas dentro de casa! O crioulo quer ajudar, porém Presidente manda que ele se recolha cedo, porque é visível o seu esgotamento.

Maria Flor e o filho mais velho auxiliam como podem. Aí pelas duas da madrugada, quando vão repousar um pouco, ainda escutam as vigorosas batidas de martelo que alguém dá, ao longe, também fazendo maromba de gente, e que soam como bofetões na cara amarela da noite de luar. Supersticiosa, a cabocla, quase cochilando, arma uma figa nos dedos e comenta: – Vute! Credo em cruz! Mar comparando, essas pancada assim fora de hora parece carpinteiro fazendo caixão de defunto. Tisconjuro!

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Maromba - de Emir Bemerguy - Capítulo 11


– MAROMBA DE BOI –
Quando é bem construída, a maromba pode servir durante sucessivos anos. O mais comum, no entanto, é o pequeno criador improvisar um tosco girau para agasalhar o rebanho por ocasião da enchente, pois as madeiras boas são muito caras. Além disso, ele jamais perde a esperança de que na próxima temporada de inverno o rio não cresça demais e se possa dispensar essa antipática alternativa. É assim na várzea: vive-se de ilusão e se morre de raiva.

A maromba da “Fazenda Apuizeiro” foi preparada no último verão e Antônio Presidente andou gastando nela um bom dinheiro para fazer uma obra duradoura. O abrigo é constituído, em sua maior parte, de maçaranduba e itaúba, o que lhe confere muita resistência, tanto à corrosão da água como ao peso dos animais. Além de sólida e bem alicerçada, a moradia provisória do gado de Presidente apresenta as necessárias – mas nem sempre introduzidas pelos pecuaristas – divisões para as vacas com crias, novilhos e reprodutores. Igualmente aceitáveis são as condições de estabilidade da cerca protetora, para impedir que as reses caiam lá de cima. Ainda assim, de um ano para o outro são inevitáveis os reparos que se precisa fazer em todo o conjunto. É que, passando de três a cinco meses nesse hotel cinco estrelas, a boiada consegue fazer bons estragos na estrutura.

Iniciados nos penosos dias do corte da juta, só agora serão concluídos os serviços de recuperação da maromba. Para tanto, o fazendeiro e seu afilhado aproveitam todas as horas livres, sobretudo após o insucesso do Igarapé da Pitanga, pois o rio sobe, sobe e sobe, esbaforido como ladrão fugindo de linchamento. As reses já principiam a pastar dentro d'água, catando, inclusive, o mureru e outros magros petiscos, desprezíveis em tempos de fartura. Pior: duas vacas já foram inutilizadas por piranhas, que lhes mutilaram as tetas, e trairambóia matou um belo garrote ao lhe decepar a língua quando pastava. Por tudo isso, é preciso correr, buscando energias no medo enorme de ficar na miséria, vendo sumirem, de bubuia, na correnteza, os bens e as esperanças. E quem trabalha apavorado não se cansa. Já disseram que, durante os naufrágios, não existe melhor bomba para retirar água do barco em perigo do que um homem aterrorizado, com um balde na mão.

Finalmente, já se pode colocar a boiada no curral aquático. Mas começará também, a partir de agora e por um prazo de que somente Deus conhece a extensão, a tortura diária, pasmosamente cansativa, de alimentar um rebanho como criança de mamadeira, trazendo-lhe de enormes distâncias o capim cortado e reunido em feixes. – Eu só queria era ver, meu padrinho – diz Zé Potoca – aqueles dotô bunitinho lá da cidade metido no capinzar, no meio de furmiga, torando canarana e premembeca. – Ri e sentencia: – Aqueles cuirão fruxo não agüentava nem uma tarde!

Realmente, é um trabalhão que deveria ser ao menos assistido pelos grã-finos que, em luxuosos gabinetes refrigerados, partejam eruditas teses e elaborados ensaios, rotulando o caboclo amazônico de “indolente, vadio, alérgico ao desenvolvimento e reles bebedor de cachaça”. Nenhum desse tão operosos boas-vidas urbanos suportaria o brutal encargo de trazer, uma só vez que fosse, um batelão cheio de forragem colhida a meia légua de distância, no mínimo. Mas os “preguiçosos” varzeiros fazem isso diariamente, durante três ou quatro meses, com qualquer tempo e, inclusive, aos domingos, enfrentando fome, chuva, sol, insetos, cobras e outros ingredientes diabólicos que completam o mingau de uma terrível rotina.

Até março, o capim não está exigindo caminhadas muito longas para ser encontrado. A uma distância de meia hora de vela, se estiver bom o vento, ou a sessenta minutos de remo e varejão, em horas de calmaria, padrinho e afilhado completam o carregamento até ao meio-dia. Aproveitando a passageira abundância, vão buscar outra barcada à tarde.

Antônio não utiliza o barco “Flô das onda II” porque, além de a gasolina e o lubrificante haverem sofrido estúpidos aumentos e continuarem subindo de preço, há sempre a possibilidade indesejável de um “prego” no motor. O batelão, conduzido às custas de vigorosas empurradas com grandes varejões, possui maior tonelagem. Maria Flor e as crianças dão conta da casa, da quitanda e do resto.

A partir de abril, contudo, o pasto vai escasseando, começa a ficar coberto pelas águas. Torna-se necessário ir cada vez mais longe para obtê-lo. Mesmo acordando às quatro horas da madrugada, não podem os caboclos fazer mais os dois carregamento diários, porque remam ou velejam de cinco a seis horas para completar uma viagem de ida e volta. E o que trazem, coitados, mal dá para dividir em minguadas rações individuais, pois o alimento, a essa altura da desgraceira, tem a finalidade básica de não deixar o gado morrer de fome. Comendo tão pouco e só uma vez ao dia, as reses vão emagrecendo.

E o rio, como é que se comporta? Bem: cresce, cresce como o desespero de mãe que vê morrer seu único filho.

– Meu padrinho, o que é que essa água tá querendo fazer com a gente esse ano? – pergunta Zé Potoca. Pelo jeito, ela paresque vai deixar nós tudinho de bubuia. Vute!

De pé num dos bancos do batelão, Antônio vai recolhendo, reunindo em blocos e arrumando no casco os pés de forragem que o ativo crioulo lhe atira seguidamente às mãos.

– O diabo é que eu tô maginando me casar e...aaaiii! – esgoela-se o rapaz, interrompendo a confidência no início. – Puta merda, um lacrau me ferrou!... – Mata ele! Mata ele! – ordena-lhe, enérgico, Presidente. Mata o curno e me dá ele aqui!

Num instante está o preto com o peçonhento inseto pendurado entre os dedos da mão direita, enquanto, a caretear com as fortes dores, agita o braço esquerdo, onde uma vermelhidão vai tomando conta do polegar. Rápido, o pecuarista abre o ventre do bicho, remove o bucho e chama a agoniada vítima. – Vem cá depressa! Me dá o dedo e larga de ser fruxo feito fêmea barriguda. Tú já vai esquecer disso.

Comprime, então, com certa força, as vísceras do lacrau preto sobre a picada, pois desde menino sabe que é o melhor medicamento para esse tipo de acidente. A fazer esgares, mas contendo exclamações covardes, Zé Potoca, aos poucos, está com outra fisionomia e, alguns minutos depois, sorri, aliviado, pondo à mostra os graúdos e perfeitos dentes. – Mas ô remédio pai-d’égua! – proclama, feliz como formiga em açucareiro. Até a dor desadorada tá passando.

– Te aquieta aí um pedaço, toma um gole de café e pode pegar de nuvo no terçado – determina Antônio, enxugando o suor da testa com a ponta da camiseta. Mas se tu não tivesse matado a peste, eu ia empurrar esse batelão sozinho até chegar em casa. Ferrada de lacrau preto não tem outro remédio se não for o bucho dele. Aprendi isso com minha finada mãe.

A medicina varzeira funciona plenamente. Expliquem os doutos, se o conseguirem, como pode o bucho do lacrau agir eficazmente contra a picada, às vezes mortal, do próprio inseto. Talvez a resposta haja sido dada pelo caipira Zé Potoca, de volta à fazenda. A cismar sobre a ocorrência, ele disparou, de repente, esta pérola filosófica: – É, meu padrinho. Bucho de lacrau preto me curou enquanto o diabo espirrava. Quando Deus tira os dente dos desinfeliz, Ele alarga a goela pra comida descer depressa.

domingo, 11 de maio de 2014

Eleição da Casf: Manifesto da Chapa 2

Franqueada essa pequena aula, modesta mais útil aos noviços, vejamos o que há sobre o AUTO DE INFRAÇÃO Nº 36708-GGFIR-ANS, do qual originou-se a aplicação da multa publicada no DOU citado pelo Fiock, tomada ingenuamente como reforço da sua companha eleitoral:
• O recolhimento do valor do deposito para o Fundo Garantidor, relativo ao 3º trimestre/2008, foi tempestivamente efetivado, não obstante em valor abaixo do devido, por força de erro do cálculo elaborado pela Atuária contratada pela CASF devidamente credenciada junto à ANS. Logo não houve descuido do signatário, então Diretor Administrativo e Financeiro em fazê-lo.
• O AUTO DE INFRAÇÃO (cópia no verso) concedendo o PRAZO DE 10 DIAS para, querendo, APRESENTAR DEFESA ESCRITA, foi emitido pela ANS em 06/10/2010, três meses e seis dias depois que Fiock, por seu antecessor e seu Diretor Administrativo e Financeiro assumiram suas respectivas funções na Diretoria da CASF.
• Mesmo contando com uma Assessoria Jurídica contratada com os fabulosos honorários mensais de quase R$13.000,00 (TREZE MIL REAIS), por incompetência ou simples tropeço de um “administrador descuidado” (permitam-me o plágio), a atual Diretoria PERDEU O PRAZO RECURSAL e agora, DOIS ANOS DEPOIS, simples e despudoradamente diz que “hoje ... já vamos pagar” a multa aplicada pela ANS. Pagará, sim, purgando com o nosso dinheirinho a negligência de não ter recorrido, abdicando de um sem número de argumentos, inclusive o direito de regressão à Atuária Salutis Consultoria e Administração em Saúde Ltda.
Mesmo tendo assumido a Presidência da CASF bem depois da citação da ANS, pelo princípio da IMPESSOALIDADE NA GESTÃO, caberá ao Fiock, certamente compartilhando com o seu Diretor Adm. Financeiro, reembolsar a valor que “já vai pagar” (certamente já o fez). Cabe perguntar: se a Chapa 1 vencer a eleição do dia 16 próximo, quantas multas mais, de tamanha monta, Fiock vai pagar, fazendo do desperdício dos nossos recursos uma possível rotina?
Fiock faz ainda proselitismo eleitoreiro citando que “conseguiu aprovar no CONDEL a realização de Auditoria Independente de Gestão e Risco de todo o período de 2010/2014”. Será que o Auditor Independente contratado foi o mesmo que, suspenso por 5 anos pela CVM, “certificou” o Balanço/2013? Se assim for, cabe-nos exigir que essa contratação tenha ocorrido em regime de cortesia, de vez que os pareceres que produziu e/ou produzirá não dispõem de validade para atender os fins a que se propõe.
MADISON PAZ DE SOUZA
Candidato à Presidência da CASF pela CHAPA 2 – PARA RECONSTRUIR A CASF