sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Alegria! O Senhor está próximo!

Por Cardeal Orani Tempesta
Este terceiro domingo do Advento tem um tema predominante: a alegria provocada pela proximidade da celebração da primeira vinda do Senhor. Por isso, a cor rosácea, que pode ser usada como um roxo atenuado. Alegrai-vos (Gaudete!) – convida-nos a liturgia, inspirando-se nas palavras do Apóstolo: “Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: alegrai-vos! O Senhor está perto!” (Fl 4,4s). O mundo vive carente da verdadeira alegria! Os textos bíblicos do III Domingo do Advento são um convite muito forte a alegria, porque o Senhor, que esperamos, já está conosco e com Ele preparamos o Advento do seu Reino.

Na primeira Leitura (Is 35,1-6a) - nos faz reviver a espera que precedeu a primeira vinda de Cristo e as esperanças que a animaram. Isaías deseja despertar e fortalecer a esperança dos exilados. O povo atravessava um dos piores períodos de sua história: Jerusalém e o Templo destruídos, o povo deportado na Babilônia.

Na Segunda Leitura (Tg 5,7-10) - Este trecho é parte das exortações finais da carta de São Tiago. O tempo de espera é pouco; logo a melhor maneira de sofrer contradições e perseguições, pelo fato de serem cristãos, é armar-se de paciência e resignação, tomando como exemplo as perseguições dos antigos profetas. O próprio apóstolo sofreu o martírio da parte dos judeus, servindo assim de exemplo e não só de palavras de estímulo que como diz o provérbio verba ducunt, exempla movent (as palavras guiam; os exemplos movem).

O Evangelho (Mt 11, 2-11) - O Evangelho desse domingo contém três seções diferentes: Pergunta do Batista; resposta de Jesus; testemunho deste sobre João. Jesus responde à pergunta do Batista com fatos que confirmam a profecia de Isaías (cap 29 e 35) sobre a conduta do Messias. E, ao mesmo tempo, não deixa de louvar aquele que foi seu arauto e precursor. Uma questão que estava na mente dos seus contemporâneos, era o poder político do Messias. Jesus unicamente aponta a um messias de salvação, em que a cura do corpo é a manifestação da cura interior que tem consequências sociais. Havia a ideia que toda doença era produto de um pecado (Jo 9, 2) e a libertação da doença era sinal do perdão do pecado (Jo 5, 14), condição que Jesus impõe a quem curou da cegueira ou, antes de curar, perdoa os pecados (Mt 9, 2); assim ele se acomoda ao pensamento dos seus contemporâneos. Outro aspecto dessa profecia é a evangelização dos pobres. Finalmente está o louvor do Batista, o maior entre os nascidos de mulher, mas inferior aos nascidos na água e no Espírito (Jo 3, 5), que formam parte do Reino de Deus.

João Batista está preso por Herodes, por reprovar o seu comportamento. No cárcere ouve falar das obras de Cristo. Dali envia a Jesus dois discípulos com uma pergunta bem concreta: “És tu aquele que há de vir ou devemos esperar por outro?” (Mt 11, 3). Jesus responde-lhes apontando os sinais concretos de libertação, já anunciados por Isaías há muito tempo: “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” (Mt 11, 4-5).

Na Exortação Apostólica “A Alegria do Evangelho”, o Papa Francisco nos lembra de que “a alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Os que se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria” (EG, n. 1) (Retirado do site: https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html. Último acesso em: 02/12/2016).

A alegria do Advento e a de cada dia é porque Jesus está muito perto de nós. A alegria cristã não é uma atitude passageira de festas humanas, mas um estado permanente, de quem confia que a vida cristã é uma caminhada ao encontro do Senhor que vem. A alegria é um dos sinais da presença de Deus no coração de uma pessoa. Jesus, após a Ressurreição, aparecerá aos seus discípulos em diversas ocasiões. E o evangelista irá sublinhando repetidas vezes que os Apóstolos “se alegraram vendo o Senhor” (Jo 20,20). Eles não esquecerão nunca esses encontros em que as suas almas experimentaram uma alegria indescritível.

Contudo, o cristão deve ser um homem essencialmente alegre. Mas a sua alegria não é uma alegria qualquer, é a alegria de Cristo, que traz a justiça e a paz, e que só Ele pode dar e conservar, porque o mundo não possui o seu segredo.

Associação de oficiais de justiça critica conduta de presidente do Senado

Para o presidente da Aojus (Associação dos Oficiais de Justiça do Distrito Federal), o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) agiu com "com total falta de respeito" ao se recusar a receber a intimação da ordem de afastamento do cargo emitida pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Marco Aurélio.

Um oficial de justiça lotado no STF, Wessel Teles de Oliveira, tentou inutilmente por diversas vezes, entre segunda-feira (5) e terça-feira (6), intimar o presidente do Senado e outros dois membros da Mesa, Jorge Viana (PT-AC) e Vicentinho Alves (PR-TO).

Na noite de segunda-feira, Oliveira foi informado por uma assessora do senador de que ele não estava em sua residência oficial, mas o próprio oficial atestou tê-lo visto por um vidro da casa. Jornalistas também fotografaram Renan na casa.

Em ofícios encaminhados ao STF, Oliveira relatou ter sofrido "tratamento evasivo" de assessores da presidência do Senado. "Me foi respondido ilogicamente que o senador não estaria na residência", escreveu Oliveira.

O presidente da Aojus, Gerardo Alves Lima Filho, disse que o episódio "é um precedente negativo não só para a categoria [dos oficiais], mas para o tribunal e a sociedade".

"Se o presidente do Senado age com essa total falta de respeito com o oficial, a sociedade vai entender que esse tratamento pode ser repetido", disse Lima Filho. A associação representa 500 dos 800 oficiais que atuam no Distrito Federal, incluindo os quatro lotados no STF.

Lima Filho afirmou que "vê com muita preocupação" o comportamento de Renan e dos outros senadores, pelo "exemplo que deixam" de que o oficial pode ser evitado e enganado.

"Normalmente o oficial diligencia sozinho, em veículo próprio e colocando em risco sua integridade. Não temos estrutura para ir a todos os locais com a polícia. O oficial vai sem porte de arma, sem escolta, sem colete à prova de bala", disse o presidente da Aojus.

Segundo Lima Filho, somente em 2016 houve 20 "crimes contra oficiais" no DF, incluindo um assalto a mão armada e agressões físicas.

Há dez anos, Terezinha Vieira de Souza, oficial lotada no Tribunal de Justiça do DF, foi assassinada em um assalto enquanto cumpria um mandado na cidade-satélite de Samambaia. Ela dá nome à sala dos oficiais do tribunal.

Em novembro de 2014, o oficial Francisco Ladislau Pereira Neto, 25, que atuava no TRT (Tribunal Regional do Trabalho) do Rio, foi assassinado por um parente da pessoa que procurava intimar em Barra do Piraí (RJ).

No DF, segundo Lima Filho, um oficial de justiça, que deve ser bacharel em direito, recebe como salário mensal entre R$ 10 mil e R$ 14 mil brutos. Pelo uso dos carros próprios, os oficiais recebem uma indenização de transporte que varia de R$ 1.300 a R$ 1.600 mensais e inclui gastos com combustível, seguro, impostos, licenciamentos e manutenção.

Segundo a Aojus, o valor da indenização está defasado, pois seria o mesmo de dez anos atrás.

Salvou-se

Editorial - Folha de SP
Causa fundo desalento na opinião pública o desfecho encontrado pela maioria do Supremo Tribunal Federal, nesta quarta-feira (7), para o impasse opondo o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), ao ministro do STF Marco Aurélio Mello, que em medida liminar e monocrática decidira por afastá-lo do cargo.

Colocado pelo próprio tribunal, há poucos dias, na condição de réu por crime de peculato —e alvo de mais 11 outros inquéritos—, Renan Calheiros certamente não ostenta requisitos éticos mínimos para se manter à frente do Senado.

Um dos principais alvos das manifestações anticorrupção do último domingo, o peemedebista parece dotado de infinita capacidade de sobrevivência. De um modo que espantosamente confirma seu poder político, o Supremo assegurou-lhe a intocabilidade de que desfruta.

Sem dúvida, variados argumentos jurídicos podem ser invocados a seu favor. A decisão monocrática de Marco Aurélio, concluindo pelo afastamento, trazia componentes de intempestividade e de ambiguidade na interpretação da lei.

Criara-se, na verdade, uma espécie de quebra-cabeça lógico com sua liminar. Tal gênero de decisões unilaterais exige, pelo texto legal, que haja urgência na deliberação —o que de fato não havia.

Decidia-se uma questão que, em si mesma, não continha tais características. Tratava-se de aplicar, ao caso Renan Calheiros, a regra de que um réu não pode constar como eventual sucessor do presidente da República.

Ocorre que, no raciocínio de Marco Aurélio, não havia como dissociar a condição de presidente do Senado daquela de eventual sucessor de Michel Temer (PMDB). O tema da urgência desaguou, assim, na decisão de afastá-lo do cargo.

Por maioria de votos, o STF decidiu "fatiar" a questão, impedindo Renan de suceder ao presidente, mas capacitando-o a continuar à testa do Senado, o que de qualquer forma será por tempo breve.

Enfraquece-se o tribunal, por mais de um motivo. O senador o afrontara diretamente, ao recusar-se a receber a ordem de seu afastamento. Com que moral se poderá punir, de agora em diante, outro cidadão que desobedeça às determinações de um magistrado?

Ademais, o papel de Renan como articulador de importantes medidas econômicas no Congresso foi reconhecido, em alguns votos do STF, como fator a ser considerado.

O STF possuía a imagem de estar acima do conchavo político. No que tem toda a aparência de sê-lo, Renan dá sinais de que, mantido no cargo, não persistirá no projeto contra abusos de autoridade. Poderá abusar da sua, ao que tudo indica, por mais tempo.

A correção necessária

Editorial - Estadão
Por 6 votos a 3, o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu manter Renan Calheiros (PMDB-AL) na presidência do Senado, impedindo-o, no entanto, de assumir a Presidência da República em caso de substituição ou vacância. Ao decidir desta forma, a Corte acolheu apenas parcialmente a liminar dada pelo ministro Marco Aurélio Mello na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) interposta pela Rede Sustentabilidade.

A decisão monocrática tomada por Marco Aurélio colocou o STF em uma enrascada. Sua liminar atabalhoada – para dizer o mínimo – obrigou o colegiado a decidir por um entre dois caminhos igualmente desgastantes para a instituição máxima do Poder Judiciário. A decisão mais fácil, sob o estrito ponto de vista da Corte, seria o plenário referendar na íntegra a esdrúxula liminar concedida pelo ministro Marco Aurélio na segunda-feira passada e manter a destituição de Renan Calheiros da presidência do Senado. Caso assim decidisse, o Supremo satisfaria grande parte da opinião pública – “Fora, Renan” foi um dos principais motes das manifestações ocorridas no último domingo –, tornaria a Corte popular ante o imbróglio institucional em que o País foi metido e ainda evitaria a construção da imagem de um tribunal fraco e desmoralizado, uma Suprema Corte que se ajoelha diante da petulância de um autocrata. Mas isso significaria corroborar um absurdo.

A gravíssima crise econômica, política e institucional por que passa o Brasil exige serenidade das pessoas investidas do poder de orientar os rumos da Nação. A serenidade necessária para os impelir a pôr veleidades particulares muito abaixo do interesse nacional. O discernimento para enxergar que o caminho mais fácil nem sempre é o melhor para o bem comum é uma das grandes virtudes exigidas daqueles alçados a posições de liderança na esfera pública. Felizmente, prevaleceu no plenário do STF o sentimento de que o País não suporta mais as consequências do acirramento de ânimos das mais altas autoridades da República. A maioria da Corte teve a coragem de adotar uma decisão que não será bem compreendida por muitos, mas que é a correta, do ponto de vista jurídico, e a adequada, do ponto de vista político.

A decisão mostrou que as articulações havidas entre os membros da Corte, capitaneadas pela presidente Cármen Lúcia, caminharam na direção do armistício entre os Poderes, ao menos por ora, e privilegiaram o interesse público ao garantir o bom seguimento de medidas absolutamente necessárias para o equilíbrio fiscal e retomada do crescimento econômico. O aumento da confiança das empresas, a geração de empregos e a consequente melhoria da qualidade de vida da população dependiam disso.

Ao contrário da percepção corrente, o STF não se apequenou com a decisão tomada por seus membros. Na verdade, o colegiado consertou uma enorme lambança perpetrada pelo ministro Marco Aurélio, cuja decisão – acaso fosse referendada integralmente – poderia expor o País a consequências ainda mais penosas pelo aprofundamento do quadro de incertezas. Como asseverado pelo ministro Luiz Fux durante a sessão de julgamento, a natureza do real perigo de lesão grave alegado pela Rede Sustentabilidade em seu pedido inicial reside, na verdade, no fato de se destituir o presidente do Senado no momento mesmo em que tramitam na Câmara Alta medidas de altíssima importância, cujo andamento poderia ser travado ao se transferir o controle da pauta legislativa da Casa ao senador Jorge Viana (PT-AC), cujo partido é frontalmente contra a adoção dessas medidas.

É importante frisar, como já dito neste mesmo espaço, que um político da estirpe de Renan Calheiros não deveria sequer ter sido eleito senador da República, menos ainda alçado à presidência da Câmara Alta. Mas uma vez escolhido pelo povo alagoano para representar seu Estado e eleito por seus pares para ocupar o cargo que ocupa, há que se observar com rigor as formalidades exigidas pela lei. O Supremo Tribunal Federal mostrou altivez ao admitir que um de seus ministros pode errar. Reconhecer um erro e repará-lo jamais pode significar desmoralização. Desmoralização seria o plenário manter uma decisão manifestamente equivocada apenas movido pela ideia de infalibilidade que a Corte Suprema não tem.

STF dilapidou a própria credibilidade

Por Vera Magalhães - Estadão
O Supremo Tribunal Federal produziu deliberadamente o segundo “jeitinho” em menos de seis meses para responder a uma crise que não era constitucional, mas política. Ao agir dessa maneira, a corte máxima do país se apequena, e dá sinais de que está disposta a abrir mão da máxima segundo a qual, no arranjo institucional republicano, cabe ao Judiciário falar por último.

O decano da corte, Celso de Mello, visivelmente desconfortável com a missão que lhe coube, deu um voto que em nada lembra as decisões técnicas pelas quais se notabilizou. Começou dizendo da gravidade de se descumprir uma decisão judicial e da impossibilidade de o presidente da República permanecer no cargo quando investigado, chegando a reconhecer que isso se estendia aos seus substitutos eventuais.

Mas aí, diz ele, é possível se “pular” o presidente do Senado na linha sucessória. Parecendo recorrer a uma expressão em latim para dar alguma credibilidade a uma decisão claramente política, Celso de Mello cunhou a expressão “per saltum”. O salto com vara, no caso, foi sobre a Constituição e mesmo a lógica. Renan é, pois, apto a presidir o Senado da República, mas não o Executivo.

A presidente do STF, ministra Cármen Lúcia, também se desviou de tudo aquilo que prega ao longo de sua trajetória na corte. Cármen é aquela que dirige o próprio carro, recusa convites para jantares e coquetéis por não achar apropriado que magistrados confraternizem com políticos, que nas últimas semanas defendeu o Judiciário de ataques.

Como, então, referenda uma saída política para um impasse institucional? Mais: como patrocina esse entendimento por meio de conversas de bastidores que sempre condenou? Como vota de forma condescendente, admitindo o descumprimento de uma decisão do tribunal que preside pela Mesa do Senado e a agressão a um ministro da corte por parte de Renan — que afirmou que Marco Aurélio Mello dera a liminar preocupado em manter salário acima do teto?

Tendo costurado a saída fora dos “autos”, Cármen Lúcia deveria, ao menos, ter deixado de votar. Afinal, já havia maioria a favor da permanência de Renan na cadeira. Assim, ela não compactuaria com uma saída com a qual dificilmente deve concordar.

No impeachment de Dilma Rousseff, de novo a partir de uma urdidura de Renan Calheiros, o ministro Ricardo Lewandowski concordou em “fatiar”a pena do impeachment, para que a petista mantivesse os direitos políticos. Apesar de manifestarem, em público e em privado, a discordância com a decisão, os ministros do Supremo decidiram “deixar para lá” para não agravar a crise.

Se recusaram a analisar recursos de todos os lados contra a decisão, fingiram que não viram o “jeitinho”, mas numa briga com Lewandowski o próprio Gilmar Mendes fez menção à decisão, de forma desairosa, em uma sessão da corte.

O STF, com essas duas decisões, relativizou seu peso. Com isso, chega desgastado, não só diante dos demais Poderes, mas da sociedade, para enfrentar o que terá pela frente: vários processos contra políticos envolvidos na Lava Jato, que andam a passos de tartaruga e cujo fim, teme-se, seja igualmente negociado em conversas de gabinetes e fora da Constituição.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O arraial da festa

Por Ercio Bemerguy
Tenho procurado, através deste blog, contar o que sei, o que guardo na memória, do passado santareno. Isto, é bom esclarecer, sem preocupação e compromisso com a exatidão de datas de fatos a que me refiro, inclusive quanto aos nomes de pessoas citadas, pois isso é incumbência dos historiadores.

Não esqueço, por exemplo, o quanto era movimentado, agradável e divertido o arraial da festa de Nossa Senhora da Conceição, em Santarém. Os “brotinhos” passeavam ao redor da praça da Matriz e a rapaziada em pé, à beira da calçada, dirigia galanteios e gracejos, tentando pegar na mão das jovens que lhes despertavam interesse. Na próxima volta já era fácil perceber pelo sorriso ou cara emburrada da pretendida, se haveria ou não alguma chance para namoro ou algo mais, ou se o resultado era um esculacho do tipo “Te enxerga, enxerido”!

Outra estratégia utilizada para as conquistas amorosas era o serviço de alto-falante Guarany, do Otávio Pereira, transmitindo as mensagens, os recados anônimos ou não: “Alô, alô, Margarida! Alguém muito apaixonado lhe dedica o postal sonoro...” – “Alô, alô Estefânia! Pra você que é a mais bela deste arraial, o Jonilson lhe oferece com muito amor e carinho o buquê musical...”. As reações por parte das pessoas nominadas eram diversificadas. Umas, ficavam satisfeitas, alegres; outras, não escondiam a fúria, a contrariedade. Entretanto, todas queriam saber quem havia mandado o galanteio. Tentativa inútil, uma vez que o Otávio guardava absoluto segredo, não identificava ninguém, daí a razão do seu expressivo faturamento.

Nessa onda de conquistar corações no clima festivo do arraial, atuava também o pombo-correio, ou seja, um molecote que levava e trazia recadinhos. Certa vez, um próspero comerciante que atuava no ramo de compra e venda de produtos regionais e era metido a ser um voraz garanhão, estava saboreando uma cerveja no Tapajós Bar, quando então recebeu um recado que o deixou eufórico: “A Zica chegou do Tapará e mandou lhe dizer que quer se encontrar com o senhor, às oito e meia, atrás da barraca do jogo da argolinha”. Ele, que há muito tempo estava “de olho” nessa morenaça que era casada e bonita demais, pediu ao garçom uma dose dupla de uísque puríssimo e sem gelo para festejar a boa nova e, ainda, um cálice de licor de catuaba para aumentar o seu vigor físico, pois tudo indicava que a noitada haveria de ser longa e prazerosa.

Dez minutos antes da hora marcada, o conhecido homem de negócios, endinheirado, é bom ressaltar, passou por uma das bancas de marreteiros e comprou um vidrinho de extrato à base de mutamba e se lambuzou todo. Cheiroso, penteou a cabeleira e esfregou os dedos no olho de boto (dizem que atrai mulher) que estava pendurado em seu pescoço e partiu, excitadíssimo, rumo à barraca indicada, com a certeza de que dominaria a fera e a levaria à praia da Vera Paz para abatê-la “numa boa”, dentro do barco de sua propriedade que estava ancorado para conserto no estaleiro do Capiberibe.

Precisamente às 8h30, no local combinado, a sua surpresa foi grande, pois lá estavam, a Zica, toda charmosa e sorridente, e o marido dela, um mulato grandalhão, e ela foi logo dizendo: “Descurpe nós lhe chateá, mas é porque é muito difircutoso encontrar e falar com o sinhô. Nós quer saber quanto o sinhô tá pagando o quilo da juta, porque agente trouxemo quatro fardos lá do Tapará pra vender”.

Não é preciso dizer que o comerciante, além de ficar p...da vida, ficou com o fardo na mão... Sem demora, ele retornou ao Tapajós Bar em busca de consolo nos braços de uma das muitas “raparigas” que ali faziam ponto, totalmente disponíveis aos homens dispostos a lhes dar dinheiro para ter prazeres e elas, por dinheiro, dispostas a dar a eles os prazeres que lhes eram negados por mulheres, como a Zica, “humirdes”, mas muito honestas e fieis aos seus parceiros, aos seus amores.

Naquela mesma noite de 1960, aconteceu um fato jocoso: Um “fresco” (assim era chamado, em Santarém, o homossexual), pessoa modesta e pouco “letrada”, estava tranqüilamente em um dos cantos da praça, tentando arranjar um parceiro, quando, de repente, o encarou um conceituado médico da cidade, que já havia tomado umas e outras, e lhe disse: “Boa noite, pederasta!” – Pensando que se tratava de um elogio à sua pessoa, pois ignorava o significado da palavra, respondeu: “Quem sou eu, doutor? Pederasta é o senhor, o seu pai, os seus filhos...”. Bons tempos aqueles!

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Família Rural

Dom Tiago plantou a semente e, em 5 de julho de 1964, o sonho virou realidade: foi inaugurada, com muita festa, a Rádio Educadora de Santarém (hoje, Rádio Emissora de Educação Rural).

Quem nela trabalhou ou trabalha
Tem valor, é respeitado.
A sua fama se espalha
Seu nome é sempre lembrado

Francisca Carvalho, Antônio Pereira e Manoel Dutra
Frei Juvenal, Haroldo Sena, padres Waldir e Edilberto
Comandantes seguros, competentes
Dinâmicos, exemplos de dignidade

Anadir Brito, Getúlio Sarmento e Conceição Castro
Na linha de frente, no escritório comercial
Atendimento cortês e de qualidade
Arranjar a grana era a sua especialidade

Frei Nestor, Frei Roberto, Fernando Guarany e Djalma Serique
Técnicos zelosos e competentes
Mantinham a emissora no ar
Todo dia, toda hora, sem parar

Clenildo, Silvério, Juredir e João Brito
Cesário, Manolo, Evadir, Erasmo e Tadeu Maia
Controlistas de som, merecem louvores
Eram anjos da guarda dos locutores

Sinval, Santino, Eduardo Ferreira e Leal de Souza
Gervásio, Eulálio, Benedito Sirotheau e Walter Pinheiro
Belas vozes, bons comunicadores
Eficientes, grandes valores

Dolzanes, Edinelson, Osvaldo e Gerson Gregório
Oti Santos, Tony Reis, Jota Parente e Abib Bechara
Nomes expressivos, sempre unidos
Admirados e queridos

Edinaldo, Ercio, Natalino e Osmar Simões
Tadeu Matos, Dário Tavares, Edimar e Claudio Serique
No palco, no estúdio, nos estádios, sempre estavam
Faziam sucesso, abafavam

Peninha, Eriberto, Bena Santana e Sampaio Brelaz
Os craques das notícias
Responsáveis pelos plantões
Com atualizadas informações

Maria dos Remédios, a discotecária
A fada madrinha dos programas
Amável, eficiente, um amorzão...
Selecionava músicas ao gosto do povão
 
Ronnie Dantas, Bena Lago, Raik Pereira, Ivaldo Fonseca,
Minael Andrade, Wander Luiz, Cleo Neves,
Miguel Pinto, Francimar Farias, Thompson Mota e Joelma
Ao microfone, também produziram bons frutos

Esta é a minha Família Rural
Gente boa, gente simples, gente capaz
Gente amiga, gente trabalhadora, gente leal
Colocando amor no que fez e no que faz

Nota do Ercio: Se omiti algum nome, perdoem. A minha memória não está muito boa. Agradeço se forem lembrados outros profissionais que trabalharam ou trabalhem atualmente na Rádio Rural, para que eu possa acrescentar nesta minha homenagem aos queridos colegas radialistas de ontem e de hoje.