terça-feira, 27 de setembro de 2016

Entrevista da Dra. Albertina Duarte

Entrevista publicada na Revista J.P, por Paulo Sampaio
J.P: Recentemente, o estupro coletivo de uma adolescente no Rio deixou a opinião pública estarrecida. Surgiram casos semelhantes em todo o país, sempre em classes menos favorecidas. Existe relação entre o ambiente e o evento? 
Albertina Duarte: Situações sociais trágicas podem levar a comportamentos extremos. Essas adolescentes não têm acesso à educação, à saúde, à cultura, não existe um projeto de futuro. Há um caso que não esqueço, de uma menina que engravidou na roda do funk. Ela dizia que não gostava do filho, que foi a mãe que insistiu para ela ter. A mãe é religiosa, contra o aborto, e não admite que foi estupro, sustenta que a filha quis ir ao baile.
J.P:  Com que frequência a senhora lida com casos assim?
AD: Todos os meses. Quarenta por cento dessas jovens acham que tudo bem ter relações no funk. Existem as crecheiras, que cuidam dos filhos das outras, enquanto elas vão para o baile. Lá, há uma prática que eles chamam de “táuba”. A adolescente deita e é penetrada por uma fileira de homens. Ou, então, eles deitam lado a lado e ela faz “cavalinho” um por um. Aí, há os “filhos da táuba”, frutos de um estupro de que ninguém está falando.
J.P: Ao mesmo tempo que elas acham que “tudo bem”, é complicado dizer que é consentido.
AD: Sim, porque não foi uma decisão, foi uma falta de decisão. Qual o empoderamento dado a essas adolescentes? Que acolhimento da sociedade tem uma menina que foi estuprada aos 13 anos e engravidou? Ela voltou para a escola? Ela foi mãe, continua mãe, mas não foi mulher. Até os 14 anos, por lei, qualquer relação sexual é considerada estupro presumido. No Brasil, 28 mil garotas por ano engravidam entre 10 e 14 anos; a cada 19 minutos, nasce o produto de um estupro. Então, o estupro coletivo já existe. O estupro social. Resta uma situação de vulnerabilidade.
J.P:  Incluindo as doenças sexualmente transmissíveis.
AD: Sim, e ninguém se preocupa com isso. Ainda bem que o abusador em geral é incompetente, não tem prazer na penetração, mas na submissão. Então, a relação se dá muito rapidamente e não é orgástica.
J.P:  O caso do Rio reacendeu de forma contundente uma questão muito cara às mulheres. A reação nas redes sociais foi imediata.
AD: Muitas já foram abusadas, então aquela situação desperta uma indignação interna. Eu diria que 20% das mulheres que passaram por isso não contam, mas não esquecem. Há vários tipos de estupro. Por exemplo, quando a mulher se sente “obrigada a consentir” a relação sexual com o marido.
J.P:  Na cama, há quem se porte como se não houvesse tempo a perder. Aparentemente, o timing dos relacionamentos está mais acelerado.
AD: Ninguém mais tem tempo para discutir as relações. Os espaços reservados para isso estão cada vez menores e mais profissionalizados. De repente, se eu estou com um problema, procuro a escuta de um psiquiatra, um psicólogo, um astrólogo; se quero manter a relação, vou atrás de uma terapia de casal. Geralmente, o momento em que se diz “eu não aguento mais te ouvir falando dos meus defeitos” acontece em uma situação de ruptura, quando o casal está para se separar. Eu tenho proposto que os dois tirem um dia para sair, jantar, tomar um vinho, dançar. A mulher precisa de um espaço para se sentir desejada.
J.P: Em caso de traição, existe diferença entre a maneira de pensar do homem e da mulher?
AD: Hoje eu concordo plenamente com a tese de que o homem trai para ficar no casamento, e a mulher, para sair. Ele busca um aditivo, mas preserva a relação estável que tem com a família. Então, quando ela o confronta, diz que o viu com outra, grita, joga na cara, ele nega sempre. Já a mulher costuma se envolver na relação extraconjugal e logo pergunta: “Será que eu deixo o meu casamento?”. Quando ela me fala: “Eu contei mesmo que o traí, queria ver a cara dele”, eu sempre digo para tomar cuidado com o “sincericídio”.
J.P:  A internet mudou a “qualidade” da traição?
AD: No mundo virtual, ela parece ser mais difusa. Antigamente, quando havia uma pessoa física, real, a traída ligava para ela e xingava, ameaçava, escandalizava. Na internet, as possibilidades, os códigos, os canais são infinitos. A paciente chega e diz: “Eu descobri com quem ele conversa (na net)… Mas tem as que eu não descobri!”. É como se houvesse uma constelação. Às vezes, no meio da consulta, a paciente saca o computador e diz: “Entrei no Face dele, olha aqui”. A tela do computador é muito forte, entra no cérebro, a pessoa fica transtornada.
J.P:  As reações à traição variam?
AD: Em 40 anos de profissão, nunca vi uma mulher preocupada em saber se a “outra” é inteligente ou bem-sucedida. As perguntas sempre são: “Ela é jovem?”, “Bonita?”, “Boa de cama?”.
J.P: O que é pior para o marido, que a mulher o traia com outro ou com outra?
AD: O marido que é trocado por uma mulher fica desesperado, chega a me telefonar para me perguntar se a esposa estava com problemas hormonais. Acho que ele pensa que uma taxa baixa de testosterona, ou de estrógeno, pode levar à traição.
J.P:  E quando o homem fica com outro?
AD: Costuma ser menos complicado (para a mulher). É como se ela não tivesse culpa, o problema é com ele.
J.P:  A relação que as mulheres têm com o sexo é diferente da dos homens. Muitas reclamam de pressa. Será que isso tem a ver com o número cada vez maior de relacionamentos homoafetivos entre elas?
AD: Na minha experiência, as mulheres casadas que se encontraram em uma relação lésbica afirmam que a companheira dá a elas tudo o que o homem não foi capaz; trata bem, vai buscar no trabalho, se preocupa em saber como ela está.
J.P: A escolha por mulheres, nesse caso, seria “culpa” dos homens?
AD: Basicamente, tudo o que a mulher quer é ser desejada. Quando ela sente que a outra pessoa a deseja de um jeito profundo, esse movimento é muito forte, aí entra a substituição.
J.P:  A relação da mãe com o filho costuma ser diferente da do pai. Em casais homoafetivos, a criança será criada por dois homens, ou duas mulheres. Faz falta ter um pai do sexo masculino e uma mãe do feminino?
AD: Acredito que o desejo de ser pai ou mãe, em um casal homoafetivo, tende a ser mais verdadeiro. Porque os gays e lésbicas enfrentaram tantos preconceitos, dores e riscos que esse passo de adotar uma criança já foi profundamente elaborado. Até chegar nisso, eles já se conhecem muito, discutem o assunto por todos os ângulos.  Entre héteros, fala-se de filhos como uma “consequência natural”.
J.P:  O homem é tão cobrado a ter filhos quanto a mulher?
AD: Nunca vi uma família perguntar ao rapaz por que ele não quer filhos. Aliás, se um homem vive com uma mulher, e ela não engravida, a culpa é dela. Eu costumo pedir o teste pós-coito, que poucas pessoas fazem. Serve para avaliar a vitalidade e a persistência do espermatozoide no canal vaginal. Eu gosto desse teste porque desafia o casal, valoriza a relação. Nas pesquisas que fizemos com homens, a pergunta que eles fazem sempre é: “Será que eu sou o pai?” e nunca “Será que eu serei pai?”.
J.P: De certa forma, a possibilidade de congelar os óvulos tirou dos ombros da mulher a pressão para ser mãe?
AD: A tecnologia libertou a mulher da maternidade. Na medida em que posso congelar um óvulo e usar quando tiver 47, 48 anos, eu tenho uma ferramenta incrível de independência. É claro que custa dinheiro, mas é por isso que eu defendo a autonomia financeira da mulher. Hoje, ela pode congelar óvulos e embriões. Se estiver em uma relação e quiser ter um filho, mas não naquele momento, faz a fertilização e guarda por até cinco anos.
J.P: Mas e se ela não estiver mais com o companheiro (ou ele não quiser ser o pai)?
AD: Muitos homens são pais fora do casamento, sem consultar as mulheres. Algumas vão saber desses filhos 20 anos depois.
J.P:  E se ela não tiver condição de criar o filho, e for atrás do pai?
AD: É por isso que eu recomendo maturidade ao tomar a decisão de ter um filho. Se a ideia é ter sozinha, melhor abordar o assunto em uma terapia. Ser mãe não é comprar um carro novo. Vejo mulheres que tratam a maternidade como um evento. Perguntam-se do chá de bebê, quem será o padrinho, onde fará a festa de 1 aninho. Criar filho é com 1 ano, dois, 50, algo que nos desafia sempre. Não existe ex-mãe.

O exército do 'Fora, Temer'

Por Arnaldo Jabor - Estadão
Eu também quero ser feliz. Fico com inveja dos manifestantes que berram “Fora, Temer”, orgulhosos, iluminados pela certeza de que lutam pelo bem do Brasil. Tenho inveja deles. Nada é mais cobiçado do que a chamada “boa consciência”, a sensação de estar do lado certo da história ou da justiça. Tenho inveja de famosos artistas e intelectuais que aderiram à causa do “Fora, Temer”, se bem que ainda não consegui entender o labirinto ideológico dentro de suas cabeças que desemboca nesses protestos. Fico inquieto, mas logo me tranquilizo, porque eles, pessoas especiais, têm um fino saber e se tivessem tempo (ou saco) me elucidariam sobre suas profundas razões. Esforço-me, mas ainda não alcanço essa profundidade. Acho que tenho de me rever, fazer uma autocrítica. Talvez eu seja levado por minha cruel personalidade que, como eles dizem, não deseja o progresso do País. Eu sei que, ai de mim, talvez eu não passe mesmo de um fascista neoliberal, mas também sou um ser humano. Por isso, me entendam – eu quero ser salvo, doutrinado, catequizado pelo saber histórico dos manifestantes. Peço, por favor, que me ajudem a entender suas teses, para que eu saia das trevas da ignorância. Eu sou um pobre homem alienado, mas quero me atualizar. Por isso, trago algumas perguntas para me livrar dessas dúvidas pequeno-burguesas. Por exemplo:

Me expliquem porque a palavra de ordem é “golpe, golpe”. Como assim? – pensei, na minha treva: se a Suprema Corte, o Congresso, o Ministério Publico, a PGR, a Ordem dos Advogados, a Associação dos Magistrados do Brasil levaram nove meses para cumprir o ritual constitucional e legitimaram o impeachment, por que é golpe? A turma do “Fora, Temer” deve saber. Talvez, alguém da direita tenha envenenado a mente desses juízes, congressistas, advogados e procuradores. Quem, na calada da noite, se reuniu com eles e juntos planejaram um golpe contra a Dilma? Imagino a cena, tarde da noite num bar de hotel: ministros e juízes bebem e celebram, às gargalhadas, um plano para arrasar o PT. Me expliquem esse mistério, pelo amor de Deus.

Vejo, com assombro de inocente inútil, que ignorei a estratégia bolivariana quando Dilma declarou em campanha que, na economia, estávamos bem. Frívolo que sou, achei que o Dilma estava mentindo; mas, logo lembrei que era “mentira revolucionária” para ser eleita – hoje, entendo que Dilma fez bem em encobrir um rombo de 170 bilhões de reais com dinheiro dos bancos públicos.

Quebrou-se a Petrobrás, mas já posso ouvir nossa “intelligentsia”: “os fins justificam os meios e, se a Petrobrás era do povo, seu dinheiro podia ser expropriado para o bem do povo”. Na mosca. Espantei-me com a visão de mundo que justificou a compra da refinaria de Pasadena por um preço 30 vezes maior; pagamos por uma lata velha um bilhão e meio de dólares. Mas eu, um idiota da objetividade, tenho a convicção de que vocês me revelarão a límpida verdade: Dilma sabia da venda, mas fez vista grossa em nome de nossa salvação. Afinal, o que são um bilhão de dólares diante do socialismo (ou brizolismo) triunfante que virá?

Às vezes, em minha hesitante mediocridade, temi que os 50 mil petistas empregados no governo estivessem trabalhando para o PT e não para a sociedade, mas já ouço a voz de grandes artistas explicando-me, com doce benevolência, que a sociedade não é confiável e que os petistas não eram infiltrados, mas vigilantes de sua missão no futuro.

Houve um momento em que achei, ingenuamente, que a nova matriz econômica de Dilma e Mantega era o rumo certo para a catástrofe. Ou para o brejo. Mas, sei que os sapientes comunistas dirão que esse será um brejo iluminista que acordará as mentes para a verdade. Assim, respiro aliviado. Entendi-os: “mesmo a ruína poderá ser didática”. Eles dirão, imagino, que um poder popular não podia se ater a normas econômicas neoliberais e tinha de estimular o consumo. Isso criou 12 milhões de desempregados? Sim, mas, nossos teóricos rebaterão que, mesmo quebrando o País e provocando inflação, esses 12 milhões sentiram o gostinho das geladeiras e TVs e que isso é a criação de um desejo para o socialismo. Na mosca.

Confesso também que fiquei desanimado com o atraso de todas as obras prometidas, que o PAC não andou, que não devíamos financiar portos e pontes em Venezuela, Angola e Cuba, mas eles me ensinarão que a solidariedade internacional bolivariana é fundamental para a vitória de seu projeto. Quero me penitenciar também por ter me entusiasmado com a Lava Jato, que considerei uma mutação histórica. Depois, lendo os jornais e as explicações de gente lúcida como a barbie-bolivariana Gleisi Hoffman e Lindenberg Farias, o homem que salvou Nova Iguaçú, voltei atrás e vejo que Moro e seus homens não passam de fascistas que querem impedir o avanço das forças do progresso. A Lava Jato, hoje o sei, é de direita.

Às vezes, reacionários criticam o governo Dilma por gastar muito em publicidade, porque desde o início do governo do PT foram gastos 16 bilhões de reais. Eu achava isso errado, mas sábias palavras me provarão que a população é uma grande “massa atrasada” e que há que lhes ensinar a verdade do capitalismo assassino.

Também achei pouco elegante a difusão pelo mundo da tese de que um golpe terrível tinha se passado no Brasil, achei que uma presidenta não podia espalhar uma difamação sobre o próprio país. Mas, artistas e intelectuais vão sorrir com superioridade e me ensinar (já os vejo...) que a adesão internacional é mais importante que velhas fronteiras nacionais.

Por isso, creio que estou pronto para minha reforma mental. Estou pronto para renegar minhas dúvidas pequeno-burguesas. E logo poderei fazer parte daqueles que invejo por seus rostos iluminados de certeza, por sua sabedoria acima da história e do obvio.

Assim, poderei participar desses protestos, me sentir um revolucionário e gritar, de punho erguido e fronte alta: “Fora, Temer!!”.

Os melhores restaurantes da América Latina

1. Central, Lima (Peru)
2. Maido, Lima (Peru)
3. D.O.M., São Paulo (Brasil)
4. Boragó, Santiago (Chile)
5. Pujol, Cidade do México (México)
6. Quintonil, Cidade do México (México)
7. Astrid y Gastón, Lima (Peru)
8. Maní, São Paulo (Brasil)
9. Tegui, Buenos Aires (Argentina)
10. Biko, Cidade do México (México)
11. Sud 777, Cidade do México (México)
12. La Mar, Lima (Peru)
13. El Baqueano, Buenos Aires (Argentina)
14. Gustu, La Paz (Bolívia)
15. Amaranta, Toluca (México)
16. Leo Cocina, Bogotá (Colômbia)
17. Olympe, Rio de Janeiro (Brasil)
18. Lasai, Rio de Janeiro (Brasil)
19. Pangea, Monterrey (México)
20. Ambrosia, Santiago (Chile)
21. Don Julio, Buenos Aires (Argentina)
22. 99 Restaurante, Santiago (Chile)
23. Parador La Huella, José Ignacio (Uruguai)
24. A Casa do Porco, São Paulo (Brasil)
25. Roberta Sudbrack, Rio de Janeiro (Brasil)
26. Aramburu, Buenos Aires (Argentina)
27. Osso Carnicería y Salumeria, Lima (Peru)
28. Mocotó, São Paulo (Brasil)
29. Criterión, Bogotá (Colômbia)
30. Rafael, Lima (Peru)
31. Elena, Buenos Aires (Argentina)
32. Alto, Caracas (Venezuela)
33. La Cabrera, Buenos Aires (Argentina)
34. Fiesta, Lima (Peru)
35. Chila, Buenos Aires (Argentina)
36. Maito, Cidade do Panamá (Panamá)
37. Nicos, Cidade do México (México)
38. Malabar, Lima (Peru)
39. Corazon de Tierra,, Baja California (México)
40. Harry Sasson, Bogotá
41. Isolina, Lima (Peru)
42. 1884, Mendoza (Argentina)
43. Osaka, Santigo (Chile)
44. Remanso do Bosque, Belém (Brasil)
45. Tuju, São Paulo (Brasil)
46. La Bourgogne, Punta del Leste (Uruguai)
47. Tierra Colorada, Assunção (Paraguai)
48. Dulce Patria, Cidade do México (México)
49. Andres Carne de Res, Bogotá (Colômbia)
50. Pura Tierra, Bueno Aires (Argentina)

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Diversidade e desunião

Editorial - Estadão
O PMDB, todo mundo sabe, não é exatamente um partido político orgânico, com uma linha programática claramente definida, mas uma federação de interesses políticos frequentemente conflitantes que só se unem para a conquista ou a manutenção do poder. Pois agora o PMDB é o poder, ele próprio. Deixou de ser coadjuvante. Mas continua sendo a tal federação, na qual cada um fala por si mesmo, e isso não tem ajudado o presidente da República, o peemedebista Michel Temer, a perseguir com tranquilidade e segurança o objetivo de tirar o País da crise a que o lulopetismo o relegou. Agora mais do que nunca poderosos, os ministros de Estado – talvez invejosos da relativa autonomia que por razões óbvias foi conferida à área econômica conduzida pelo ministro Henrique Meirelles – têm-se deixado levar, no mínimo, pela tentação de virar notícia e acabam produzindo nada além de um enorme ruído de comunicação que tem colocado Michel Temer em frequentes saias-justas e disseminado a impressão de que seu governo é uma nau sem rumo.

A semana passada foi pródiga em maus exemplos dessa polifonia verbal. Com Temer em Nova York para a Assembleia-Geral da ONU, o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, sentiu-se à vontade para discorrer sobre sua convicção de que caixa 2 não é crime e por essa razão quem o pratica não pode ser punido. Foi repreendido a distância pelo chefe, que considerou aquela manifestação “surpreendente” e produto de opinião “personalíssima” do ministro.

O grave na manifestação de Vieira Lima não é apenas o fato de tê-la feito à revelia do presidente, mas a evidência de que representa fielmente a opinião da maior parte da federação peemedebista. Aliás, é exatamente por saber disso que o ministro se sentiu à vontade para manifestar essa opinião e reiterá-la, com ironia e jogo de palavras, na réplica ao puxão de orelhas que sofreu: “Se o Ministério Público manda para a Câmara uma proposta de criminalização de caixa 2, vai se criminalizar o que já é crime? Ou não é crime e precisa se criminalizar? Se não é crime e precisa criminalizar, quem fez no passado não cometeu crime. Se já é crime e vai se punir quem fez no passado, não precisa criminalizar”. Poderia ter dito apenas que caixa 2 é “uma bobagem”.

Os aliados também se sentem no direito de colocar as manguinhas de fora. Dois outros ministros, o petebista Ricardo Barros, da Saúde, e o pepista Ronaldo Nogueira, do Trabalho, botaram mais cravos na coroa de espinhos de Michel Temer. Barros, campeão de bolas fora, aumentou o repertório com a declaração de que não tem certeza de que a PEC do teto para os gastos públicos – proposta considerada vital pelo governo – será aprovada no Congresso. Com ministro assim, para que a oposição?

Por sua vez, Ronaldo Nogueira, homem do PP que comanda o Ministério do Trabalho, declarou acreditar que a reforma trabalhista – outro item prioritário – será adiada para o segundo semestre de 2017. O presidente em exercício, Rodrigo Maia, reagiu imediatamente: “Às vezes, é melhor falar pouco e produzir mais”.

É claro que os maus exemplos de autossuficiência dados pelos próprios peemedebistas estimulam os aliados que compõem o Ministério a multiplicar esses ruídos de comunicação prejudiciais não apenas à imagem do presidente e sua equipe, mas também ao difícil trabalho político de convencimento que precisa ser realizado no Congresso Nacional.

Temer está aparentemente preocupado com a questão da Comunicação, tanto que cogitou contar com a assessoria de um grupo de especialistas no assunto. Mas fê-lo desajeitadamente, com grande publicidade promovida por um de seus autointitulados assessores íntimos. A conversa terminou com a recusa pública de um suposto candidato ao posto de porta-voz, mostrando todo esse episódio que a inabilidade política daquela turma só é superada pela vontade de aparecer.

Resta de positivo, ainda, a autoridade presidencial. Temer, político talvez disposto demais à conciliação, tem dito que prefere sempre ouvir antes de decidir. Isso é bom. Mas a unidade do governo em torno de suas decisões precisa ser preservada acima da diversidade de opiniões e interesses que abriga. Não cabe no Ministério, portanto, quem acha que pode usar o cargo que ocupada para defender opiniões “personalíssimas”.

domingo, 25 de setembro de 2016

De dentro e de fora

Editorial - Folha de SP
A Lava Jato nunca viveu sob tanto risco quanto agora. Sofre ameaças externas, como seria de esperar, mas também internas, o que provoca consternação e surpresa.

No campo da política, a manobra vergonhosa quase levada a cabo na segunda-feira (19) atesta quão longe os congressistas se dispõem a ir no intuito de esterilizar as investigações. Por muito pouco não terminou aprovado um projeto cujo objetivo era simplesmente anistiar caixa dois praticado até agora.

A despeito da repercussão negativa do episódio, o ministro Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo) se sentiu à vontade para defender o perdão. "Esse debate tem que ser feito sem medo, sem preconceito, sem patrulha e sem histeria", afirmou ao jornal "O Globo" o articulador político da administração Michel Temer (PMDB).

Com a mesma sem-cerimônia, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), voltou a propugnar por medidas que protejam as garantias individuais dos investigados e, numa referência à apresentação midiática da denúncia contra Lula feita pelo Ministério Público Federal, criticou o exibicionismo da força-tarefa da Lava Jato.

Não é difícil imaginar os verdadeiros propósitos de Renan, ele próprio às voltas com a Justiça. Igualmente difícil, todavia, é tirar-lhe razão nesse caso específico. Houve evidente exagero no constrangimento que os procuradores impuseram ao ex-presidente.

Na última quinta-feira (22), outro petista viu-se alvo de medida exagerada e desnecessária. Trata-se do ex-ministro Guido Mantega (Fazenda), preso enquanto sua mulher passava por cirurgia no hospital -e solto cinco horas depois.

Acusa-se Mantega de, em 2012, ter pedido R$ 5 milhões a Eike Batista. Segundo o empresário relatou, o dinheiro se destinaria a quitar dívidas de campanha do PT e foi transferido por meio de contrato fraudulento. Suspeita-se que o pagamento fosse compensação por negócios de Eike com a Petrobras.

A trama soa coerente com tudo o que se sabe acerca do escândalo do petrolão. O ex-ministro deve ser investigado e, se condenado, arcar com as sanções previstas em lei. Nada parecia justificar, contudo, sua prisão provisória -e a própria soltura confirma a tese.

Resvalando perigosamente no arbítrio, excessos desse tipo interessam sobretudo aos detratores da Lava Jato. Causam danos à imagem da investigação, ajudam os que se fingem de vítimas e facilitam a ofensiva dos políticos.

As autoridades envolvidas com a operação têm demonstrado grande dificuldade em reconhecer os erros que cometem. Se tiverem raciocínio estratégico, porém, perceberão que a estrita observância da lei é a melhor defesa da Lava Jato contra os que pretendem enterrá-la.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Alzheimer: Saiba quais os principais mitos da doença

Veja abaixo através da consultoria do especialista algumas inverdades que nós leigos dizemos a respeito do Alzheimer.
Quem tem Alzheimer não consegue compreender o que se passa ao seu redor
A pessoa com a doença, apesar das dificuldades de memória e dos outros sintomas, se mantém consciente do que acontece ao seu redor. Apenas nos estágios avançados isso muda. Ao contrário do que muita gente pensa, o idoso com Alzheimer não passa a ser uma criança, continua sendo fonte de sabedoria e merece o respeito de todos.
Esquecer as coisas significa ter o mal de Alzheimer
Esse é um dos grandes mitos. Problemas de memória podem estar relacionados a diversos fatores, como outras demências e principalmente o estresse e a depressão. Além disso, a doença de Alzheimer vai atingir a memória recente, enquanto a memória de fatos acontecidos há mais tempo (como na infância) são preservadas, no início da doença. A pessoa com Alzheimer, afirmam especialistas, tem memória de curto prazo comprometida, demonstrando dificuldade cada vez maior de memorizar, registrar novas informações e aprender coisas novas. No entanto, sua memória episódica, ou seja, de longo prazo, está preservada, no início.
A vida acabou
Muita gente acha que só porque o paciente recebeu o diagnóstico da doença a vida acabou. Nada disso! Atualmente, com o tratamento e orientação adequados, uma pessoa com a doença pode sobreviver mais 20 anos, após o diagnóstico. Muitos pacientes, se bem estimulados, têm excelente qualidade de vida, divertem-se, relacionam-se de maneira prazerosa e agradável e levam uma vida bem organizada.
É doença de gente idosa
Quem disse?! Estudos mostram que o Alzheimer pode sim se manifestar em pessoas com menos de 65 anos. Embora rara, a Doença de Alzheimer de Início Precoce com menos de 60 anos, é caracterizada por um declínio mais rápido das funções cognitivas e possivelmente está relacionada com alteração genética.
A manifestação da doença é igual para todos.
A doença se manifesta de forma muito diferente entre as pessoas. Umas são mais calmas, outras tem alteração do comportamento, outras são fáceis de cuidar e algumas há necessidade de internação devido à complexidade do quadro.
O Alzheimer é genético
Na grande maioria não. Somente uma pequena porção da doença tem relação direta com alteração genética. Ainda que não se saiba todos os mecanismos genéticos envolvidos na doença de Alzheimer, alguns genes já estão reconhecidos, mas ainda há um bom caminho a andar. Mas a maior causa da doença ainda é o estilo de vida e seu tratamento a prevenção.

Estranha impunidade

Editorial - Estadão
O notório senador Renan Calheiros investe-se de superioridade moral para criticar o “exibicionismo” dos integrantes da Operação Lava Jato. Trata-se da mesma pessoa, que a lassidão dos costumes reconduziu à presidência do Senado Federal, que em 2007 precisou renunciar ao mesmo posto para salvar o mandato de senador e está sendo investigado agora em 12 inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF), 9 deles relativos à Lava Jato. “Exibicionismo” é a exposição dessa folha corrida, simultânea à farisaica exibição de virtudes cívicas – tudo com o óbvio objetivo de evitar que se faça justiça.

O alagoano José Renan Vasconcelos Calheiros, filiado ao PMDB, é o que se pode definir, em toda a extensão pejorativa do termo, como um político profissional. Como tal, aferra-se à convicção de que o eleitor tem memória curta e sente-se à vontade para praticar o adesismo irrestrito que o tem levado a aliar-se sempre aos poderosos de turno, no interesse de suas próprias conveniências políticas. De Collor a Dilma, Calheiros esteve sempre no poder.

Quando era deputado estadual em Alagoas, Calheiros acusava o então prefeito de Maceió, Fernando Collor de Mello, de ser o “príncipe herdeiro da corrupção”. Já deputado federal, com a eleição de Collor à Presidência da República, em 1989, tornou-se seu líder na Câmara dos Deputados e, entre outras proezas, anunciou uma ampla devassa no governo anterior, de José Sarney. Mas não conseguiu o apoio de Collor para se eleger governador de Alagoas em 1990 e virou-se contra ele, acusando-o de traição.

Com Itamar Franco na Presidência após a renúncia de Collor, Renan assumiu por cerca de dois anos a vice-presidência da Petroquisa, subsidiária da Petrobrás.

Fernando Henrique Cardoso tornou-se presidente da República em 1995 e já encontrou Renan Calheiros na cúpula do PMDB. Aceitou nomeá-lo ministro da Justiça, por indicação do senador Jader Barbalho (PMDB-PA).

Em 2002, o PMDB fez uma aposta eleitoralmente errada e apoiou a candidatura tucana de José Serra à Presidência da República. Mas o equívoco foi imediatamente corrigido após a vitória de Lula. O PMDB passou a integrar a base aliada do novo governo e, em fevereiro de 2005, o PT apoiou a primeira eleição de Renan para a presidência do Senado Federal. Dois anos depois, em fevereiro de 2007, o alagoano, já composto com seu correligionário José Sarney, reelegeu-se para o que seria um curto mandato, ao qual foi forçado a renunciar, em novembro, numa negociação que lhe preservou o mandato de senador.

O escândalo que ficou conhecido como Renangate estourou em maio de 2007, quando foi publicada a notícia de que a empreiteira Mendes Júnior pagava uma mesada de R$ 12 mil à amante com quem Renan tinha uma filha. Seguiram-se outras denúncias graves: a compra de uma emissora de rádio em Alagoas, em nome de laranjas; a emissão de notas fiscais frias para justificar rendimentos; tráfico de influência na compra de uma fábrica de refrigerantes. Ao todo, foram apresentadas seis representações ao Conselho de Ética do Senado pedindo a cassação do mandato de Renan.

Mas as transgressões de Renan Calheiros em 2007 eram brincadeira de criança em comparação com o que viria. Vale repetir: são 12 inquéritos junto ao STF, 9 dos quais relativos à Lava Jato. Em 7 de junho último, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, chegou a pedir a prisão de Renan Calheiros – como parte de um grupo ilustre de peemedebistas integrado também por José Sarney, Eduardo Cunha e Romero Jucá – sob a acusação de tentar obstruir os trabalhos da Operação Lava Jato.

A folha corrida de Renan Calheiros distingue-se, por exemplo, da de Eduardo Cunha, que já teve o mandato cassado, porque o alagoano é um devoto das sombras e evita desafiar abertamente o governo – qualquer governo. Mas isso não explica por que Renan Calheiros continua se beneficiando da proverbial morosidade da Justiça, o que o estimula a desafiá-la com crescente desassombro.