quinta-feira, 30 de março de 2017

Entrevista de Luciano Huck

Folha - Como explica a trajetória de apresentador que lançou Tiazinha e que hoje leva ao palco prêmio Nobel da Paz e professor de ética de Harvard?
Luciano Huck - Fui amadurecendo. A pauta pessoal norteia muito a tua comunicação. Há 20 anos, meu universo era de menino. Orbitava na escola ou na faculdade em que estudava, nos amigos que carregava desde a infância. Fui ampliando as áreas de interesse, tentando entender qual é a minha missão no mundo como apresentador, pai, marido, brasileiro, cidadão.
Qual é sua missão?
O poder que conquistei através do microfone é resultado de muito trabalho. Tenho 40 milhões de seguidores nas redes sociais e 18 milhões de pessoas todo sábado assistindo ao programa. Espero dar muito trabalho para o meu biógrafo. No final da história, ficarei contente se puder ter melhorado o mundo à minha volta. Não gosto da ideia de viver de forma passiva. Somos curadores em tempo integral do futuro que queremos, precisamos imaginá-lo e criá-lo.
Que marca quer deixar?
A minha geração tomou as rédeas do dia a dia. Você vê um ministro do Supremo de 47 anos [Alexandre de Moraes, que tem 48]. O CEO da BRF [Pedro Faria] tem 42. É uma geração que ainda não está na política como deveria, mas vai estar. A renovação que a gente precisa passa por uma renovação geracional. Tive o privilégio, que pouca gente tem, de entrar nas casas das pessoas. Viajei o Brasil todo. Sem nenhum crachá político. Estou numa fase altamente produtiva, líder de audiência em um espaço relevante e comercialmente viável. Bicho, vamos usar isso para o bem.
Você abre a temporada com um quadro chamado "Inspiração". O que te inspira?
Tropeçar em pessoas que tenham capacidade de tirar do papel ideias que melhorem a vida das demais. As lideranças no mundo têm que reunir quatro características principais. Carisma é fundamental, capacidade de implementação. Mas, se ficar só nestas duas, você pode botar Hitler e Gandhi no mesmo saco. Acrescenta ética e já tira um monte da lista. Só que a pessoa carismática e ética pode ser egoísta. Aí coloca o altruísmo e você encontra os líderes que admiro.
Você se enxerga nestas caraterísticas?
Ih, eu preciso melhorar muito. Você não nasce necessariamente altruísta. As experiências de vida vão te ensinando.
São qualidades que candidatos à Presidência da República deveriam ter?
São características fundamentais para que alguém de fato possa transformar o país e aproveitar essa oportunidade, que é o colapso político e a crise ética, para liderar um projeto novo de país.
Há dez anos, você declarou que poderia se lançar à Presidência no futuro. Esse momento chegou?
Esta é sempre a pergunta pegadinha. Não dá para responder na atual conjuntura. Falando seriamente, nossa geração chegou a um momento em que tem capacidade, saúde, força de trabalho, relevância, influência. Quem entrou na faculdade em 1990 está chegando agora aos espaços de poder. Faço parte desta geração. Estamos vivendo um trauma moral e ético que se soubermos capitalizar para o bem, tenho convicção de que daqui a 10, 20, 30 anos vamos ter um país de fato diferente e mais justo.
Fazendo política?
Já faço política, fazendo televisão aberta no Brasil, com o poder que a Globo tem, trazendo boas histórias, dando opinião. Agora, se me perguntarem se vou concorrer a algum cargo eletivo, eu não sei responder. E qualquer tipo de resposta é especulação, fofoca.
Há pesquisas que já mostrariam seu nome entre os candidatos. Você foi informado dos resultados de tais sondagens?
Cara, o Brasil precisa de renovação e tem uma classe política completamente desmoralizada, sem nenhum apelo popular, atração, charme. Se vou ser eu, não faço a menor ideia. Quero poder ajudar a identificar lideranças. A resposta à pergunta objetiva é não.
É assediado por partidos?
Não vivo encastelado. Tô na favela, no sertão, em Brasília. Tenho amigos políticos, nas Forças Armadas, na torcida do Corinthians, na favela, no samba, no futebol.
Você não respondeu à pergunta. Partidos o assediam?
Nunca efetivamente.
Não teve convite para se lançar a nada?
Não, mas também não te responderia [risos].
Você foi às manifestações?
Não fui pra rua. Tenho minha opinião pessoal.
Qual é?
A mobilização não é contra A, B, C. O sistema todo entrou em colapso. Independentemente de partido, de ideologias. E a falência do sistema como um todo é uma oportunidade como poucas na história do Brasil. Vamos aproveitar que o castelo caiu e construí-lo direito, em outras bases. Bicho, vamos colocar a base da ética, da transparência. Independente de que partido você é, da cor da bandeira que você levanta. Todo mundo deveria querer usar as ferramentas políticas e o poder do Estado para melhorar a vida de todos.
Como fazer isso diante da polarização?
O único jeito de arrumar esse país é se a gente conseguir fazer um pacto apartidário. Sem revanchismo, sem revolta. Se foi golpe ou se não foi golpe, não importa.
E como mudar esse sistema?
O presidente Michel Temer pode ficar para a história do Brasil se souber usar a impopularidade dele para fazer o que precisa, para corrigir os erros da construção da nossa democracia. Fazer voto distrital e um monte de coisas para acabar com incongruências, vícios. Outro dia, fui gravar no interior de Alagoas, com uma empreendedora social. O município tinha IDH horroroso, com 50% de analfabetos. A iniciativa dela tinha, de verdade, transformado a comunidade. Na segunda gravação, apareceu a prefeita, não vou dar nome, que não tinha nenhuma conexão com o lugar. Ia lá duas vezes por mês, morava em Maceió. Óbvio que foi eleita porque o sistema está errado.
O que espera da Operação Lava Jato? Qual é a sua opinião sobre o juiz Sergio Moro?
Sou a favor de todos os movimentos que ajudem a refazer e ressignificar as bases morais e éticas do Brasil. E sem dúvida a Lava Jato é o principal deles. Moro é um homem de coragem, e tenho certeza que os ecos das suas atitudes irão trazer muito benefícios para as próximas gerações.
Dos nomes já colocados, você tem alguma preferência para 2018?
Se falar isso agora, eu vou estar me colocando. Não é hora. Tem muita gente se organizando pra isso, com projeto legal, boas ideias, vontade de botar a mão na massa e vocação pública. Só precisa de fato dar espaço para quem não está viciado em velhas práticas.
Acham que você é tucano?
Eu não sou tucano, mas sou muito próximo do Fernando Henrique, a cabeça mais moderna do Brasil, e ele tem 85 anos. Sou amigo do Aécio [Neves, senador mineiro] desde que passei a dividir minha vida entre Rio e São Paulo, há 17 anos. Tenho carinho por ele, mas foram pouquíssimas as vezes que misturamos esta amizade com política.
FHC andou falando a interlocutores que você poderia ser um nome em 2018?
O presidente gosta de mim, é meu amigo. Minha mãe é urbanista e casada há décadas com o economista Andrea Calabi, que participou ativamente dos principais governos tucanos no âmbito federal e estadual. Natural que a política tenha pautado vários almoços e jantares familiares desde que me entendo por gente. Minha visão política não vou colocar aqui publicamente neste momento. É delicada. Temos que ver como vai ser o financiamento de campanha. Quem pode dar dinheiro para campanha de maneira legal.
Neste cenário, a campanha de um nome da TV seria mais barata, por ser conhecido.
Não tem campanha nenhuma. O que vai acontecer em 2018 está ainda em aberto. Grande incógnita. Isso angustia todo mundo, o cidadão normal, a imprensa, quem quer investir no Brasil. A solução pode ser muito boa, pois esse colapso da classe política pode gerar lideranças positivas, como também pode gerar lideranças controversas.
O brasileiro anda com a autoestima lá embaixo mesmo com Copa e Olimpíada?
De novo, não tem liderança. Não tem projeto. Você não vê ninguém fazendo sinapses e reflexões que de fato inspirem a sociedade como um todo. A hora em que aparecer uma liderança que faça as pessoas acreditarem que vai ter um novo capítulo de ética, de altruísmo, junta todo mundo. São Paulo é um bom exemplo.
Por causa da eleição do João Doria?
Sem dúvida. João não é político tradicional, não tem os vícios nem coisas debaixo do tapete que a velha política teve. Isso faz diferença.
Como lidou com as vaias no Maracanãzinho na Olimpíada?
Não vou ser unanimidade nunca. Mas estou em paz com minha consciência. O que a minha carreira me proporcionou e as relações que construí, eu estou usando para o bem. E não só de quem está a minha volta. Podem não gostar do que eu faço, da televisão que eu produzo, do que eu penso, mas eu sou isso aí.
O que achou da entrevista do seu irmão Fernando Grostein à Folha, falando sobre a homossexualidade dele?
Nunca falei isso publicamente porque a vida é dele. Ser meu irmão, imagino que tenha os prazeres, mas já é um fardo. Fernando me contou isso quando tinha 19 anos, e eu, 28. Desde o primeiro dia, nunca foi um problema. E nunca será. Ele é um menino muito inteligente e fora na curva na capacidade de realizar e de defender as bandeiras dele, sempre com muita relevância.
Uma das causas é o filme "Quebrando o Tabu", que defende a descriminalização das drogas. Você também defende?
Eu produzi o filme com ele. Tenho absoluta certeza de que a guerra às drogas e o que foi feito até aqui não funcionou. As comunidades estão cada vez mais armadas. O consumo nunca diminuiu, os presídios estão superlotados. Não é um problema de polícia, mas de saúde pública.

terça-feira, 28 de março de 2017

Previdência, desastre geral

Editorial - Estadão
A maior parte dos Estados tem encontro marcado com uma crise financeira devastadora, parecida com a do Rio de Janeiro, se nada fizerem para controlar o déficit nas contas previdenciárias. Essas contas estavam no vermelho em 22 Estados e no Distrito Federal em 2015 – e os problemas devem ter continuado a agravar-se no ano passado, segundo os dados preliminares. Entre 2009 e 2015 o déficit dos sistemas próprios de Previdência passou de R$ 49 bilhões para R$ 77 bilhões, soma correspondente a pouco mais de 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB). Esse levantamento, contido em nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), foi publicado ontem no Estado. Na semana anterior, o presidente Michel Temer havia decidido excluir Estados e municípios do projeto de reforma previdenciária mandado ao Congresso.

Essa exclusão reduz o custo político da reforma para o governo federal e pode, segundo fontes do Executivo, facilitar a aprovação do projeto. Mas de nenhum modo dispensa as autoridades estaduais e municipais de buscar solução para o desajuste cada vez maior de suas contas. Buscar solução implica, nesse caso, recalibrar as próprias finanças para garantir o funcionamento da administração e o cumprimento das obrigações do poder público, estadual ou municipal. Governadores, prefeitos e seus partidos terão de enfrentar os custos – políticos e fiscais – associados à revisão das normas previdenciárias.

Segundo o relatório do Ipea, o déficit previdenciário dos Estados diminuiu entre 2006 e 2008, muito ligeiramente, e cresceu com vigor a partir de 2009, chegando a 13,2% da receita corrente líquida. Em 2015, 4 unidades eram superavitárias, 1 tinha déficit inferior a 6,5% da receita corrente líquida, 14 estavam na faixa de 6,5% a 13%, 5 no intervalo de 13% a 19,5% e 3 acima deste nível. Os Estados em crise financeira mais funda estavam, naturalmente, nas duas faixas mais altas.

O agravamento da crise da Previdência a partir de 2009 é explicado pelos técnicos do Ipea com base em dois fatores principais. O primeiro é o contraste entre o aumento de servidores inativos (38% na última década) e a quase estagnação dos ativos. Cada trabalhador ativo passou, portanto, a sustentar um número maior de aposentados e pensionistas. O segundo fator foi o forte aumento salarial concedido aos servidores ativos e transferido aos inativos. A elevação real de salários entre 2006 e 2015 foi da ordem de 50%.

Ao manejar suas contas, e especialmente ao conceder aumentos de salários muito acima da inflação, as autoridades estaduais puderam exercer amplamente a autonomia típica de um regime federativo. Eles costumam defender esse tipo de autonomia. Num sistema razoavelmente equilibrado, no entanto, cuidar dos próprios problemas é a contrapartida habitual da autonomia.

É muito mais confortável e menos desgastante apelar para o governo federal para eliminar as dificuldades. Parlamentares defendem o mesmo ponto de vista, quando rejeitam a exigência de ajustes como contrapartida da ajuda federal. Usar recursos federais dessa maneira é assaltar os contribuintes dos demais Estados, convertidos em responsáveis pelos erros de alguns governos.

Não só políticos e alguns sindicalistas, no entanto, apoiam a irresponsabilidade fiscal e o irrealismo financeiro. Políticas desse tipo podem até mesmo ser abençoadas por autoridades da Igreja. Em declaração contra a proposta de reforma da Previdência, classificada como destruidora de direitos, a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) propõe, entre outras soluções, “auditar a dívida pública, taxar rendimentos das instituições financeiras, rever a desoneração da exportação de commodities, identificar e cobrar os devedores da Previdência”. Essa proposta mistura tolices do século passado, como a ideia da auditoria da dívida pública, bobagens econômicas, como a taxação das exportações de commodities (os concorrentes do Brasil agradeceriam), e obviedades, como ir atrás dos devedores. Não se faz justiça com ignorância. Isso os senhores bispos deveriam saber.

Direita, esquerda e realidade

Por Arnaldo Jabor - Estadão
Impressionei-me há pouco com uma polêmica ilustrativa entre o Pf. Samuel Pessôa e Pf. Ruy Fausto, na revista Piauí. Os debatedores são dois homens de alto nível, ilustres, mas dava para ver o desejo exasperado de Ruy Fausto defendendo os conceitos que o formaram, no seio mais profundo do marxismo. S. Pessôa defendia mudanças pragmáticas na ideologia, mas Ruy se apegou à tentativa de salvar sua fé, propondo um ‘capitalismo cerceado, autolimitado’, quase um capitalismo sem mercado. Quase repetindo a frase famosa do Geisel, quando disse que era a favor do capitalismo, mas contra o lucro.

Pessôa também diz: “Não ocorre a Ruy que alguém possa ter reavaliado suas ideias em direção a uma aplicação possível da social-democracia. Quem evolui é imediatamente tachado de neoliberal ou fascista”. Na mosca. A grandeza de uma nova esquerda teria de ser a aceitação do possível, mas isso não é sedutor.

E hoje, vemos a urgente necessidade de uma reforma no País, quase com perda total, pela estupidez brizolista da presidente. E vemos a universidade crivada de agitação e propaganda pelos professores. Vemos a espantosa ignorância dos que protestam contra a revisão do País.

Por isso, dediquei-me a listar impressões sobre esquerda e direita, na acepção primitiva de nossa paisagem ideológica. Aí vai.

A esquerda se considera o Bem. A direita se considera o Bem. Ninguém bate no peito e grita: “Eu sou o Mal!”. Ninguém é canalha e todo mundo se acha meio “de esquerda”, porque sabe que essa palavra ostenta um halo luzente, como uma coroa de santinho. Ninguém quer ser “de direita” - palavra com o estigma da peste, da maldade contra o povo.

O esquerdista de punho cerrado e carteirinha se sente justo e abençoado por um ideal e absolvido por seus erros. Ele quer a “purificação” da sociedade e tão nobre é esse anseio que ele pode ignorar incômodos detalhes da política normal - a santidade não precisa da prudência. As complexidades da democracia o entediam e são lidas como frescura, vacilação pequeno-burguesa e, no limite, traição; macho vai à luta em linha reta, ignorando obstáculos - hesitação é coisa de viado (aliás, quem escreve ‘veado’ é ‘viado’ - apud Millôr F.).

Ele ignora meios objetivos, pois se acha fadado à vitória final que virá um dia. Quando? Ele não sabe, mas tem fé, como um bispo da Pastoral.

Como será essa “redenção”? Ela é uma vaga imagem de massas cantando nas praças, punhos erguidos, todos regidos por chefes iluminados, passando por cima da democracia, essa coisa labiríntica que enche o saco. A esquerda ama uma categoria imaginária chamada “povo”, sinônimo ibérico de “proletariado”.

Povo: multidões sem teto, sem terra, sem cultura política. Nossos pobres destituídos não opinam, não têm poder algum, mas, para o esquerdista tradicional, eles têm a aura, o charme franciscano do nada. Nada ter é santo. Eles fascinam por sua pureza, muito aquém do mercado ou da globalização da economia. Assim, a invencível circularidade do mundo ficaria sob controle e os sentimentos “individualistas” ficariam domados sob a ideia da “solidariedade”, esse remotíssimo sentimento humano.

O típico esquerdista sonha com um passado de paz (quando houve?). Sua utopia é regressiva, de marcha à ré. Eles até aceitam provisoriamente a complexidade para poder ‘operar’, mas sempre de olho no tal futuro simplório e meio maoista. Aliás, a esquerda brasileira é um sarapatel de leninismo com populismo brizolista (vide Dilma) que o PT, aliado à pior direita patrimonialista, transformou em apropriação indébita.

A esquerda não tem memória. Dá um frio na espinha vê-la tender para os mesmos erros de sempre, os mesmo planos descolados da realidade. Mais terrível ainda: as derrotas e os fracassos tendem a ser considerados ‘santos martírios’ - estranha cruzada que se orgulha das derrotas. Quanto mais sofrimento, mais merecimento. Esse masoquismo óbvio não pode ser autocriticado, revisto, pois a esquerda tem pavor de cair num temido desvio de direita - o horror máximo! Qualquer esquerdista prefere ser chamado de ‘sectário’, em vez de traidor. Gostam de gestos radicais, impensados - coisas de machos.

Em vez de se incluir no mundo real, criticamente, revendo dogmas e táticas, a esquerda continua, contra todas as evidências, querendo mudar, com enxadas e desejos, o mundo atual como se muda o curso de um rio. A ideia de revolução continua entranhada em suas cabeças como um tumor inoperável.

A esquerda acha que é o Sujeito da História, enquanto a Direita sabe que a História não tem sujeito; só tem objeto - o lucro.

A esquerda confunde utopia com projeto. Já o capitalista só tem um projeto: ele mesmo. A esquerda só tem fins; não tem meios. O burguês só tem meios - ele é um fim em si mesmo. “Um dia chegaremos lá” - diz a esquerda. O burguês já chegou. O esquerdista tradicional não aceita que o capitalismo tenha dominado o mundo, quando até a China sabe disso. A esquerda brasileira existe como nostalgia da esquerda - quer voltar a ser o que nunca foi.

A esquerda sonha com o futuro; a direita com o mercado futuro. A esquerda sonha com o Bem; a direita com os bens. A esquerda só ama o todo; a direita só pensa na parte (a sua).

A esquerda é católica; a direita luterana. A esquerda não acredita na democracia; a direita também não. A esquerda não leu O Capital; a direita também não, mas conhece o enredo.

A esquerda é épica; a direita realista. A esquerda se acha mais inteligente que nós; a direita o é.

E, para terminar, lembro-me de uma outra polêmica mais antiga, também entre pessoas inteligentíssimas e cultas.

Eram dois marxistas sérios discutindo com o grande liberal José Guilherme Merquior na TV.

Os dois esquerdistas desfiavam os grandes erros do comunismo, numa autocrítica lúcida e autêntica: “Ah... porque erramos em 35 na Intentona, em 56 na Hungria, em 68 em Praga, em 68 no Brasil, erramos nisso, naquilo, aqui, acolá..., etc...”. José Guilherme não se aguentou e disparou: “Por que vocês não desistem?”.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Clonando Pensamento: Perfídias do coração

"(...) Uma desilusão amorosa exige muito dos que a sofrem e, nas horas amargas, nenhum consolo alivia, palavra alguma conforta, nada consegue remover da retina e da lembrança a imagem que se tornou ainda mais idolatrada. Não se pode ligar e desligar o coração como quem acende ou apaga lâmpadas manipulando botões. O tempo, e só ele, em geral, terá poderes para cicatrizar feridas que sangram.

O amor é um intruso sem-vergonha que chega sem ser convidado e depois nem a pontapés se consegue pô-lo fora de casa no instante desejado. Quase nunca o afeto profundo, avassalador, é uma opção consciente, fria, deliberada, pois, como disse o poeta: ´o amor nasce de quase nada e morre de quase tudo`. E se a paixão deixa de pedir licença para invadir uma vida, também só se retirará quando bem entender. Quantos desgraçados dariam tudo para odiar um demônio sem alma, que os tortura impiedosamente, mas o amam com a obsessão dos loucos, com o desespero dos náufragos. Quando não é remorso, o amor é saudade, e a saudade costuma aumentar exageradamente as proporções do bem que se perdeu. Daí a ineficiência das fórmulas, sérias ou gaiatas, para afugentarmos os fantasmas de uma grande afeição cujo funeral acabamos de ver passar.


Até onde conheço os homens, estou por ver alguém se libertar de um amor verdadeiro simplesmente recorrendo a uns ingênuos e engraçados bloqueios mentais, resistindo às tentações de sentir saudade do ambicionado ausente, pois ´muito mais se quer uma coisa na vida quando ela nos parece para sempre perdida`.

Experimentem as esposas abandonadas, os esposos traídos, as namoradas e as noivas que se descobriram substituídas - experimentem desativar sentimentos, desapaixonando-se apenas com as lembranças do lado negativo do desertor, ou insistindo em vê-lo mentalmente como um palhaço sem grandeza. Seus crimes e vícios se transformarão, teimosamente, em fascinantes virtudes.

Desculpem-me os catedráticos no assunto esta minha intromissão. Não tive pretensão de dar uma aula sobre as perfídias do coração, principalmente porque sei, que `em amor, quem se dispuser a aprender será sempre discípulo, mas quem se meter a ensinar, nunca será mestre`."

(Da crônica ´Perfídias do coração`, autoria de Emir Bemerguy, publicada no jornal O Liberal, edição de 17.12.1978)

Reforma política: Mudanças propostas

Origatoriedade do voto

COMO É HOJE
Voto é obrigatório para os maiores de 18 e menores de 70 anos. E facultativo para analfabetos, quem tem 16 e 17 anos e para os acima de 70 anos. A ausência às votações, porém, é expressiva. No 2º turno das eleições presidenciais de 2014, a abstenção foi de 21% do eleitorado, mas o cadastro do tribunal pode ter falhas e contabilizar como abstenções eleitores que já morreram.
EM DISCUSSÃO
Plebiscito em 2018 para que a população decida se mantém ou não o voto obrigatório.

Duração das campanhas

COMO É HOJE
Campanhas duram 45 dias até o 1° turno.
EM DISCUSSÃO
Campanhas voltam a durar 60 dias até o 1° turno. No segundo, tempo de propaganda na TV cai de 20 minutos diários para 10 minutos diários (5 minutos para cada candidato).

Financiamento

COMO É HOJE
Empresas estão impedidas desde 2015 de financiar os candidatos. Recursos vêm de pessoas físicas, do bolso dos próprios candidatos e dos cofres públicos (fundo partidário e renúncia de arrecadação para veiculação da propaganda eleitoral).
EM DISCUSSÃO
Criação de um segundo fundo público para custear as campanhas. Algo entre R$ 2,5 bilhões a R$ 6 bilhões, a depender do sistema eleitoral a ser aprovado. Hoje já existe o fundo partidário, que deve repassar aos partidos políticos R$ 820 milhões nesta ano. Mantém-se a possibilidade de doação de pessoas físicas e estabelece-se teto para o autofinanciamento.

Pesquisas eleitorais

COMO É HOJE
Pesquisas eleitorais registradas podem ser divulgadas até no dia da eleição.
EM DISCUSSÃO
Divulgação de pesquisas eleitorais registradas ficam proibidas nos três dias que antecedem o pleito.

Eleições para o executivo

COMO É HOJE
Presidente da República, governadores, senadores e prefeitos são eleitos pelo sistema majoritário, ou seja, aquele que tiver mais votos, é o eleito -no caso de presidente, governadores e prefeitos, se um candidato obtiver a maioria dos votos válidos é eleito já em primeiro turno.
EM DISCUSSÃO
Mantêm-se as atuais regras.

Sistema

COMO É HOJE
Deputados federais, deputados estaduais/distritais e vereadores são eleitos pelo sistema proporcional. Nesse sistema, o eleitor vota em candidatos isolados ou na legenda. As cadeiras são distribuídas com base na votação total que determinada coligação recebeu. Por isso às vezes um candidato é eleito mesmo recebendo menos voto do que um concorrente. Isso acontece porque os candidatos e partidos de sua coligação reuniram, no conjunto, mais votos. Um dos exemplos de distorção mais citados é o de Enéas Carneiro (1938-2007), então no Prona de São Paulo, que chegou à Câmara em 2003 com 1,57 milhão de votos, o que também alçou à condição de deputado cinco colegas do Prona que tiveram votações pequenas ou irrisórias, como Irapuan Teixeira, com menos de 700 votos.
EM DISCUSSÃO
Relator da reforma política na Câmara, Vicente Cândido (PT-SP) irá apresentar a proposta da "lista Fechada" para as eleições de 2018 e 2022. Nela, o eleitor não vota em candidatos isolados, como hoje, mas em uma lista definida previamente pelos partidos. Câmara e Senado tendem a estabelecer que os atuais congressistas terão lugar privilegiado nessas listas. São eleitos os candidatos melhor posicionados na lista, na proporção de cadeiras que a sigla conseguir. Acaba a possibilidade de coligação. Para 2026, a proposta é de adotar modelo similar ao alemão, o distrital misto. Metade das cadeiras seria preenchida pela lista fechada e a outra metade, por candidatos mais votados por região. Defensores da lista fechada dizem que ela barateia a campanha e fortalece a identidade dos partidos. Críticos apontam que caciques partidários terão poderes quase ditatoriais, haverá mais obstáculos à renovação na política, além de facilitar a reeleição de políticos encrencados com a Justiça. No distrital misto, 35 das cadeiras de deputados federais de SP seriam preenchidas pela lista fechada e a outra metade, pelos mais votados em 35 distritos em que o Estado seria dividido.

Coligações

COMO É HOJE
Pode haver coligações entre as legendas.
EM DISCUSSÃO
Acaba essa possibilidade.

Partidos "nanicos"

COMO É HOJE
Partidos com baixíssimo desempenho nas urnas, os chamados "nanicos", já sofrem algumas restrições de financiamento e atuação parlamentar.
EM DISCUSSÃO
Há regras mais duras para tentar barrar a existência dos "nanicos". O fim das coligações (alguns nanicos só conseguem eleger candidatos por meio de coligações) e regras de desempenho, que tesouram direitos parlamentares e de financiamento das siglas que não obtiverem um percentual mínimo de votação nacional.

Duração dos mandatos

COMO É HOJE
Mandatos hoje duram 4 anos. Eleições ocorrem de dois em dois anos. É permitida uma reeleição para presidente, governadores e prefeitos. Para senadores, deputados e vereadores não há limite para a reeleição.
EM DISCUSSÃO
Mandatos de 5 anos, sem direito à reeleição no Executivo.

Vices/Suplência

COMO É HOJE
Nos cargos do Executivo, a chapa é composta por um vice, que assume o mandato caso por algum motivo o titular fique impossibilitado de continuar a exercer o mandato. No caso de deputados e vereadores, a suplência é formada de acordo com a votação obtida por eles na disputa geral. No dos senadores, cada um têm suplentes definidos por eles antes das eleições, uma espécie de "vice".
EM DISCUSSÃO
Acaba a figura do vice no Executivo e do suplente "sem voto" dos senadores. No Executivo, o primeiro na linha sucessória será o chefe do Legislativo.

O que o eleitor deve escolher

COMO É HOJE
Em 2016, por exemplo, foram eleitos prefeitos e vereadores. Em 2018, serão eleitos presidente da República, governadores, senadores, deputados federais, governadores e deputados estaduais.
EM DISCUSSÃO
Eleições para o Legislativo e o Executivo seriam separadas. Presidente, governadores e prefeitos em um ano; senadores, deputados e vereadores, em outro.

Tribunais com indicações políticas

COMO É HOJE
Em tribunais como STF (Supremo Tribunal Federal), os ministros são indicados pelo presidente da República e aprovados pelo Senado. Não há mandato fixo, apenas aposentadoria obrigatória aos 75 anos de idade.
EM DISCUSSÃO
Mandato de 10 anos para tribunais com indicações políticas, como o STF.

domingo, 26 de março de 2017

Entrevista de Felipão

Folha - Você está há dois anos trabalhando no Guangzhou Evergrande. Como avalia esse período?
Scolari - A qualidade de vida é excelente. Posso elogiar todos os sete países em que trabalhei. China tem tranquilidade, segurança. As pessoas são muito corteses. É tranquilo para trabalhar. Temos um esquema de trabalho muito tranquilo: o CT é fechado, tem entrada de torcedores uma vez ao mês, é permitida a entrada da imprensa uma vez na semana, nos treinos que antecedem os jogos. É uma situação tranquila para o técnico e para viver. Estou feliz, tenho contrato com eles até o final do ano e tenho opção de renovar por mais um ano. Quero continuar no Guangzhou, mas dependo de resultados, já que o time é campeão chinês dos últimos seis anos.

Você foi recebido com uma faixa de "bem vindo, general". Qual é a imagem que os chineses têm de você?
Eles tem a minha imagem como a de um lutador pela equipe. Eles ficam boquiabertos porque o time está ganhando de 3 a 0 e estou na beira do campo brigando, pedindo falta. Eles não acham que isso é o procedimento de alguém que poderia estar tranquilamente no banco. Os próprios jogadores me receberam com um pouco de receio, mas depois do primeiro mês eles falam a todos que sou um dos técnicos mais compreensivos. É só uma questão de imagem.

Como é viver na China?
Muita segurança. Moro em um condomínio fechado em Guangzhou e saio 8 horas da noite para caminhar por quilômetros sem problema algum. Não existe nenhum problema. Vivemos bem. Tudo que imaginares de alimentação, tecnologia, etc., é tranquilo. O clube paga tudo no dia certo, corretíssimo. Não existe interferência alguma do dono do clube.

Você tem repetido a palavra "tranquilidade". É um refresco trabalhar na China para quem passou quase toda a carreira no Brasil?
Mas isso é uma coisa errada que dizem. Metade da minha carreira foi fora do Brasil. Tenho 34 anos de técnico e passei 17 deles fora do Brasil. A China é mais tranquila porque a forma de pressão é diferente, embora este ano vá ser bastante competitivo, mais do que outros anos. Tivemos mais investimento de outros clubes, e como somos campeões há seis anos começou a ficar mais difícil.

Temos a impressão de que os jogadores da China são ruins. O Corinthians trouxe o Zhizhao, que não deu certo. Qual é o nível técnico dos atletas?
Mas o Corinthians não trouxe jogador de seleção, eles tinham interesse em intercâmbio. O capitão da minha equipe jogou na Inglaterra e na Escócia. Tenho jogadores que estariam em qualquer equipe da Europa. Depende do que você imagina de um jogador chinês. Se jogássemos a Série A do Brasileiro, brigaríamos por uma posição entre 6º e 12º. Os jogadores chineses são bons. E no futebol chinês tem brasileiros muitos bons. No meu time, estão Ricardo Goulart, Paulinho e Alan, que estão fazendo coisinhas, viu? Renato Augusto está jogando muito. Ramires, Alex Teixeira, Gil, Tardelli... 

Já é possível comparar o Campeonato Chinês com o Brasileiro?
Não. Ainda faltam passos a serem dados, que não sei se serão dados pela Federação, porque precisa de muita organização e tempo. Precisa de campeonatos sub-17, sub-19, sub-20, que não existem lá. Como vão revelar jogadores? Eu comento, mas não entro no mérito da questão. Lá na China eu quase não indico jogadores para contratar. Quem faz isso é o clube, que me consulta, claro. E a minha função é treinar a equipe, sem discutir valores, nomes... 

O presidente Xi Jinping adora futebol e tem o projeto de transformar a China em uma potência no esporte. Como você vê isso?
Ele está dando bons passos para isso. Ele colocou o futebol como currículo escolar. Os colégios estão criando mais campos de futebol com auxílio do governo. Futuramente, com mais de 1 bilhão de habitantes, teremos bons meninos encaminhados no futebol.

Como o Estado influencia na rotina do futebol?
O Estado participa com a organização do clube, trata com a direção, presidência, e têm as suas definições. Mas o Estado não influencia nas situações [do dia a dia]. Os clubes têm, penso eu, liberdade para tomar as decisões. Os investimentos são feitos pelo Estado de maneira mas volumosa do que imaginamos, mas não sabemos exatamente. 

Como você vê as limitações do futebol chinês, como redução do número de estrangeiros e obrigação de escalação de um jogador com menos de 23 anos como titular?
Atrapalha, claro. Se eu quisesse, ou qualquer outro treinador quisesse, eu escalaria um sub-23. A gente compreendeu a ideia, e eu já vinha fazendo isso [promovendo renovação] desde que cheguei no Guangzhou. Na atual situação, alguns técnicos escalam esses jogadores por obrigação e os tiram depois de 15 minutos. Isso não é desenvolver jogadores sub-23. Tudo isso tinha que ser estudado com antecedência, com pelo menos um ano e meio para os clubes se prepararem. Mas foi feito uma semana antes do início do campeonato.

Após a venda do Oscar para o Shanghai SIPG, o técnico do Chelsea, Antonio Conte, disse que a China é um perigo para o futebol mundial...
Eles que não vendessem. Muito bonito: entrou um monte de dinheiro, venderam bem, e aí é um perigo? Não venda. É fácil falar assim. O que aconteceu quando o Telê Santana foi para a Arábia Saudita? Começaram a ir para lá vários jogadores. Depois foi a vez do Japão, com Zico. Provavelmente, daqui a um ou dois anos a China vai parar. E então o que vamos fazer? Cada time tem cinco ou seis estrangeiros. Agora coreanos, australianos e japoneses também contam como estrangeiros. O que os times vão fazer no meio do ano? Vão vender, emprestar... Daí o europeu vendeu bastante e agora vai receber de volta alguns jogadores. A China é perigosa, mas recebem o dinheiro. 

A China vive sob um regime autoritário e comunista. Como isso te afeta?
Vive-se lá como em uma democracia. Dentro do meu clube, falo abertamente com as pessoas, sem imposição ditatorial. E não vejo no dia a dia que me cerca um regime autoritário, e sim um país bastante aberto em relação ao que falam.

Você tem a mesma liberdade que no Brasil?
A mesma. Tem regras diferentes, então tenho que me adaptar. A vida é normal, simples, tranquila. É uma liberdade, mas com regras. Prefiro isso que uma anarquia.

Você saiu do país logo antes do impeachment e de toda a crise que se arrasta desde então. Como tem analisado esse momento?
É triste quando você está lá fora, defende o Brasil, fala com orgulho, e vê que tudo que sai de notícia daqui é ruim. A gente fica sempre vendido no assunto, parece que não tem arma para dizer que não é assim. Existe perspectiva de melhora, sim, mas parece uma novela, sempre com novos episódios.
No meu time, eles adoram o Paulinho, o Ricardo Goulart e o Alan. Mas principalmente o Paulinho, porque ele é um jogador que luta. O brasileiro é isso. Ele não vai à China só para ganhar dinheiro. Ele é profissional, joga porque gosta e se integra à equipe. E os chineses notam isso.
Esperamos que todas as ações sejam para que o Brasil tenha um caminho melhor daqui a 50 anos. Pode ser que meu neto vá começar a ver alguma coisa diferente. E morando lá fora parece que você não tem nenhuma forma de dizer que as coisas não funcionam como chegam as notícias. 

Você pensa em voltar a treinar a seleção brasileira?
Não. Já passei duas vezes. Fiz meu trabalho dentro do que tinha de possibilidades, e agora a seleção tem outros parâmetros, rumos, tem outro treinador, está bem dirigida. Nunca trabalhei nos clubes pensando em ser técnico da seleção. Não penso nisso, não.
Agora tenho um bom trabalho com o Guangzhou. Já ganhamos um título em 2017, e precisamos ganhar mais um ou dois. Pretendo ficar na China por pelo menos mais dois anos.

O que tem achado do trabalho do Tite?
Muito bom. Mudou a personalidade da equipe, o astral, o ambiente junto à população, conseguiu os resultados, e hoje tem o grupo bem organizado na mão dele. Está no caminho certo. 

O Tite tem por costume ligar para os treinadores dos atletas que convoca. Por conta das rusgas que vocês tiveram, ele não te ligou, certo?
Não. Mas ele mandou o Matheus [filho], que pelo que sei jantou com o Paulinho e o Alan. Acho que assistiu algum jogo. Se me ligasse, eu me responderia o que foi solicitado. Mesmo sem ligações eu passo opiniões que, se lidas ou ouvidas, podem ser analisadas por ele. Já falei de Alex Teixeira, Ramires, Alan, Ricardo Goulart, Renato Augusto...

Essa geração mais nova, à qual ele pertence, gosta de se embrenhar em discussões táticas com termos específicos: compactação, terços, etc.. O que você acha?
Os termos são diferentes, mas tudo é igual. Pressão alta é marcação da intermediária para frente. Primeiro terço, segundo terço... A gente diz defesa, meio-campo e ataque. É uma nomenclatura nova. Eu não uso, mas não quer dizer que não treine como são treinadas as equipes hoje. O importante é ganhar.

Pensa em voltar ao futebol brasileiro?
Não. Tenho até outro tipo de proposta, de um clube grande da Europa para a próxima temporada. Tenho também proposta para dirigir equipe como manager na Europa. Voltar para ser técnico no Brasil eu não quero. Vou ficar mais meio ano na China, e depois provavelmente vou ficar mais um ano, renovando o contrato. Quero ficar no mínimo mais dois anos na China, e depois vou pensar no que fazer. Agora que eu estou no Brasil, escreveram que eu vim porque estou saindo de lá, que estou me aposentando, que estou doente... O presidente do clube me mandou mensagens, ficou preocupado. Não tem nada disso. Tenho família, filhos, por isso viajei para cá.
Agora, pelo que eu iria brigar aqui no Brasil como treinador? O que acrescentaria ao meu currículo? Confusão na minha vida. As pessoas aqui confundem situações de campeonatos, de jogos e acontecimentos. Mesmo que fôssemos campeões, apagaria o que aconteceu na Copa de 2014? Não. As pessoas se lembrariam da Copa de 2002? Não. Tem canal de televisão que diz que os grandes campeões foram 1970 e 1994. Para eles, 2002 não existe. Fica uma situação que não quero mais viver. Há meio ano atrás, recebi o convite de uma das maiores equipes de futebol do Brasil para ser manager. Mas disse que não.
Quem sabe eu ainda vá para outra Copa. Escreve o que estou te dizendo hoje. 

O Xi Jinping gosta de você, então?
Não, não é a China. A China está com o Marcelo Lippi e tem dificuldades enormes para classificar para 2018. Se ele conseguir ajeitar o time, ainda vai brigar por um terceiro lugar para tentar passar, e tomara que aconteça, porque seria um grande passo para o futebol chinês. Eu ainda tenho uma possibilidade, sim, de voltar a uma Copa. Não por uma seleção da América do Sul, mas da Ásia. Pode ser na Rússia, mas também para 2022.

O que deu errado na derrota para a Alemanha na Copa de 2014? O que você faria diferente?
Não tenho muito o que justificar. Perdemos algumas bolas ali que... Hoje você olha o contexto do futebol mundial e o jogador tal que fez um gol de fora da área com o pé esquerdo nem chuta com o pé esquerdo. Aquele dia ele acertou. Além do mais, se tirarmos o Neymar e o Thiago [Silva] da equipe do Brasil, vão fazer falta. Podem querer crucificar o Thiago pela derrota para o Barcelona, mas não tem zagueiro melhor. Naquele dia, fizeram falta.
E deu tudo errado. Não faria nada diferente. Quando eu me comunicava com meus auxiliares, Murtosa, Parreira, e quando tínhamos a oportunidade de falar com pessoas que já jogaram futebol e que hoje são comentaristas, nós tivemos completo apoio de um, dois, três, sobre a forma de jogar. Depois, nenhum [comentarista] se manifestou.

O ex-presidente do Coritiba, Vilson Ribeiro, disse que ouviu seus soluços na noite após a goleada. Você se lembra disso?
Tu choras por muitas razões. Muitas vezes por felicidade, porque aconteceu alguma coisa muito boa na tua vida. Mas foi uma derrota frustrante, e que era pra chorar até hoje. Mas você chora um dia, chora outro, ou não chora e sente um pouco mais. Passei muitos dias triste. Agora, a vida continua. Só levanta de novo quem caiu e tem qualidades para levantar. Foi o que fiz. Estou muito contente com todas as atitudes que tomei depois da Copa. Lá na China já são seis títulos. E para mim o mais importante é que meus jogadores estão felizes porque estão jogando no Guangzhou. 

O torcedor brasileiro é ingrato?
Não. Ele é induzido a ser ingrato. Mas ele não é. Não tenho nenhuma queixa de torcedor. Até quando alguém se aproxima para alguma colocação mais pesada sobre a Copa de 2014, vem com educação. Mas alguns setores da imprensa induzem o torcedor a agir com maldade. Isso eu acho absurdo e errado. E outra coisa: os técnicos não têm representatividade alguma. Nossa associação está fundada, nós financiamos, mas não temos representatividade. Vou te dar um exemplo claro: o Micale. Antes da Olimpíada, foi absurdo o que fizeram com o rapaz, poderiam ter acabado com a vida dele. Depois que ganharam, mudou tudo. E a nossa associação nada fez, nem uma cartinha de repúdio. Você pode dar sua opinião, mas não do jeito que foi. 

Como tem visto a evolução do Neymar?
Estou muito contente com ele. Para mim, meu querido Neymar já está no nível dos dois melhores, Messi e Cristiano Ronaldo, e até o final do ano vai subir mais e brigar com eles pelas primeiras posições. E o Neymar é bom: tem caráter, é companheiro. Não tenho conversado com ele, mas acompanho.

Como tem visto o Grêmio e o Palmeiras, os clubes mais identificados contigo?
Grêmio vinha em uma dificuldade maior, mas ganhou a Copa do Brasil, este ano está na Libertadores. E fiquei muito contente com o que vi no CT do Palmeiras. O que o Paulo Nobre fez pelo Palmeiras merece 50 bustos. O Palmeiras vai se tornar um dos dez maiores do mundo com certeza, e isso por causa do que o Nobre fez. Estou levando fotos para os chineses do Guangzhou para mostrar que o Palmeiras tem condições de receber nossa pré-temporada. As dependências são espetaculares. Nesse sentido, meu time também melhorou muito: quando cheguei, tínhamos poucos aparelhos de musculação, não havia um vestiário apropriado para o trabalho. Os passos que foram dados pelo Guangzhou foram gigantescos.

Você já enfrentou o Renato Gaúcho e já treinou o Cristiano Ronaldo. Recentemente, o Renato disse que foi melhor que o português. Concorda?
Eu li e ri bastante. O Renato e o Cristiano são idênticos na forma de jogar: têm imposição física, são goleadores. Sempre falei isso. Mas o Renato é uma figura, está pouco ligando. Considero os dois do mesmo nível. Treinei times contra o Renato, e colocava meu lateral para chegar junto nele, batia um pouquinho para deixá-lo um pouco assustado. Para quem é gremista, como eu, ele é uma lenda.

A CBF é comandada pelo Marco Polo Del Nero, que não viaja para fora do país devido ao risco de ser preso. Isso não depõe contra o futebol brasileiro?
Não depõe contra. Não é o futebol brasileiro. Não é só o Brasil que está com problemas assim. Mundialmente, tem problemas. Nós olhamos mais a nossa casa.
Sim, eu acho que é uma situação que deveria ter uma tomada de posição. Mas quem é que pode impor alguma coisa? São os clubes, que não se rebelam. Quando é uma situação insustentável, quando tem uma situação com a sua mulher que é insustentável, você se divorcia.
Mas também tem que provar. Se há provas de que há alguma coisa errada, você apresenta aos órgãos competentes e eles tomam posições. Mas se não está explícito, como que vai fazer?
E mais uma coisa: eu nem sei se vale a pena o presidente viajar. Os jogadores cuidam das suas coisas; o treinador quer se ver livre. Não sei se ficar em casa não é a melhor coisa mesmo.

Gilmar, o Quixote

Por Eliane Cantanhêde - Estadão
Os políticos estão no olho do furacão, mas o caso do ministro Gilmar Mendes é particularíssimo, neste momento que ele mesmo chama de “tempestade perfeita” e de “crise sem precedentes”: ninguém jogou Gilmar no olho do furacão, ele mesmo é que se jogou de corpo, alma, mente, com um espantoso desdém às críticas e alertas.

Ministro do STF e presidente do TSE, Gilmar resolveu agir tal qual um Quixote, de armadura e lança em punho, lutando contra o senso comum e todos os moinhos de vento e de notícias. Se sopram para um lado, ele sopra para o outro, abrindo flancos na opinião pública, na Justiça, na PGR, na PF, na Receita e, agora, na sua própria casa, o Supremo. No cafezinho que antecedeu a posse do ministro Alexandre de Moraes, Gilmar circulava mais à vontade entre os políticos do que entre seus pares de toga.

O problema não são as ideias, porque muitos defendem o mesmo que Gilmar: é preciso depurar as práticas políticas, combater a corrupção e preparar o País para novos tempos, mas sem explodir os três Poderes. O problema é a forma. Antigamente, “juízes não falavam fora dos autos”. Atualmente, falam sobre tudo, o tempo todo, mas não devem tomar partido tão apaixonadamente.

Gilmar Mendes não precisava ir dormir com o ataque do procurador-geral Rodrigo Janot, condenando a “disenteria verbal”, a “decrepitude moral” e o “cortejar desavergonhadamente o poder” (referência às frequentes visitas de Gilmar a Temer). Com sua coragem pessoal e autoridade jurídica, o ministro não deveria gastar sua energia no treino, correndo o risco de entrar em campo capenga, ou estropiado, para os julgamentos da Lava Jato. Precisa se preservar.

Em sua cruzada, Gilmar defende que o foro privilegiado não é sinônimo de impunidade e autoridades não podem nem devem ser jogadas para instâncias inferiores suscetíveis a paixões eleitorais e interesses locais. Faz sentido, é uma contribuição a um debate crescente, que pode chegar a um meio-termo: manter o foro, mas criando instâncias específicas para aliviar o atual peso no Supremo.

Ele também se irrita com os vazamentos. Já ameaçou “descartar” as delações da Lava Jato que foram divulgadas e mandou abrir sindicância sobre o vazamento dos depoimentos da Odebrecht ao TSE. Diz que quebra de sigilo é crime e não admite, sobretudo, a exposição de nomes sem que nem eles nem a sociedade saibam exatamente como, onde e por que entram na história. O ministro, porém, sabe que vazamentos sempre ocorreram e sempre ocorrerão. E, como diz o juiz Sérgio Moro, a imprensa está no seu papel de divulgar.

A polêmica mais complexa em que Gilmar Mendes se meteu, porém, é a do caixa 2. Ele não apenas defende uma anistia “no momento oportuno” como a compara à repatriação de valores enviados ao exterior e não declarados oficialmente. Na anistia ao caixa 2 de campanha, como na repatriação, seriam excluídos os recursos ilícitos na origem, obtidos por corrupção, por exemplo, e sujeitos a punição penal.

É exatamente isso o que a esquerda, o centro e a direita discutem freneticamente no Congresso, para separar o “joio” (os corruptos, os que desviaram dinheiro público) e o “trigo” (os que “só” receberam dinheiro de caixa 2, inclusive porque o doador não aceitava ser publicamente identificado).

Mas é preciso combinar com “os russos”: a opinião pública, que nem sempre leu, nem sempre viu, nem sempre ouviu, mas já tirou suas conclusões e quer sangue, torcendo o nariz para qualquer negociação. Se ainda não está, logo essa mesma opinião pública ficará ressabiada com a valentia de um ministro tão particular do STF e do TSE, que pode até ter razão no conteúdo, mas é um contumaz descuidado com a forma.